Bicicletas compartilhadas, patinetes elétricos, micromobilidade? não, só negócios.

 

Pode ser novidade no Brasil, mas em outros lugares já perceberam bem. Essas empresas de compartilhamento de bicicletas e patinetes visam apenas lucros.

 

Caro leitor, cara leitora. Pra quê serve uma empresa? Apenas para dar lucro. É o resto da sociedade que força o empresário a seguir outros valores também. Mas se a empresa não der lucro, ele quebra. Em alguns negócios, uma ou outra operação deficitária existe pois o empresário precisa da imagem que ela produz.  Isso acontece com instituições financeiras, por exemplo.

 

Certa vez, aqui em São Paulo, um dos implantadores das ciclovias nova-iorquinas numa fala na Ciclocidade, numa apresentação, comentou que no mundo inteiro bancos gostam de operar sistemas de bike-sharing pois possuem uma impressão negativa na sociedade. Rimos, pois tinha um banco brasileiro gastando uns trocos pra espalhar um refrão: “isso muda o mundo”. E claro, bicicletinhas aparecendo nas peças publicitárias.

 

A publicidade, o marketing, se de um lado são despesa para o empresário, também são uma forma de melhorar a imagem e aumentar as vendas, os negócios. Essa é a lógica do mundo empresarial, pura e simples, importa vender, negociar.

 

A questão não é o anúncio, a publicidade. A questão sequer é o negócio. Pois fazer negócios é a função social da empresa.

 

Todavia, algumas empresas no setor de mobilidade fazem um discurso e possuem outra prática.

 

No Brasil, é comum que haja empresário passando imagem bonitinha e sonegando direitos trabalhistas e também tributos. O discurso é que se pagarem tudo quebram, seu negócio não é viável, e esquecem que o negócio precisa ser viável dentro da lei, senão é inviável, pura e simplesmente, e está apenas protelando o cumprimento de deveres.

 

Outras empresas nem fazem isso. Mas apresentam “soluções” que não exatamente o são. Conhecemos bem o caso da empresa multinacional UBER que afirma ser apenas uma intermediadora entre pessoas com necessidade de transporte e pessoas com veículos ociosos. Na prática o que estamos vendo ao redor do mundo é essa empresa desestabilizado os serviços de táxis (não necessariamente fornecendo serviço mais barato, por exemplo nos horários de pico, da minha casa ao metrô UBER cobra 37 reais e o táxi custas os mesmos 20 reais de sempre), e está essa empresa também enfrentando questões trabalhistas em diversos países. E em São Paulo não são raros os casos de gente que pega motoristas que relatam estar há 12, 14 horas no trânsito, exaustos.

 

Há algum tempo apareceram bicicletas de compartilhamento em estações em São Paulo. Depois bicicletas amarelas “dockless”. Por fim, apenas nos trajetos planos e com ciclovias, patinetes motorizados. Como diz a empresa, “scooters”. Também acho adequada a terminologia: são veículos com aceleradores, e veículos com aceleradores não devem circular nem em ciclovias nem em calçadas, com a ressalva dos veículos de pessoas con deficiências.

 

Quem trafega pela Avenida Paulista ou pela Avenida Faria Lima percebe a muvuca causada pelos veículos com acelerador nas ciclovias, atrapalhando o transporte ativo.

Por outro lado, quem mora fora do centro expandido -e até em alguns pontos dele – percebe que as empresas apenas disponibilizam seus serviços em determinadas áreas. Pois sim, ali está a “clientela”.

 

Dentro dessa lógica, devemos lembrar que essas empresas não apresentam “soluções”. Assim como restaurantes não são solução para quem tem fome sem ter poder de compra, mas apenas são o negócio de fornecer comida a quem paga, essas empresas não vieram pra solucionar questões de mobilidade em São Paulo ou em qualquer outro lugar, mas apenas estão aí pra ganhar dinheiro.

 

Fica evidente isso se você se der ao trabalho de ler esse curto relato do empreendedor e ativista Roberson Miguel no Medium.  Imagine que a empresa que compartilha bicicletas e “scooters” (os patinetes motorizados) organizou um “summit” e não instalou um paraciclo para quem fosse em bicicleta prendesse-a.

 

O encontro foi só uma tentativa de melhorar sua imagem. Mas, sinceramente: em nome do lucro de alguns devemos que todos corram riscos com esses veículos elétricos que aceleram rápido (um motor elétrico tem a capacidade de usar toda a sua potência imediatamente, ao contrário de motores a explosão que queimam combustíveis) trafegando na estrutura construída para o transporte ativo, onde devem circular apenas bicicletas, cadeiras de rodas e outros ciclos não motorizados?

 

Por outro lado, por qual motivo não vemos bicicletas de compartilhamento e os tais “scooters” no entrono de estações como as terminais da linha 1Azul do metrô, Tucuruvi e Jabaquara? Por qual motivo não há também esses veículos disponibilizados no entorno de  estações de trem da Zona Leste de São Paulo? Será que algum desses gestores da empresa já viu o tamanho da Praça do Forró em São Miguel Paulista?

 

Essas empresas, tenham o nome que tenham, não apresentam “soluções”, mas apenas serviços comerciais como quaisquer outros.

 

Mas vamos lembrar que em São Paulo nem a Prefeitura  quer saber de ciclistas. Câmaras temáticas e outros canais de participação popular são só enrolação. Se duvida disso, apenas leia essa reportagem da Folha de São Paulo. Sim, veja bem, ciclovia sem custos para a Municipalidade, essencial para a ligação de dois trechos importantes, não está sendo construída pois a gestão Dória/Covas não se mexe.

 

Pois bem, a inciativa privada não apresentará soluções efetivas, e o setor público não se mexe. E assim o ciclista, o cidadão, fica ao Deus-dará. Mas, até quando?

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