Temporada Austral, balanços e badalos

November 12, 2018

 

Tudo começou com um livrinho apresentando 25 roteiros de mountain bike próximos à capital paulista. Isso foi nos idos de 2001, quando dei o primeiro passo para me tornar uma espécie de “aventureiro profissional”, que prefiro chamar de “vagabundo profissional”. Naquela época, praticar esportes de contato com a natureza num ambiente cada vez mais urbanizado e populoso, sempre mais perigoso por ser socialmente desigual e economicamente dividido, ecologicamente poluído e desprovido do respeito que a cultura outdoor promove em países mais civilizados que o nosso, era difícil. Minha iniciativa foi, então, responder à pergunta básica: onde pedalar mountain bike vivendo na cidade de São Paulo? Nem preciso dizer que o livrinho foi um estrondoso sucesso. E sua sequência, a coleção GUIA DE TRILHAS ENCICLOPÉDIA, com 8 volumes e mais de 4.000 km de trilhas mapeadas, continua agradando a gregos e troianos. 

 

E, sinceramente, não acho que o cenário mudou para melhor de lá pra cá. Entra governo, sai governo e o Brasil continua sendo a terra da soja, do gado de corte, da cana de açúcar e do milho transgênico. Nossos rios, matas, morros e cachoeiras que não viraram esgoto, pasto e lavoura, são fechados em muros dentro de propriedades particulares para o desfrute de poucos. Nem sinal do país de natureza exuberante que poderia encantar o mundo. Parece que tudo o que brota da terra tem que parar numa prateleira de supermercado. E aqueles que, como eu, gostam de por do sol, de cheiro de chuva ou da vista do topo das montanhas é considerado subversivo. Pobre Brasil, tão rico e tão medíocre. 

 

Na minha trilha pessoal, as coisas foram se desenrolando daquele jeito que faz a gente pensar que existe destino, até que, atualmente, cheguei a algumas fórmulas. Primeiro, publicar livros com roteiros de trilhas que pesquiso, descubro, invento e organizo, às vezes ao longo de um ano inteiro de trabalho, já não atende à demanda do público. O mapeamento de toda a Serra da Mantiqueria, no GUIA DE TRILHAS CICLOMANTIQUEIRA; do sul do Brasil no GUIA DE TRILHAS SERRA GERAL (BLUGRAMA) ou da Patagônia chilena no GUIA DE TRILHAS CARRETERA AUSTRAL; ou ainda de roteiros clássicos de trekking nos dois volumes da coleção GUIA DE TRILHAS TREKKING, tudo isso faz parte de um patrimônio disponível mas ainda pouco valorado. 

 

A linguagem digital, de filmes e arquivos de GPS, mais objetiva, dinâmica, superficial e principalmente gratuita, é a preferência nacional. O problema é que não dá pra ganhar a vida fazendo filmes ou arquivos de GPS, o que restringe esse trabalho hoje aos amadores bem-intencionados. Profissionais dessa área, como fui por muitos anos, entraram pra lista de profissões extintas, junto com ascensorista e vendedor de enciclopédia.

 

Segundo, não basta publicar um livro com roteiros, dicas ou textos incentivando e inspirando para a aventura, como fiz nos títulos de literatura de aventura TRANSPATAGÔNIA, PUMAS NÃO COMEM CICLISTAS e no recém-lançado HIGHLANDS, POR BAIXO DO SAIOTE ESCOCÊS. A distância entre os seres urbanos e a natureza está cada vez maior, exigindo então um trabalho prático de complementação. Por isso comecei a ministrar cursos e treinamentos com vivências didáticas outdoor, como o CURSO DE TREKKING e o CURSO DE BIKEPACKING. Neles, num final de semana, o interessado não só aprende técnicas e conceitos essenciais, tem contato com tecnologia apropriada, mas também vive uma experiência autêntica de aventura.

 

Terceiro, é preciso fazer barba, cabelo e bigode. Serviço completo. Se meu objetivo com livros, filmes, cursos e treinamentos é aproximar as pessoas da natureza e torná-las independentes, autônomas e autossuficientes, é preciso também expô-las ao ambiente de expedição em sua forma mais autêntica. Assim, já que aqui na Serra da Mantiqueira, onde vivo, chove muito no verão — o que dificulta fazer trilhas e acampar selvagem —, tenho levado pequenos grupos de entusiastas por aventura para explorar comigo regiões da Patagônia e da Terra do Fogo.

 

No começo de 2018, montei duas expedições didáticas na região de Coyhaique, na Patagônia chilena. Na primeira, pedalei pela Carretera Austral com um aluno. Na segunda, fiz a travessia do Parque Patagônia em trekking com outros sete alunos. Duas vivências de 11 dias cada, com acampamentos selvagens quase todas as noites, deslocamento em trilhas não marcadas, navegação por carta topográfica e bússola, carregando toda nossa comida e equipamento. Enfim autossuficiência na prática e na veia. Os relatos desses cursos avançados estão no meu BLOG. 

 

Agora, no começo de 2019, vou levar mais dois grupos, um de bikepacking e outro de trekking, para mais duas expedições didáticas, dessa vez na Terra do Fogo chilena e argentina. Nossa base será Ushuaia, na Argentina. No projeto BIKEPACKING TERRA DO FOGO, vamos rodar com nossas mountain bikes a região próxima ao grande Lago Fagnano, na Ilha Grande da Terra do Fogo. No projeto TREKKING NAVARINO, vamos fazer o roteiro Dentes de Navarino e incluir a exploração da Baía Windhond, na Ilha Navarino, Terra do Fogo chilena.

 

Nos dois projetos existe algum elemento exploratório, algum lugar onde nunca estive antes ou com deslocamento de uma forma nova para mim. Tem que ser assim, porque se tudo for muito programado, estruturado, protegido e assegurado, deixa de ser aventura, né?

 

Mais um ano vai chegando ao fim e é comum fazermos balanços. Continuo firme na crença de que caminhar ou pedalar em contato com a natureza é mais do que esporte ou lazer, é um caminho rumo ao autoconhecimento, um passo na direção de explorarmos e conhecermos nossa própria natureza interior através da natureza que nos cerca. 

 

Interessou? Conhece alguém que poderia se interessar? Prestigie e ajude a divulgar esse trabalho. 

 

 

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