Saiba quais são as lesões ortopédicas na corrida de aventura

 

Seja corrida, escalada ou ciclismo, temos de conhecer os efeitos desses esportes no corpo humano; tendinites, fraturas, formigamento, dor no calcanhar e inflamações são os problemas enfrentados pelos corredores

 

Assim como em qualquer modalidade de esportes de aventura, a corrida de aventura tem seu leque de possíveis lesões que, nada mais são que uma somatória das lesões descritas nas outras modalidades. A grande diferença aqui é que o período de exposição do corpo humano aos fatores ambientais, somado aos fatores predispositivos pessoais crescem de maneira exponencial. Por exemplo: uma dor que começou no trekking pode se agravar na bike, na canoagem e, novamente na escalada. Ao contrário de outras modalidades, uma articulação com pouca flexibilidade ou uma dor crônica recidivante pode tornar a corrida de aventura, um tormento.

 

Tornozelos

 

Comum entorses seguidos de lesões ligamentares ou fraturas. O uso contínuo da articulação pode, ainda, desencadear quadro de tendinite, principalmente do Tibial Posterior e dos Fibulares. Pessoas portadoras de uma anomalia conhecida como “barra óssea”, uma espécie de fusão anormal entre os ossos do pé, possuem mobilidade do mesmo anormal e, consequentemente, maior predisposição ao desenvolvimento da doença.

A corrida de aventura pode causar lesões no tornozelo e no pé — Foto: Getty Images

 

Pés

 

Assim como no trekking, as lesões ocorrem por períodos prolongados de caminhada, incluindo congelamento nos dedos do pé quando expostos à agua fria por períodos prolongados; escoriações e bolhas por caminhada de longa distância ou tênis inadequado e lesões às unhas.

 

Uma estrutura de especial atenção é a Fáscia plantar. Uma espécie de “mola” responsável por manter o arco de sustentação do pé sem contato com o solo. Quando há pouca flexibilidade, ou excesso de micro-trauma por repetição, pode ocorrer uma condição denominada Fascite Plantar, uma reação inflamatória degenerativa que cursa com dores nos calcanhares, comumente pior ao se levantar, semelhante a um “espinho espetando” e que pode se agravar se não devidamente cuidada.

 

Joelhos

 

É uma articulação que "sofre" muito nesta modalidade. O período de exposição, associado à total irregularidade do terreno predispõe, sem dúvida à sobrecarga fêmoro-patelar. Como descrito em outras modalidades, a articulações entre o Fêmur e a Patela é de biomecânica complexa e comumente lesa-se quando submetida à desaceleração constante, como, por exemplo, numa descida íngreme. Esta articulação, na corrida de aventura, após submetida ao micro trauma de um trekking ou de uma escalada é sujeita ao estresse cíclico da pedalada. Certamente, se não houver um adequado ajuste de altura de banco, quadro e falta de técnica na pedalada, a lesão seguida de dor será inevitável.

 

A adrenalina de correr também pode ocasionar os entorses de joelho que, por sua vez trazem consigo uma enorme gama de possíveis lesões, incluindo a do ligamento cruzado anterior (estatisticamente o mais lesado) e colateral medial, lesão meniscal e lesões à cartilagem articular.

 

Coluna vertebral

 

A coluna, quando submetida ao esforço físico repetitivo de flexo-extensão numa escalada, ou ao tempo prolongado em flexão mantida numa mountain bike ou por movimento torcional carregando mochila pesada nas costas pode desenvolver as síndromes dolorosas, ou lombalgias. Felizmente, a maioria delas enquadra-se nas chamadas “mecano-posturais”, ou seja, dores seguidas de contraturas musculares, que nada mais são, que um processo inflamatório localizado e auto-resolutivo. Geralmente estão associadas à pouca força e flexibilidade da musculatura lombar, ou até mesmo por um desequilíbrio entre a musculatura flexora do tronco abdominal e a extensora lombar. Por isso, a correção destes fatores através da melhoria do condicionamento físico e o seguimento com um instrutor da modalidade são imprescindíveis para que a lesão não ocorra.

 

Ombro

 

Estatisticamente, a articulação mais afetada nas técnicas que envolvam remadas. Serve como fulcro de movimento, suportando torque rotacional da cabeça umeral contra a glenóide (uma parte do osso do ombro), exigindo integridade e harmonia da musculatura da chamada cintura escapular. A remada da corrida de aventura exige movimento contínuo e cíclico das mãos atuando acima do nível dos ombros. — Foto: Getty Images

 

O conjunto músculo-tendíneo conhecido como manguito rotador “abraça” a cabeça do Úmero como uma mão agarrando uma bola de tênis. Tem a função de estabilizar o Úmero e promover rotacionais. Durante seu funcionamento, em indivíduos com predisposição, pode haver o choque, ou “impacto” desta estrutura contra o prolongamento mais lateral da Escápula (Omoplata), o Acrômio, levando à Síndrome do Impacto. Esta doença, popularmente conhecida como “Bursite”, nada mais é que a tradução de uma tendinopatia degenerativa que, em estágios mais avançados, pode levar à ruptura dos tendões componentes do manguito rotador e, conseqüente perda de função.

 

Outro conjunto de lesões recentemente investigadas são as chamadas micro-traumaticas, ou seja, aquelas causadas pelo esforço repetitivo e de evolução silenciosa. Sua manifestação clássica é a chamada “Síndrome do braço morto” , na qual, o afrouxamento contínuo da cápsula da articulação do ombro causa instabilidade, ou seja, ocorrem movimentos “anormais” do úmero contra a glenóide, com dor súbita e descrita como lascinante, fazendo com que o braço do atleta caia, perdendo temporariamente sua função. Isto, sem dúvida é extremamente desapontador para o praticante de esportes a remo.

 

A prevenção é o melhor remédio para as lesões do ombro. A correção de vícios de postura, fortalecimento muscular prévio e o acompanhamento de um instrutor da modalidade são imprecindíveis para um bom desempenho, livre de lesões.

 

Mãos

 

Existe sempre a posibilidade de agressões às mãos, principalmente quando se usa técnicas de escalada, podendo haver arrancamento de unhas, fraturas de falanges e lesões tendineas. Por isso, o preparo adequado das mãos e o treinamento prévio para tecnicas verticais são muito importantes. Ao pedalar, devido ao tempo excessivo do firme contato das mãos ao guidão da bike, poderá ser desencadeado o "formigamento" clássico de acordo com o nervo acometido.

O longo contato das mãos ao guidão da bike pode causar formigamento — Foto: Reuters

 

Músculos

 

Correr em ambiente acidentado envolve o recrutamento de diversos grupos musculares com propriedades biomecânicas complexas, com tipos de contrações diferentes. A falta de flexibilidade aliada ao movimentos acima do limite suportado por um determinado grupo muscular levará à distenção em seus mais diversos graus, desde micro-estrutural, com pequeno sangramento local à ruptura total do ventre muscular. Tipicamente, o local mais afetado é a musculatura da panturrilha. Esportistas e atletas descrevem a lesão como uma sensação de uma “pedrada” com dor e incapacidade imediatas.

 

Outras possíveis lesões musculares incluem a acidose lática e o dolorimento muscular tardio. A primeira está relacionada ao acúmulo de ácido lático bem localizado, gerando dor logo após o esporte.Isso se deve ao “despreparo” de determinado grupo muscular que, ao sofrer fadiga, deixa de converter a glicose em energia (via aeróbica) e a converte em ácido lático (via anaeróbia). Sem dúvida, uma espécie de proteção local contra lesões. O segundo grupo é aquele tipo de dor desencadeado alguns dias após o esporte. Especula-se que há relação direta com reação inflamatória da placa neural, ou seja, uma estrutura de ligação entre os neurônios motores e as fibras musculares estriadas.

 

Lesões por “over use” extremo

 

Aqui entram um rol de lesões que podem se desenvolver especialmente em atletas de elite com muita garra e determinação competitivas que podem acabar indo muito além dos seus limites fisiológicos. Raramente poderão acontecer com aqueles que eventualmente praticam o esporte. A fratura por estresse ocorre tipicamente quando o atleta aumentou subitamente o seu treino. Em geral, manisfesta-se por dor bem localizada que piora na corrida e melhora no repouso. Como o próprio nome diz, existe fratura na porção mais externa do osso. O metatarso, tíbia e fíbula são os locais mais afatedos, mas podem também ocorrer no colo do fêmur, púbis e outros ossos do pé. O tratamento inclui repouso, fisioterapia e exercícios na água a fim de se evitar perda de performance cardio-vascular.

 

Politraumatismo

 

Por lidar com técnicas verticais e travessias de rios, a corrida de aventura é vista pela medicina selvagem como uma modalidade de potencial lesão e risco de vida, incluindo afogamentos, traumatismo crânio-encefálicos, fraturas, entre outras.

 

Referências

 

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*As informações e opiniões emitidas neste texto são de inteira responsabilidade do autor, não correspondendo, necessariamente, ao ponto de vista do Globoesporte.com / EuAtleta.com.

 

Médico do esporte e ortopedista especialista em traumatologia do esporte e cirurgia do joelho. Membro da diretoria da Sociedade Paulista de Medicina Desportiva (SPAMDE) — Foto: EuAtleta

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