Mineira é a primeira a subir e descer correndo os pontos mais altos de África, América e Europa

Maciço Vinson, na Antártica, já está na mira da ultramaratonista Fernanda Maciel para 2020

 

 

Ao escalar o Monte Elbrus, na Rússia, da base ao topo e de volta para a base em 7 horas e 40 minutos, a mineira Fernanda Maciel tornou-se, em abril, a primeira mulher a subir e descer correndo as montanhas mais altas das Américas, da África e da Europa. Um projeto pessoal que começou em 2016 e não tem data para acabar, já que Antártica, América do Norte e Oceania já estão na mira. Na Ásia, no entanto, ela prefere não falar. O santo Graal do montanhismo povoa seus sonhos, mas ela tenta afastar os impressionantes 8.848m do Everest do pensamento.

 

- Não quero cobrança e pressão, principalmente de mim mesma. Prefiro pensar desafio a desafio

– explica a ultramaratonista de montanhas de 39 anos, consciente de que completar o Everest na corrida é algo impensável para a maioria dos seres humanos. – Só um homem fez todas as montanhas mais altas de todos os continentes na corrida, o espanhol Killian Jornet.

 

Mas Fernanda não é como a maioria dos seres humanos. Essa mulher maravilha possui seus próprios superpoderes, que a tornam capaz de aguentar ar rarefeito e grande variação de temperatura enquanto vence o terreno acidentado e a altitude. Para ela, tudo começou em 2009, quando entrou para o circuito das ultramaratonas de montanha. E o grande ponto de virada aconteceu em 2016, ao se tornar a primeira mulher a subir e descer em menos de 24 horas os 6.962m do Aconcágua, ponto culminante das Américas, na parte argentina da Cordilheira dos Andes. O duro percurso levou 22 horas e 52 minutos, durante os quais seu corpo correu o risco de entrar em choque pela falta de oxigênio repentina. Terminou tão exausta que seria de se imaginar que ela estaria satisfeita com o feito. Mas mal desceu, já estava pensando no viria em seguida.

 

Em 2017 foi a vez do Kilimanjaro, na Tanzânia, percurso que completou em 10 horas e seis minutos, mais um recorde mundial. Com 5.895m, o ponto mais alto do continente africano é mais baixo que o Aconcágua e menos gelado do que o Elbrus. No entanto, a variação de temperatura entre sua base encravada na floresta, quente e úmida, e seu cume, frio e seco, acrescenta dificuldades extras ao trajeto.

 

- Lá também a terra é vulcânica, vai se esfarelando. E houve um momento em que uma pedra gigante, do tamanho de um fogão, veio rolando na minha direção. Consegui saltar para o lado e só ralei o joelho – lembra Fernanda, que também sofreu uma queda no Aconcágua, mas sem maiores repercussões.

 

O Elbrus, com 5.642m, foi conquistado no último domingo de abril, 29, a uma temperatura de 23°C negativos. O frio intenso, agravado por nevascas que tiram totalmente a visibilidade do alpinista nas proximidades de seu topo, fez com que a corrida tivesse que acontecer numa curta janela de tempo em que o clima deu um refresco.

 

- Em um ano, tem um mês em que é possível escalá-lo. Nesse mês, são 4 ou 5 dias. Fiquei três semanas lá, e em todo esse período o tempo só abriu em dois dias. Aproveitei um deles. Na média, estava fazendo entre 25° e 30°C negativos, mas nesse dia fez 23ºC negativos. Havia a informação de nevasca às 14h, então saí às 5h15 para poder dar tempo de voltar antes. Fui pega por ela já no meio do caminho da volta, num ponto onde não havia mais perigo – conta a ultramaratonista e alpinista, segunda mulher a conquistar o Elbrus dessa forma. – Uma russa fez o mesmo que eu em menos tempo.

 

Fernanda não vai parar. Em janeiro de 2020, será a vez do Maciço Vinson, ponto de maior altitude da Antártica, com 4.892m e promessas de temperaturas ainda mais baixas do que as russas, além de buracos perigosos nos quais ela precisará estar atenta, para não cair. Nos planos, estão também a Pirâmide Carstensz, na Indonésia, ponto culminante da Oceania com 4.884m, e o Monte Denali, no Alasca, com 6.190m, o mais alto da América do Norte. Depois disso, faltará apenas conquistar a Ásia.

 

- O Everest é quase 2 mil metros mais alto do que o Aconcágua, é uma diferença muito grande, não posso pensar nisso agora – comenta. - O perigo maior nessas montanhas é quando a gente ultrapassa os 5 mil metros de altitude, principalmente na velocidade em que eu vou. Porque a gente chega no que nós chamamos de zona da morte.

 

São altitudes em que, por conta da menor pressão atmosférica, o organismo absorve cerca de 40% de oxigênio do ar, o que pode levar até mesmo a edema pulmonar, quando um acúmulo de líquidos no pulmão leva a severa falta de ar, ou edema cerebral, que pode levar até mesmo ao coma. Para evitar riscos, Fernanda faz uma intensa preparação seguida de uma criteriosa aclimatação. Primeiro, passa dias na região, treinando em montanhas acima 4 mil metros e dormindo na altitude, para se acostumar à temperatura e ao ar rarefeito.

 

- Sou atleta desde os 8 anos, quando comecei com ginástica olímpica, e corro desde 2002. Há dez anos faço ultramaratona de montanhas. Conheço meu corpo, adquiri técnica e experiência para entender as particularidades de cada montanha e tenho acompanhamento médico constante. Se meu nível de ferro não estiver bom, por exemplo, eu não posso subir – diz ela, que conta com a ajuda de um guia, que sobe antes e fica esperando por ela perto do cume. – Nem daria para subir junto comigo, porque o guia não conseguiria acompanhar a minha velocidade. Ele fica lá como uma medida de segurança.

 

 

Para aguentar o percurso sem desidratar, ela leva água, chá quente e isotônico numa mochila, além de barras de proteína e carboidrato e balas de açúcar, para controlar a glicose. Na mochila, vão também um rádio, um celular e um GPS, para ela não perder a comunicação com o resto do mundo. Para não congelar, suas roupas são feitas de um material de rápida secagem, para evitar que o suor dela não congele, incluindo a jaqueta térmica. Escolhas feitas minuciosamente não só para o seu desafio pessoal, mas também para o circuito mundial de ultramaratonas de montanhas, do qual participa. A próxima prova é o Ultra Trail du Mont Blanc, em agosto.

 

- Ela começa em Chamonix, na França, e passa por Itália e Suíça. Atravessa três países num percurso de 170km, na altitude – conta ela, que pensa alguns segundos e ri antes de responder o que faz nos momentos de lazer. - Eu não sei. Eu estou sempre subindo e descendo montanhas.

 

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