Bicicletas e o Teorema do Chifre

 

Um grande mito está movimentando o mercado e nos mergulhará num mar de poluição.

bicicleta elétrica da Phantom. Jeitão de motocicleta antiga.

 

Antes de tudo, vou explicar o Teorema do Chifre, que nos indica uma diferenciação entre ontologia e epistemologia. Seu enunciado é: “O desconhecimento não implica na inexistência.“. Em resumo, não por que você não sabe, não viu, não sentiu, que não está lá na sua testa. Chifre é assim. E tudo na vida é como chifre.

 

Você está ouvindo há décadas: bicicleta é um transporte não poluente. Em relação a outros veículos motorizados, toda bicicleta, por não possuir motor, por si só já polui muito menos, mas polui. Mas vamos entender isso.

 

Um pneu deixa partículas de borracha no asfalto. E como isso vai acontecendo paulatinamente, ele se desgasta, fica careca. Mas um pneu menor o faz em menor intensidade. Assim um pneu de carro polui bem mais que um pneu de bicicleta. E são 4 – quatro! – num carro, contra 2 numa bicicleta. Basicamente, menos material é menos poluição.

 

Bicicletas são feitas de ligas metálicas, compostos plásticos e borracha. Como outros veículos. Mas a ausência de um motor já diminui a quantidade destes componentes. E também, pelo fato de não ter um motor faz com que não emita poluição atmosférica. Pois todo motor polui.

 

Existem sendo utilizados dois tipos de motor nos veículos. O motor a explosão aproveita-se da expansão de gases da mistura ar + combustível pra mover as peças que aproveitarão a força dessa expansão e transformar em movimento. A ampla maioria é de motores com pistão, ciclo Otto ou ciclo Diesel mas há outras configurações, como os motores de ciclo Wankel, utilizados pela Mazda.

 

Quando falamos de motor elétrico, falamos na verdade na velha brincadeira de afastar e aproximar ímãs, só que usando eletroímãs. Tudo bem montadinho, fazemos isso transformar-se em movimento. Pra ficar mais fácil de entender, o videozinho abaixo do Youtube que permite legendas em português explica direitinho. E se você olhar bem para o motor sem escovas (brushless) funcionando, verá que a parte externa é que gira.Esse é o tipo de motor que encontramos nas chamadas bicicletas elétricas, os motores no cubo da roda.

 

A questão nos veículos elétricos é como obter a energia para movimentar o motor. O mais comum obviamente é o uso de baterias. Por sua vez essas baterias precisam ser carregadas por energia elétrica previamente produzida.

 

Se nos motores a explosão é mais perceptível a poluição do ar, nos motores elétricos não. A indústria do petróleo polui horrores (basta lembrar de vazamentos de petróleo na natureza) e a queima de combustíveis também. Lembrando do fato público e notório: poluição do ar em São Paulo mata 4.600 pessoas ao ano, por males por ela causados ou agravados.

 

Mas a produção de energia elétrica também mata, devasta, polui. A não ser que você tenha uma turbininha eólica em casa para produzir sua própria energia, você está apenas mandando pra longe a poluição do seu veículo com motor elétrico, seja um moderno e esportivo Tesla, seja aquele patinete pra atropelar pessoas na ciclovia da Avenida Paulista.

 

Da mesma forma depois o descarte das baterias polui absurdamente. Lembrando que as bicicletas eletrificadas usam o mesmo tipo de bateria – embora com forma diferente – dos veículos automotores: baterias de chumbo.

 

Você já parou pra pensar como se produz a energia elétrica que você utiliza? Se falamos em usinas hidrelétricas, temos que lembrar da devastação produzida pela sua construção, inundando ecossistemas. A construção do reservatório de Itaipu, por exemplo, acabou com um sistema de 19 cacheiras agrupadas em 7 grupos, as “Sete Quedas”, que possuía o maior volume de água transitando em queda do mundo, duas vezes o Niágara americano. Leia um pouco sobre isso aqui.

 

Construir reservatórios de água sempre parece uma coisa boa, mas nem sempre o é, temos que ter em mente que a vegetação alagada e coberta apodrece, modificando as características da água, e liberando dióxido de carbono e metano. Neste sentido, leia aqui sobre a Usina Hidrelétrica de Tucuruí aqui e note: 1: o desastre ambiental. 2. o caso “Capemi” que indica corrupção.

 

A questão básica é: haverá no futuro energia para tudo? E se pensarmos no caso do Brasil, devemos lembrar que não há nenhum, absolutamente nenhum, incentivo para a microprodução de energia, a produção doméstica de energia. Instalar sistema solar de produção de energia solar numa casa é caríssimo em razão da tributação. E praticamente não há relógios de energia bidirecionais.

 

Houvesse um forte incentivo, cidades como São Paulo poderiam ter uma grande parte da energia consumida produzida localmente. Com relógios bidirecionais, a energia produzida excessivamente num imóvel alimenta a rede, e quando não produz, obtém energia da rede. O relógio bidirecional marca o que entra e sai de energia, obviamente um compensado outro. Se a cidade está produzindo bastante energia seu consumo geral diminui e a produção de energia em hidroelétrica pode ser diminuída, diminuindo a vazão de água, e a água é então economizada.

 

Mas isso não se faz no Brasil, e enfrentamos desafios no fornecimento, além, óbvio, de apagões em áreas imensas quando há chuva intensa que danifique a rede.

Há algumas semanas fiquei em casa com 6 horas sem energia elétrica durante uma tempestade. Seus ventos poderiam ter movido bastante uma pequena turbina vertical – coisa que já se instalam nos EUA em grandes cidades como Chicago para aproveitar ventos encanados entre edifícios – e alimentado minha residência com energia elétrica.

 

Mas o armazenamento de energia também polui. Baterias possuem vida útil finita e curta. Em poucos anos uma bateria de chumbo precisa ser descartada. Enquanto o resto da bicicleta pode durar décadas…

 

Em tese essas baterias de chumbo, que são usadas em veículos como carros e bicicletas elétricas, no fim da vida útil devem ser recicladas. Parte delas iria para uma “disposição final adequada” num aterro (encheremos o mundo com esses aterros? mandaremos par ao espaço?). Mas na prática empresas simulam dar adequada destinação. Leia essa reportagem sobre a antiga fábrica da Saturnia para entender. 

 

Na prática, pode ser que um veículo elétrico polua tanto quanto um veículo a motor a explosão. Ou um pouco menos, mas muito mais que um veículo a propulsão humana. E o grau de poluição aumenta com a potência do motor.

 

Em resumo: se tem motor ferra com o planeta. E voltamos ao início, o Teorema do Chifre. Não é por que você não percebe a poluição, que ela não esteja lá. Pois ela pode estar bem longe. Veja o curto videozinho da ONU sobre como em países pobres o lixo eletroeletrônico dos países ricos está poluindo:

 

O fato é o seguinte: na medida em que vamos aumentando o nosso consumo de energia elétrica, vamos poluindo de novas formas. Claro que é trocar o motor a explosão pelo motor elétrico, seja em carros, bicicletas, motocicletas ou o que for. Mas é como trocar uma roda quadrada por uma roda triangular, que dá 25% menos trancos por volta da roda…. Mas continua sendo uma roda com cantos vivos.

 

O ideal mesmo é melhorar a eficiência dos transportes ativos. Para isso, devemos investir em estudos sobre aerodinâmica e diminuir o atrito ao deslocar a bicicleta. Afinal, é por isso que adoramos baixar o tronco e estar numa bicicleta com pneus finos naquela longa descida, para aumentar nossa velocidade.

 

E claro, se abandonássemos os códigos de vestimenta idiotas poderíamos trabalhar usando bermudas e camisetas. O planeta agradeceria.

_____________

 

Em tempo, sobre chifres e cornos, conhece o corno elétrico? Avisado que está tomando chifres, sempre responde: “Estou ligado!”. Para todos os cornos elétricos deste Brasil, dedico este clássico aqui.

Please reload

Posts Em Destaque

I'm busy working on my blog posts. Watch this space!

Please reload

Posts Recentes
Please reload

Arquivo