CICLOVIAGENS

Viajar, por que não?

Eu estava concentrado, era um dia de chuva forte e muitas montanhas no Quênia. Um jovem de bicicleta se aproximou. Voz calma e baixa, não sei se indiferente ou fraca...

“Me dá um pouco da sua água?”, disse o menino.Claro, atendi, mesmo a água sendo escassa por aqui. Ele bebeu toda a minha garrafa de 1 litro e meio, em um só gole. Fiquei chateado, depois compadecido, já fui muitas vezes eu naquela situação. Ofereci a outra garrafa, o menino olhou desconfiado, depois bebeu metade. Agradeceu e seguiu pedalando, eu o via desde longe.

Ele não parecia ter sequer 18 anos. Baixo, magro, nada tinha além da roupa do corpo. A bicicleta enferrujada, guidão torto, sem marchas, selim destruído e balançando. A cada pedalada sua bicicleta estalava, o menino não ligava. TAC, pedal girando, TAC, não sei como o quadro não partia em dois.
 

Pensei que em breve ele chegaria ao seu destino, mas não. Foram 30, 40, 50km, e ele seguia pedalando. Enfim resolvi conversar, coisa que pelo visto ele ou eu não costumávamos fazer.

 

— Como você se chama, menino? – perguntei, pedalando do seu lado. 
 

— Maurice. 
 

— Quanto anos?
 

— 18.
 

— Vai pra onde?
 

— Etiópia.

 

Silêncio. Maurice respondia sempre com uma única palavra, o que se revelou bastante eficiente. Não acreditei que ele fosse até tão longe. Sem água, sequer uma mochila, só a roupa do corpo. Eu, com 50 kg de equipamentos, óculos, luva e máscara, senti mais curiosidade do que vergonha, ou mais incredulidade do que os dois. Ele já havia pedalado 50km, não era pouco.

 

Chegou uma grande serra. A chuva era forte e fria, o vento era contra, as gotas explodiam no asfalto e faziam neblina, algo fantasmagórico. Apertei o ritmo, mas Maurice desceu da bicicleta e foi empurrando. Ensopado, com sua única roupa. Apertei o ritmo. Olhei uma última vez para trás, Maurice desaparecera por entre a neblina de gotas de chuva. Segui meu rumo.

 

Dia seguinte, enfim de sol, pedalava concentrado. Vi adiante e ao longe um vulto pedalando. Mesmas roupas, não podia ser. TAC, TAC. “Maurice!” – gritei.

 

O menino desceu da bicicleta e me esperou. Ao me ver próximo, eu poderia dizer que ele até quase sorriu. “Tem água?” – perguntou, só assim ele usava mais do que duas palavras. O menino bebeu outra vez toda a garrafa, desta vez não foi surpresa.

 

— Dormiu onde ontem, Maurice?
 

— Na rua. 
 

— E comida?
 

— Ontem, uma vez.

 

Minha comida é sempre racionada, então refiz mentalmente o que restava nos alforjes. Peixe seco, arroz, cenoura e couve. Não era muito, mas antes dois com meia fome do que um com mais do que precisa. Achamos um abrigo, cozinhei e comemos juntos. Maurice comia com voracidade, engolia quase sem mastigar. Lembrei que tinha algumas bananas, então as peguei pra mim e dei a metade do meu prato a Maurice. Ele agradeceu, sem outro som além de sua mastigação voraz pela metade.

 

— Tá vindo de onde, Maurice?
 

— Nairóbi (250 km antes de onde estávamos).
 

— Por que Etiópia?
 

— Por que não?

 

Seguimos comendo. Verdade, por que não? Sempre respondo isso quando me perguntam por que viajo de bicicleta. Soa tão simples que se torna complexo. Maurice usava poucas palavras. Não as media, apenas parecia não necessitar delas.
 

Maurice dormiu no gramado, profundamente. Sua jaqueta encobria-lhe o rosto, o tênis velho era usado como travesseiro. Dormi também, tão profundo que cheguei a sonhar. Acordei, Maurice de pé me esperava pra seguir.

 

Chegou outra grande serra, ele novamente desceu da bicicleta para empurrá-la. Segui forte, me distanciei, não olhei para trás. Sabia que muito em breve eu tomaria um desvio que não seria seu caminho, portanto não o veria mais. De longe o ouvi uma última vez. TAC, TAC, como a bicicleta e o garoto aguentavam?

 

Nunca mais o vi. Nunca nos despedimos ou sequer nos cumprimentamos. Dois animais. Pensei sobre a raça humana em estado bruto, na natureza humana de acordo com Rousseau, Locke, Hobbes. Me vi estúpido de tanto pensar com pensamento dos outros. Vício acadêmico, ainda tenho, quem diria. Não pensei mais. Pedalei.

 

Não sei o que pensar sobre Maurice. Acho que não quero e não preciso fazer isso. Deixa assim, e que os pensadores reflitam, quero só pedalar mesmo. Pensei sobre por que se concentrar em pedalar ao invés de pensar.
 

“Por que não?”. A fraca voz de Maurice ecoara. Sorri, segui, não pensei mais sobre isso.

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Por Ricardo Martins

03/JUN/2019

Do Cassino ao Chuí Um pedal na maior praia do mundo

Localizada no extremo sul do Brasil, entre a barra da Lagoa dos Patos na cidade do Rio Grande e a barra da Lagoa Mirim, na cidade do Chuí, a praia do Cassino é considerada a maior praia do mundo. São 225 km ininterruptos de praia. É muita praia.

Num local onde as variações de marés são muito pequenas, a direção e a intensidade do vento é que definem se o mar avança, ou não, sobre a faixa de areia e torna o local transitável. Nesse local o vento só para pra mudar de lado, e pode soprar forte. Muito forte. Fase da lua, maré, direção do vento, previsão do tempo e feriado prolongado. Tínhamos praticamente um alinhamento de planetas. Era hora de partir.

 

Para pedalar num local ermo de mais de 200 km de extensão e sem veículos de apoio é necessário estar habituado a pedaladas longas, observar muito bem as condições climáticas e fazer um bom planejamento, para tentar garantir o sucesso dessa travessia. O Cassino é um local complexo, mas se bem planejado pode ser muito agradável de se fazer de bicicleta.

Primeiros contatos

Chegamos no balneário do Cassino em Rio Grande a fim de finalizar os preparativos e realizar um pedal de reconhecimento para acertar os detalhes finais. Embora a maré estivesse um pouco alta, conseguimos pedalar pela praia no sentido sul e verificar que a areia era firme e boa para pedalar. Mas no sentido norte, para chegar aos molhes, a situação estava um pouco complicada.

 

A praia estava tomada por uma lama pegajosa, que ocupava toda a faixa próxima ao mar. O que é bastante comum quando são feitas novas dragagens no canal da barra.

 

A partida

No dia seguinte fomos de carro até o ponto de partida nos molhes da barra de Rio Grande, onde fomos agraciados com uma bela aurora.

 

ATENÇÃO:

“A PRAIA DO CASSINO É UM AMBIENTE INÓSPITO, NÃO POVOADO, SEM ABRIGO E SEM ROTAS DE FUGA, EXIGINDO MUITA PRUDÊNCIA, POIS O TEMPO PODE MUDAR MUITO RÁPIDO E PODE COLOCAR AVENTUREIROS EM SITUAÇÃO DIFÍCIL. O CASSINO NÃO É LOCAL PARA DESAVISADOS.”

 

O dia amanheceu limpo, com poucas nuvens e sem vento. A maré estava bem baixa e a areia da praia estava dura, perfeita para pedalar. A previsão era de um vento nordeste fraco a moderado por todo o dia, o que nos ajudaria. Nosso grupo era composto de três ciclistas: Vânia Elza, Bóris Corrêa e Alisson Tolotti.

A sensação de satisfação estava estampada no rosto dos três ciclistas. Nosso primeiro objetivo do dia era bem próximo, distante somente 6 km do ponto de partida: a estátua de Iemanjá, ponto de referência do Balneário do Cassino e geralmente considerada como marco zero dos aventureiros que atravessam essa imensa praia.

 

Nesse pequeno trecho estava concentrada toda a lama vista no dia anterior. Mas como a maré estava bem baixa, boa parte do trecho ficou com a lama no meio da faixa de areia, nos permitindo passar sem grandes dificuldades pedalando mais próximo às ondas. Somente num pequeno trecho as bolotas de lama se tornaram bastante concentradas nas áreas próximas à praia e nos forçou a pedalar no meio da faixa de areia fofa.

Entre os molhes e a estátua encontramos vários carros estacionados com jovens que haviam amanhecido o dia dançando e festando na beira da praia. Estavam bem envolvidos em sua festa e poucos notaram os ciclistas que passavam.

 

Foi nesse pedaço de praia também que encontramos a única pessoa que estava cruzando a praia a pé: um rapaz que carregava uma grande mochila, equipada para sete dias de caminhada. Conversamos rapidamente e logo nos despedimos desejando sorte em sua aventura.

 

Vale registrar que não pensávamos o percurso como uma cicloviagem, mas sim como um pedal, de difícil execução, que necessitaria de dois dias para concluir e suprimentos de comida e água para executar. Estávamos por nós mesmos, transportando em nossos bagageiros água potável, mantimentos e roupas adequadas para a jornada, pois não haveriam pontos de reabastecimentos ao longo da praia. Não levamos qualquer equipamento de acampamento, para que o peso da carga não comprometesse o rendimento das pedaladas.

 

E uma imensidão de praia se abriu a nossa frente.

 

Da Iemanjá para o sul

Seguimos animados e pedalando juntos, mantendo um bom ritmo de pedalada. Durante todo o dia fomos cruzando vários riachinhos que escorriam a água acumulada por entre as dunas das chuvas dos dias anteriores.

 

Também começaram a aparecer as conchas na praia, ora bem espaçadas, outras várias acumuladas. Estavam espalhadas por toda a praia e seguimos sempre olhando para ver se não achávamos alguma maior ou mais bonita.

Outra coisa constante eram os bandos de pássaros, que ficavam geralmente próximos aos córregos e levantavam voo quando nos aproximávamos. Depois de um tempo começamos a brincar, pedalando com intensidade em direção aos bandos para pedalar rodeados de pássaros.

 

E começamos a experimentar a sensação de liberdade de estar num local sem trânsito: pedalávamos sem as mãos, de braços abertos, de olhos fechados…

 

Nessa imensa praia as variações na paisagem são lentas e as referências são quase todas construídas pelo homem: navios encalhados, faróis e obras esquecidas. São elas que servirão de objetivos intermediários e eventualmente de abrigo.

 

Nossa segunda referência estava a 21 quilômetros dos molhes: o navio Altair, que encalhou na praia em 1976 e está em avançado estado de degradação. Ali ficamos um bom tempo admirando e fotografando a cena à luz da manhã.

 

Lá pela metade da manhã, o sol se fez mais forte e o calor intensificou um pouco. Decidi abrir o zíper da camisa para me refrescar e percebi que poderia aproveitar o vento para fazer um pouco menos de esforço. Acabei improvisando uma vela colocando a camisa ao contrário, com a parte fechada para a frente e segurando as pontas de baixo na mão.

 

Meus companheiros se surpreenderam me vendo de longe, pois não entendiam muito bem o que viam. Parecia que eu ia na direção deles, mas de costas… E somente quando cheguei muito perto eles perceberam o que acontecia.

Após muitas risadas, rapidamente passei por eles e pudemos manter o ritmo constante que estávamos. Me diverti “velejando” por algum tempo, mas o vento começou a ficar muito fraco e vi que eu iria mais rápido pedalando sem vela. E acabou a moleza.

 

Mais à frente encontramos um leão marinho descansando na praia. O animal estava bem e parecia saudável, mas voltou para o mar quando nos aproximamos. Foi muito bom vê-lo nadando, pois todos os relatos da praia falavam de muitos animais mortos e felizmente não encontramos nenhum.

 

No quilômetro 65 encontramos o primeiro farol: o Sarita, de 37 metros de altura e que fica um pouco para dentro na vegetação.

 

O Farol Sarita

O Farol Sarita recebeu esse nome por ficar no local onde foi encalhado propositalmente o navio homônimo, para fins de recebimento de seguro. Fizemos uma breve visita nos arredores e como já era metade do dia aproveitamos para repor as energias e descansar um pouco.

 

No Sarita ficava nosso único ponto de saída da praia, através de um caminho que nos levaria de volta à civilização, pois dali pra frente não teria volta. Como estávamos todos bem, decidimos continuar nosso caminho, brincando com os pássaros, olhando as conchas e aproveitando o ventinho nordeste que nos ajudava. Eles não eram mais novidades, mas nos faziam companhia.

 

No início da tarde chegamos ao Farol Verga, no quilômetro 100 de nosso percurso. Aproveitamos novamente para nos alimentar e descansar um pouco.

Enquanto o Alisson cochilava, fomos verificar uma estrada que existia ali próximo, ligando a praia à Lagoa Mangueira. A estrada era um caminho de trilheiros e nos deu vontade de segui-la, mas não podíamos nos distanciar de nosso foco. E logo voltamos para a praia e continuamos seguindo no sentido sul.

 

Nesse ponto a água próxima à beira da praia era de uma cor chocolate, muito diferente da cor do mar um pouco mais fora. Essa cor da água na praia é característica de todo o litoral do Rio Grande do Sul, mas a água é limpa, somente tem essa cor devido o movimento das ondas na areia escura e proliferação de algas na região.

 

Às vezes nos distanciávamos um pouco uns dos outros, cada um pedalando no seu ritmo, até que os companheiros se tornassem pontinhos escuros no horizonte. Daí nos agrupávamos novamente e continuávamos juntos.

Em muitos trechos da praia fomos ultrapassados ou cruzamos com grupos de carros off-road que cruzavam a praia. Muitos nos cumprimentavam quando passavam. Vários desses carros estavam lameados, sabe-se lá onde andavam.

 

Teve um bando em motocicletas que até reduziu a velocidade, olhando com cara de incrédulos por nos encontrarem ali.

 

Passamos por inúmeras carcaças de navios encalhados. Teve trecho que até denominei de “praia dos esqueletos”, de tanta carcaça de navio reunida num local só.

 

Num dado momento começamos a avistar no horizonte, ainda muito longe, a imagem de um farol. E continuamos pedalando, agora cada vez mais empolgados e, muito lentamente, essa imagem foi crescendo e ganhando definição. Dali algum tempo já podíamos ver detalhes da pintura e das construções ao redor: o Farol do Albardão. Estávamos no quilômetro 136 de nosso pedal.

 

O Farol do Albardão

O Farol do Albardão é um dos faróis mais isolados na costa brasileira. Foi construído em 1909 e é mantido pela Marinha do Brasil.

 

O nosso plano inicial desse pedal era sair de Rio Grande com o mínimo de bagagem e vencer toda a extensão da praia num único dia. Mas ao estudar a praia nos encantamos com a imagem do Farol do Albardão, e idealizamos dormir ali. Para isso fizemos contato antecipado e conseguimos a autorização da Marinha do Brasil para utilizar a estrutura do Farol como ponto de abrigo e reabastecimento de água.

 

Embora o portão estivesse fechado, nos apresentamos aos marinheiros presentes, que depois de verificar nossa autorização nos alojaram na casa norte. Fomos muito bem recebidos pelos marinheiros Alexsandro e Ruiz, que além de nos dar o abrigo solicitado, nos apresentaram também as instalações do Farol.

 

Subimos as escadas em caracol até o topo do Farol de 44 metros e lá tivemos uma vista deslumbrante da vastidão da praia, do mar e do deserto do Albardão! Sim, aquela faixa de areia que está entre a praia e a lagoa Mangueira é chamada de deserto e esconde umas figueiras centenárias, que insistem em sobreviver… Mas olhávamos e olhávamos e não as vimos, infelizmente (ou felizmente?). E caminhar no deserto ficou para a próxima vez…

 

Dormimos cansados, ouvindo o barulho do vento que soprava muito forte durante a noite. No dia seguinte acordamos um pouco mais tarde que o plano original, mas tivemos a satisfação de ver o sol nascer no Farol do Albardão. O local é tão isolado e deserto que se parece com uma daquelas imagens de estações da Antártida. É realmente lindo. Um sonho. Depois do café da manhã, arrumamos nossas coisas e no portão nos despedimos dos amigos que ali fizemos.

 

Do Farol do Albardão para o sul

O dia amanheceu bonito, com poucas nuvens e com a previsão era de um vento entre sudoeste e sudeste fraco ao longo de todo o dia. Ou seja, pedalaríamos contra o vento o dia inteiro. A maré estava baixa, mas a faixa de areia estava bem diferente do dia anterior e as pedaladas já não rendiam tanto.

 

No Cassino, o vento do quadrante norte empurra o mar para baixo, deixando uma ampla praia de areia firme. Já do quadrante sul empurra o mar para cima, deixando a praia mais fofa e difícil de pedalar.

 

Continuamos nosso percurso no sentido sul e notamos que nesse segundo dia de pedal já não haviam tantos córregos e muito menos os bandos de pássaros. Também não passou por nós qualquer grupo de aventureiros em veículos motorizados. A praia foi somente nossa por boa parte do dia.

 

A grande novidade do dia foi uma boia encalhada na praia, num local muito aberto. Ela se parecia muito mais com um objeto que havia caído do céu do que com um objeto que veio do mar. O objeto era enorme, mas parecia um pouco menor na amplidão do local. E ali nos divertimos fazendo diversos registros naquele que parecia um objeto vindo do espaço.

 

Pouco mais de 20 km após o Albardão a quantidade de conchas na praia começou a aumentar muito e a areia a ficar muito fofa. Tínhamos alcançado o temido Concheiro.

 

O Concheiro

O Concheiro é uma parte da praia-estrada que é bastante temida. É um lugar quase mítico, onde a praia não é formada somente por areia, mas de conchas. Muitas conchas. Esse trecho de difícil passagem pode variar de localização, de extensão e dificuldades de acordo com as condições climáticas e a experiência pessoal de quem passa.

 

Por ele seguimos mudando de local de circulação, às vezes mais perto da água outras mais em cima, sempre tentando achar local mais firme para andar. Estava pesado e a velocidade do grupo começou a diminuir. Em alguns pontos entrávamos em trechos tão fofos de areia que as bicicletas atolavam e éramos obrigados a parar e recomeçar.

 

Vimos que a melhor forma de atravessar era manter certa velocidade, de modo a não dar tempo para a bicicleta afundar. Mesmo assim paramos algumas vezes para descansar e nos reidratar. Até o lanche fizemos de pé, pois não havia um local bom para descansar. Foi bem difícil, mas passamos pedalando os 30 km desse trecho complicado.

 

“PASSAMOS POR PESSOAS, CONCHAS, CACHORROS, CARROS ATOLADOS NA PRAIA, CASAS. MUITAS COISAS.”

 

Do Concheiro para o sul

Continuamos andando e a paisagem sofria poucas alterações. Olhávamos tentando achar a nossa próxima referência, o hotel abandonado, que estava ali escondido no meio das dunas. Deveria estar no quilômetro 165…

Num dado momento vimos um boi preto andando sozinho no meio das dunas, e ficamos pensando como o animal sobrevivia. Mais à frente vários outros andavam por ali também e nos perguntamos como os donos juntavam os animais que se espalhavam nesse deserto de areia e praia.

 

Passamos novamente por outra boia encalhada, mas agora ela não era mais novidade e não paramos.

 

Continuávamos observando, e nada do hotel abandonado. E olha que procuramos, mas não o encontramos. Passamos e não vimos! Lá pelo quilômetro 190 da praia, já exaustos, vimos as ruínas de uma casa que havia sido destruída por uma ressaca. E no lado dela tinha uma parte coberta com sombra — a primeira sombra desde o Farol do Albardão. Ali paramos e deitamos para descansar um pouco.

 

Quando retornamos ao nosso pedal estávamos revigorados e empolgados, pois agora faltava pouco. E eis que tivemos uma visão que nos encheu os olhos: uma nuvem com um colorido diferente, como se fosse um arco-íris. Pedalamos em sua direção, enfeitiçados pelo fenômeno da natureza. Nunca tínhamos visto aquilo. Mas a nuvem foi muito efêmera e logo se esvaiu, ficando somente capturada em nossas retinas… E em nossas máquinas fotográficas! Mais tarde ficamos sabendo que o que vimos era uma “nuvem iridescente”, um fenômeno pouco comum e de rara beleza.

 

Embora a areia da praia estivesse bem molhada, a bicicleta passava sem grandes dificuldades. Começamos a sonhar com uma coca-cola bem gelada… Na minha cabeça essa coca seria num bar na beira da praia junto com uma porção de camarão.

 

Fomos avançando e começamos a ver casas perdidas por entre as dunas. Alguns carros e motos passaram pela gente. Sinais de civilização! Finalmente estávamos chegando na vila de Hermenegildo, no quilômetro 195 da praia a partir dos molhes de Rio Grande.

 

Mas o que vimos não foi muito bonito: parte da vila havia sido destruída pela ressaca da semana anterior. E que estrago! Era tanto destroço na areia da praia que dificultava o acesso. Ao mesmo tempo observamos que o mar estava onde tinha que estar, somente a vila que tinha avançado — e muito — para dentro da faixa de areia… A ressaca era somente uma “reintegração de posse” do que pertencia ao mar.

 

Pouco após a vila do Hermenegildo a paisagem ficou com aquela aparência desértica novamente, porém, agora já cheia de torres de usinas eólicas. E logo à frente começamos a ver bem longe uma imagem que tanto nos alegrou: o Farol do Chuí.

 

Passamos por pessoas, conchas, cachorros, carros atolados na praia, casas. Muitas coisas. Agora só tínhamos um objetivo: os molhes. Chegamos nos molhes do Chuí os três, lado a lado, pedalando juntos e rápido, num sprint final. Juntos colocamos as mãos na pedra e nos cumprimentamos, felizes por termos concluído bem o nosso objetivo.

 

Viajamos quilômetros, fazendo um esforço danado e observando o imenso ambiente a nossa volta. E a paisagem não nos abandona mais, nos deixando com uma vontade de retornar.
 

As aves migratórias sabem disso há muito tempo. Agora é fácil entender o porquê.

 

Informações adicionais

Dados gerais do pedal:
Início: Molhes da Barra de Rio Grande — RS
Fim: Molhes da Barra do Chuí — RS
Distância pedalada: 225 km
Tempo pedalado: 13 horas, divididos em dois dias

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Por Vânia Elza de Farias

A maior Reserva privada de Mata Atlântica do país abre as portas para Ciclistas!

Nada mais valioso do que pedalar em um local totalmente seguro, com estradas e trilhas perfeitas para a prática do Mountain Biking e Cicloturismo.

 

O estado de São Paulo, em especial a região do Vale do Ribeira, ganhou uma nova opção de turismo ecológico. O Legado das Águas, maior reserva privada de Mata Atlântica do país, administrada pela empresa Reservas Votorantim, desde 9 de julho está recebendo grupos de ciclistas para vivências de pedal nas estradas e trilhas da reserva.

 

Além das atividades para ciclistas também estão sendo realizadas atividades como canoagem, turismo científico e cursos.

 

Planejamento

O processo de preparação para as atividades com foco em ecoturismo começou em 2016, quando o Legado das Águas recebeu grupos de funcionários da Votorantim S.A. e das empresas investidoras em nove eventos-teste, realizados entre outubro e dezembro. Nessas ocasiões, foram testadas, na prática, as atividades e os roteiros preparados para 2017, permitindo uma avaliação sobre as adequações necessárias nas estruturas de atendimento ao público.

Os cuidados são diversos para permitir que mais pessoas, de maneira ordenada e sem impacto negativo à natureza, acessem o Legado das Águas para vivenciarem o que é estar na Mata Atlântica num estágio avançado de conservação. “Para manter a área protegida, é importante que mais pessoas compreendam a importância da conservação desse bioma. E para isso, nada melhor do que permitir que as pessoas venham até nós. As parcerias com pesquisadores e empresas vinculadas às atividades de ecoturismo permitem realizarmos ações estruturadas e diferenciadas” – conta Frineia Rezende, gerente de Sustentabilidade da Reservas Votorantim.

 

Sobre a Reserva

O Legado das Águas é uma reserva privada de 31 mil hectares de Mata Atlântica, equivalente a 1,5% da área residual desse bioma. Localizado no Vale do Ribeira, no sul do estado de São Paulo, abrange três municípios – Juquiá, Miracatu e Tapiraí – e foi constituído pela aquisição de diversas áreas entre as décadas de 1920 e 1950.

A visão da Votorantim na época era de que a conservação da cobertura vegetal era a melhor forma de garantir no longo prazo a disponibilidade hídrica da região, onde estão sete usinas hidrelétricas que fornecem energia para a CBA. Essa visão se materializou em um protocolo de intenções, firmado em 2012 entre o Governo do Estado de São Paulo e a Votorantim, para a implantação de uma reserva que ofereça um legado positivo para a sociedade, desenvolvendo atividades de pesquisa, educação ambiental e turismo sustentável, além de possibilidades de negócios a partir dos recursos ambientais ali presentes.

 

Ciclismo de Montanha

As atividades com bicicleta contemplam passeios por percursos de diferentes distância, de 8km a 78km. Os percursos proporcionam aos ciclistas o contato com uma paisagem exuberante, composta pelas águas do Rio Juquiá, a imensidão das barragens, a cultura das comunidades locais e a possibilidade de encontrar animais silvestres e raros durante o caminho.

Os passeios se dão por estradas e trilhas exclusivas ao visitante do Legado das Águas, isto significa que o ciclista não terá o inconveniente de encontrar-se com carros e outros dissabores como, por exemplo, ser assaltado, pois a área é totalmente monitorada pela segurança do Legado das Águas.

É importante que o ciclista que venha pedalar no Legado das Águas saiba que estará em uma imensa área de conservação de flora e fauna, fazendo parte de um bioma quase que intocado, por isto que o pedalar por aqui ganha uma dimensão Atlante, como o próprio Legado – comenta Marcello Ruivo, sócio da operadora das atividades de bicicleta e trekking, VeloVert.

Mais que a prática esportiva, o ciclista estará inserido na prática do ecoturismo, na contemplação da natureza. O Legado das Águas não é um parque, tanto que foram feitos estudos minuciosos das atividades a serem praticadas no Legado, de forma que o ecoturismo acontecesse de forma responsável sem causar nenhum impacto a este fantástico santuário de Mata Atlântica – complementa Marcello.

 

VeloVert

Tendo como premissa o ecoturismo responsável o Legado das Águas buscou a VeloVert para desenvolver o projeto Ciclo Aventuras no Legado das Águas. A VeloVert nasceu para prestar consultoria nas atividades de ciclismo, criando projetos para áreas com possibilidade de ciclabilidade, estradões ou trilhas, como também, construção e desenvolvimento de equipamentos que aprimorem técnicas de pilotagem de adultos e crianças – comenta Ricardo Gaspar, também sócio da VeloVert.

O nosso principal diferencial é a vivência no ciclismo com uma visão empreendedora, entregando aos clientes uma solução totalmente customizada – finaliza Ricardo.

 

Atividades com Bicicleta

 

Inicialmente os passeios estão sendo realizados aos finais de semana e feriados. 


As atividades têm vagas limitadas. “Desenvolveremos as atividades com grupos pré-definidos, pois o Legado das Águas não é um parque, é uma reserva focada em conservação. Por isto há um número limitado de participantes por atividade para que possamos receber o púbico com responsabilidade”, afirma Frineia.

 

Os passeios são guiados pela equipe da VeloVert e se dão pela estrada principal da reserva. Ao todo já estão disponibilizados seis percursos, dentre os muitos outros que ainda serão disponibilizados. São eles:

• Base da Reserva a Barra: 8,4km


• Base da Reserva a Porto Raso: 24,4km
 

• Base da Reserva a Ribeirão da Anta: 36,4km
 

• Base da Reserva a Dezembro: 38,8km
 

• Base da Reserva a Gruta do Alecrim: 51,3km
 

• Base da Reserva a Serraria: 78km

 

Os passeios podem ter duração de 2 a 6 horas, dependendo das habilidades e condicionamento físico dos ciclistas combinados com a distância a ser percorrida.
 

O ciclista pode optar por uma atividade Day-Use ou Pernoite. No Day-Use o ciclista fará um único passeio, chegando pela manhã para o café da manhã e saindo ao final da tarde após um farto lanche de encerramento. Para aqueles que optam pelo Pernoite, além do passeio que ocorre no primeiro dia, os ciclistas contarão com um pedal noturno e atividades extras tais como: visitação ao viveiro de mudas, projeção de filmes, sessão de narração de histórias, yoga, sessão de alongamento, entre outras. No dia seguinte ao pernoite haverá caminhada por trilhas e almoço de encerramento.

 

Estrutura para o Ciclista

 

O ciclista pode contar com estrutura de alojamento simples e funcional, restaurante que oferece comida caseira a preço justo, estacionamento e bike-wash.

 

A equipe da VeloVert, mais que guias de passeio, são instrutores de pilotagem de bicicleta. O ciclista que tiver alguma dificuldade certamente será assistido de maneira diferenciada pela equipe que, em breve, disponibilizará cursos específicos de técnicas de Mountain Biking e Cicloturismo.

 

Como participar dos Passeios

 

A visitação e passeios só acontecem com reserva e agendamento prévio. As reservas devem ser realizadas diretamente com a VeloVert pelo e-mail velovertbr@hotmail.com

Mais informações estão disponíveis no site do próprio Legado das Águas 
legadodasaguas.com.br.

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Por Claudia Franco

Altos Rolês nos Países Baixos

Em 2016 fiz uma cicloviagem partindo de Amsterdam e finalizando em Sanremo, na Itália. A viagem foi ótima, porém peguei muita chuva nos primeiros dias, pedalei, mas praticamente não fotografei. Então, ficou aquela sensação de que faltou algo.

Refiz a viagem, mas dessa vez algumas coisas foram diferentes. Parti novamente de Amsterdam e o final foi novamente na Itália, mas o percurso totalmente diferente. Parti onze dias mais tarde em comparação com a viagem anterior e cheguei em Amsterdam exatamente no primeiro dia de verão, no aeroporto Schipol. Ainda no hall das esteiras montei a bike e praticamente saí pedalando. Do aeroporto até o centro da cidade são 30 km totalmente percorridos em ciclovias. A ideia era pedalar pela Holanda, Bélgica, França e Itália, então chamei o projeto de “altos Rolês nos Países Baixos”, porém o ápice deste rolê foi nos Alpes Franceses assistindo a uma etapa do “Tour de France”.

 

CHAMEI O PROJETO DE “ALTOS ROLÊS NOS PAÍSES BAIXOS”, PORÉM O ÁPICE DESTE ROLÊ FOI NOS ALPES FRANCESES ASSISTINDO A UMA ETAPA DO “TOUR DE FRANCE”.

 

Cheguei em Amsterdam com um belo dia de sol, alto astral para começar a viagem.

Fiquei em Amsterdam dois dias e aquele sol da chegada foi só ilusão: o tempo mudou para cinza, chuvas espessas e queda de temperatura, mas mesmo assim Amsterdam é sempre um sonho. No terceiro dia peguei a estrada, ou melhor a ciclovia. Parti para Roterdam em 85 km praticamente todos percorridos por ciclovia. Neste dia tive sorte e o sol brilhou, passei por várias cidades minúsculas, uma mais charmosa que a outra e muitas festas comemorando a chegada do verão.

 

Cheguei em Roterdam e mais uma vez o tempo mudou radicalmente me forçando a ficar dois dias praticamente parado, mas na sequência fiz um passeio maravilhoso. Há aproximadamente 50 km de Roterdam está Kinderdijk. Tombada pela Unesco, a “cidade” possui num raio de pouquíssimos quilômetros 19 moinhos, todos em atividade regulando a altura das águas e alguns moendo trigo.

A estrada que acompanha os moinhos só é liberada para pedestres e ciclistas, e neste dia, apesar de frio, o sol estava presente e tive um belo céu azul. Após curtir Kinderdijk parti para a Bélgica, chegando em Antuérpia e me instalei no camping, fiquei lá um dia e com o tempo só piorando, mudei o percurso e segui até Paris de ônibus, querendo fugir daquela situação meteorológica. Afinal, Paris é Paris, e nada mal um rolê pelo Arco do Triunfo e pela Torre Eiffel.

Cheguei na cidade de Melun, ao lado da floresta nacional de Fontainebleau, nas margens do Rio Sena, a cidade medieval é linda e estava em festa. O camping ficava fora da cidade e nas margens do rio Sena, lugar lindo, mas parecia que a nuvem cinza me seguia e no dia seguinte caiu aquela chuva que mal consegui sair da barraca!! Após dois dias de muita chuva e praticamente parado, parti e foi na região da Borgonha onde o verão chegou de verdade. A região da Borgonha é famosa por seus vinhos “Chablis” entre outros, mas o que mais me chamou a atenção foi a facilidade de se pedalar lá, pois por ela passam os principais rios da França, o Sena, Loire e Yonne.

 

A partir do século XVI foram construídos inúmeros canais interligando os rios e facilitando o transporte fluvial. E para os ciclistas foram feitas centenas ou milhares de quilômetros de ciclovias, super charmosas que vão acompanhando os canais e interligando as cidades.

Toda a região é bem sinalizada, com ótimos campings. Deixando Borgonha, e indo para Savoia, ainda tive pedaladas inusitadas e mudança de planos momentâneos. O destino era Annecy, porém no trajeto encontrei um casal de cicloturistas romenos, ele com 25 anos e ela com 21, nos encontramos na estrada e ele falou que estavam indo para Aix les Bains para assistir uma etapa do “Tour de France”.

Resolvi ir com eles, e logo estávamos no meio da descida da montanha “Dent du Chat”, (Dente de Gato). O casal seguiu viagem, e eu fiquei por lá mesmo, o que foi ótimo, já que Aix Les Bains é menos famosa que a vizinha Annecy e consequentemente é mais barata. Fiquei dois dias e pedalei por lugares incríveis, inclusive por Annecy.

Partindo dos lagos segui direção Valle della Maurienne, coração dos alpes. Depois de dois dias de viagem, parei para acampar em uma vinícola da família de um rapaz que conheci na cidade, o Florent. A vinícola é centenária e está na quarta geração. Parti então para Saint Jean de Maurienne. Na “porta” para os alpes, a cidade é conhecida como capital mundial do ciclismo de montanha, e não é por menos, pois em cada esquina há uma saída para uma grande montanha.

 

Fiquei dois dias instalado num camping na saída da cidade e a vista que eu tinha da barraca era simplesmente incrível. Ainda em Saint Jean fiz um giro de bike maravilhoso e subi a Lacets du Monvernier. A estrada parece realmente um punhado de laços debruçados na montanha, e a vista no altiplano é inesquecível! Com esse “debut” de montanha segui para Valloire. A cidade é uma estação de esqui, e para chegar lá a quilometragem rodada partindo de Saint Jean não foi muita, porém toda em subida, completando com o “Col du Telegraph”, uma subida de 15 km, que levei mais de três horas para terminar.

Chegando em Valloire, me instalei em um camping e assisti a transformação da pequena estação de esqui num formigueiro de ciclistas. Na manhã seguinte a expectativa e ansiedade pela passagem do “Tour de France” eram grandes e as sete da manhã o camping já estava agitado. O dia começou lindo, mas não me deixei impressionar pelo sol, pois em alta montanha o tempo pode mudar a qualquer momento.

Então me preparei bem para a jornada, pois a previsão da passagem dos primeiros atletas era por volta de 16h30, e as nove da manhã comecei a “escalada” do “Col du Galibier”, subindo sempre devagar e curtindo o visual inacreditável das montanhas. De Valloire até o cume são 20 km de subida, e quando eu estava quase na metade o tempo fechou, o céu ficou cinza e começou a chover. Quanto mais eu subia pior o tempo ficava e quando faltavam mais ou menos 8 km para o cume avistei uma pequena construção toda em pedra, uma queijaria, e ali os proprietários aproveitavam a ocasião vendendo seus deliciosos queijos, cafés e bolos. Entrei, tomei um café para esquentar e pedi permissão para trocar algumas roupas molhadas e me equipar melhor.

Ao sair da queijaria fiquei ali num pequeno espaço coberto analisando a situação e pensei em descer alguns quilômetros, pois com chuva naquela altitude provavelmente esfriaria muito.

Assim fiz, comecei a descer, e quando havia descido mais ou menos uns dois quilômetros achei um lugar com uma boa visão da estrada e ao mesmo tempo um pouco escondido da chuva. Fiquei ali um bom tempo e percebi que a chuva havia parado e mesmo meio receoso resolvi voltar e subir a montanha, pois assistir ao “Tour de France” no “Col du Galibier” não acontece todo dia!

 

A parte final da subida era pura festa, muita gente havia passado a noite na montanha aguardando a competição, e a cada curva aparecia uma “figura” diferente: tinha o Hulk, o Superman, o Batman, todos curtindo a etapa e esperando os ciclistas. Aos poucos começaram a passar os primeiros batedores, e depois a caravana publicitária com todos os patrocinadores distribuindo uma infinidade de brindes, e aproximadamente meia hora depois o carro da direção de prova abrindo caminho para os atletas.

 

Pouco a pouco o frenesi aumentava com a passagem dos primeiros competidores acompanhados de suas equipes de apoio, e uma visão inesquecível foi o funil humano pelo qual o ciclista passava, com todo mundo aplaudindo e gritando o nome de seu atleta favorito, porém sempre respeitando o “adversário”.

No fim da etapa fiz questão de subir até o cume, pois assisti a etapa mais ou menos a uns oitocentos metros do “GPM” (grande prêmio de montanha), pois devido ao “mar” de gente era praticamente impossível chegar ao topo da montanha. A noite foi agitada com a vila totalmente lotada, e era difícil fazer qualquer coisa.

Dia novo, nova travessia alpina. A intenção era chegar no “Col d’Izoard”, já praticamente vizinho da Itália, e assistir mais uma etapa de montanha do “Tour”, mas achei que seria demais e arriscado. Então fiquei pelo meio do caminho e acampei em “Les Monetier les Bains”. O camping é localizado no meio do “Col du Lautaret”, no meio de duas geleiras, e seu nome já é sugestivo: “Les Deux Glacier” ou seja, os dois glaciares. A vista é inacreditável, mas que lugar gelado!

No dia seguinte, mais uma vez parti, porém desta vez com uma sensação estranha pois estava próximo o fim deste rolê. Na pequena cidade de Claviere, já na Itália, parei num pequeno panifício, comi um pedaço de pizza e tomei um café para esquentar.

 

Me equipei com as roupas de nylon para chuva e pensei: “agora é só descida, logo mais estou em Susa”. Mas não foi bem assim, um sobe e desce que não acabava, a pedalada foi longa e parece que não rendia. Só cheguei em Susa no fim da tarde, a cidade era a minha meta final na Itália. Tenho amigos na cidade e por isso escolhi finalizar por lá. Fiquei alguns dias com eles, o suficiente para descansar um pouco e procurar nas bicicletarias locais uma caixa de papelão para preparar a bike para o retorno ao Brasil. Mas nesse meio tempo dei “aquele” rolê para fechar e deixar saudades. Partindo de Susa fui até Avigliana e subi o “Colle di Braida” para visitar a Sacra di San Michele, um monastério milenar no alto da montanha com uma vista incrível de todo o Vale di Susa, da cidade de Torino até as montanhas na divisa com a França.

 

E com esse rolê de deixar saudade finalizei mais uma cicloviagem, já pensando na próxima!

 

“O FUNIL HUMANO PELO QUAL O CICLISTA PASSAVA, COM TODO MUNDO APLAUDINDO…”

 

Foram 1.500 km, quatro países, 35 dias, sem acidentes nem problemas mecânicos, apenas um pneu trocado. Como dica de cicloturismo, a Holanda sempre é maravilhosa em qualquer aspecto, mas recomendo também toda a região da Borgonha (França), um lugar possível para todos, inclusive em viagem com crianças.

 

Bike da Viagem

Nesta viagem pedalei uma Road Touring. Montei a bike com um quadro de estrada (speed) da marca First, modelo Flash. O quadro de alumínio é leve e rígido, e mesmo com carga foi eficiente nas subidas. O grupo utilizado foi o Shimano Sora 3X9, com coroa tripla, totalmente adequada ao ciclo turismo, muitas possibilidades de marcha e a mais reduzida 30X34, que faz a diferença na hora de subir uma montanha com mais 18 kg de carga. Rodas Shimano modelo R500, leves e resistentes, com apenas 20 raios na dianteira e 24 na traseira. Não tive nem um raio quebrado e elas continuam alinhadas. A montagem e bike fit ficaram por conta da Anderson Bicicletas.

 

Apoiadores

https://revistabicicleta.com

Por JB Carvalho

25/MAI/2019

Relato de um pedal de 700 km pela região do lago Titicaca

Para a minha primeira viagem de bike, escolhi a região do lago Titicaca, na divisa entre Bolívia e Peru

Texto e fotos por Igor Botelho

O lago Titicaca, sagrado para os incas, fica a 3.800 metros de altitude. Sua volta completa totaliza 560 quilômetros de muita cultura e inspiração, num local que foi berço de uma das civilizações mais respeitadas na humanidade. Por tudo isso o escolhi como destino de minha primeira viagem de bike, em que rodei mais de 700 km, dando a volta no lago e conhecendo cidadezinhas próximas, cheias de ruínas históricas de civilizações pré-incas.

 

Minha aventura em cima da magrela – que eu batizei de Adelante (“Adiante”), já que passaríamos somente por países de língua espanhola – começou ainda na Bolívia, em Tiwanacu, berço da civilização Inca e primeira cidade de minha volta ao Titicaca. Os tiwanacus se estabeleceram no Altiplano Andino em aproximadamente 1500 anos a.C. e criaram todo o sistema de irrigação, de plantio em curvas de nível, de construções piramidais e de estudos astronômicos regidos pelo deus Sol, que orientava sobre melhores épocas para plantio e, no meu caso, melhores horas para pedalar. Os Incas ficaram famosos por sua inteligência, mas poucos sabem da dominação que exerceram sobre os Tiwanacu, Pucara e Taraco, povos que sofreram invasões incaicas e foram dizimados por volta de 400 anos d.C.

Após visitar as ruínas e museus em Tiwanacu, comecei a pedalar sentido fronteira entre Bolívia e Peru. Meu primeiro dia de pedal teve longos 92 km. Passei por Desagaudero, por funerais em Sillustani, pela simpática cidade de Pomata, por paisagens incríveis e pessoas humildes que não hesitavam em me desejar uma bom dia. Ah, e llamas, muitas llamas.

 

Até chegar em Puno, estava tudo na santa paz. Foi lá que uns 20 garotos começaram a me perseguir de bike, com as piores intenções. Mas Lance Armstrong “baixou em mim” e, mesmo com os caras tentando me parar, aumentei as marchas e pedalei acima de 45km/h, carregando 40kg no alforje, até uma estação policial. Dormi em Puno para, no dia seguinte, visitar as excêntricas ilhas Uros.

 

Para entender o que são as ilhas, imagine uma planta chamada Totora. Agora imagine bandos de Incas chegando para dominar povos que viviam na beira do lago há 1500 anos. Visualize esses povos pegando as totoras, que flutuam na água, e construindo balsas para escapar da morte, em direção ao meio do lago. Foi assim que nasceram e evoluíram as 48 ilhas flutuantes que hoje se espalham no noroeste do lago – cidades inteiras construídas com solo de totoras, casas de totoras, embarcações e cordas de totora, flutuando sobre o Titicaca num piso vegetal.

 

No xadrez

Até então eu só havia pedalado em asfalto. Pouco depois de passar por Pucara (outra civilização que deu origem aos Incas), Taraco e Huancane, começaram as infinitas, frias, perigosas e pedregosas subidas em terra. Em alguns momentos era desesperador pedalar por 15 km em uma subida, carregando aquele peso todo na bike.

 

Em uma das noites, tive que recorrer ao delegado do vilarejo de Viquechico para pedir abrigo. Me disseram que na cidadezinha, rota da cocaína entre La Paz e Cuzco, era perigoso acampar. Tranquei a Adelante na solitária, deitei-me num beliche numa das celas, bem de frente a um arsenal de rifles, balas e pistolas. Foi uma noite de medo, principalmente depois que os dois únicos oficiais do distrito saíram para trocar balas com não sei quem. Mas correu tudo bem e no dia seguinte tomamos um típico café-da-manhã peruano: macarrão, frango, arroz, batatas, ervilhas e repolho, acompanhado de Coca-Cola – às 6h30 da manhã! Fora isso, os andinos costumam comer um delicioso cereal chamado Quinua, que é usado em sucos, sopas, saladas e outras invenções. Eu adorei e comia o tempo todo.

 

Continuei meu roteiro, passando por montanhas altíssimas e frias, pedalando somente de dia para evitar assaltos. Com a espiritualidade equilibrada com tantas energias que emanavam do lago, me sentia cada dia mais forte e bem disposto. Em meu último trecho de bike, pedalei 60 km em asfalto até o estreito de Tiquina, onde atravessei de balsa até a estrada que me levaria a meu destino final, Copacabana. Foi minha noite mais difícil. Meu pneu furou e, para meu sofrimento, nos últimos 38 km finais havia uma subida de 29km. Tive que montar acampamento a 4.300m de altitude, com frio e chuva, às 22 horas. Minha garrafa de água estava vazia e as últimas comidinhas que eu levava serviram de presente a dois garotinhos em estado de desgate maior que o meu.

 

Sobrevivi à noite escrevendo em meu diário e vendo fotos da minha digital, tremendo de frio. Na manhã seguinte, catorze dias depois de começar a volta ao lago, cheguei em Copacabana, uma cidadezinha na beira do azul e gigantesco Titicaca, onde há uma catedral visitada por bolivianos do país todo, um local de estudos astronômicos da antiguidade e, o maior atrativo, o ponto de partida dos barcos que levam às ilhas do Sol e da Lua.

 

Visitei a ilha do Sol num dia abençoado com os raios quentes e claros que vinham do céu. A ilha abriga a pedra Titicaca, que deu nome ao lago, e uma mesa de sacrifícios em um mirante lindo. De certo ponto é possível admirar outras três ilhotas que formam um triângulo no lago; submersa bem no centro deste triângulo, Jaques Custeau e sua equipe descobriram uma cidade Inca, com muitas lendas e muito ouro.

Despeeeeenca

Voltei para La Paz de ônibus, porque chegar de bike na capital boliviana é muito perigoso. Lá contratei uma operadora local para conhecer o maior downhill do mundo, na estrada conhecida como “estrada da morte”. Se você, como eu, gosta de um pouquinho de adrenalina (entenda como PERIGO), não pode perder esse rolê. No total são 64km pra baixo por 3.345 metros de desnível, partindo de um cume a 4.640 metros de altitude, de onde saímos com neve, chuva e muito, muito frio. Foram sete horas de descida realmente perigosa, costeando uns abismos e passando por curvas fechadíssimas.

 

Optei por alugar uma bike da agência (contratei os serviços da Madness – www.downhill-madness.com), garantindo que eu não teria nenhuma avaria no meu equipamento. O roteiro custa de 30 a 150 dólares, com lanches e transporte até o começo do donwhill inclusos. O que difere de um pacote para o outro é a bike: algumas têm suspensão traseira, outras não. Foi ótimo ir com a operadora, porque conheci uma galera da Nova Zelândia, Austrália, Inglaterra que haviam comprado o mesmo pacote que eu, e passamos o dia todo juntos. A paisagem é deslumbrante e, se feito com responsabilidade, o passeio vai se tornar um dos dias mais inesquecíveis da sua vida, como foi para mim.

 

A experiência de viajar sozinho também é inesquecível, uma verdadeira pós-graduação de vida. Descobri que viajar sozinho é estar muito bem acompanhado. É procurar e valorizar os apertos de mão, os abraços, as conversas, o ar puro, o sol, a lua, os sorrisos. O valor das coisas sólidas, palpáveis, pode até ser medido, mas o valor das sensações e emoções é muito maior e imensurável. Gastei “sólidos” 450 dólares de passagem e 10 dólares por dia, e fiz a viagem mais louca e bacana da minha vida.

 

Agradecimentos: Dalton Maziero (arqueólogo brasileiro que mapeou o Titicaca a pé) e Eliana Garcia e Rodrigo Teles, do Clube de Ciclotursismo, que deram todas as dicas sobre o lago.

Quer sair no pedal sozinho?

 

Faça um check-list de tudo o que você precisa para não ter surpresas desagradáveis pelo caminho. Alguns itens que não podem faltar:

 

• Uma bike em bom estado, com no mínimo 21 marchas (para aliviar o esforço de pedalar com bagagem) e um câmbio resistente, fácil de regular. Nem sempre o câmbio top de linha é o melhor para este tipo de pedal.

 

• Os pneus sofrem um desgaste muito grande com o peso e a quilometragem. Saia com pneus novos ou em excelente estado.

 

• Alforje (bagageiro para bike) impermeável ou com capa contra chuva é indispensável. E nem pense em viajar com peso nas costas ou cintura.

 

• Leve ferramentas, câmaras reservas, remendos para pneus, bomba de ar, cabos de aço extra para câmbio e freios, pastilhas de freios extra, óleo para lubrificação, gomos extras para correntes – enfim, tudo que você pode precisar durante a viagem. Aprenda mais sobre mecânica e manutenção com o seu mecânico ou em cursos.

 

• Leve roupas específicas: bermudas ou calças de ciclismo, jaqueta corta-vento, gorro, luvas com aderência e luvas com dedos (para frio, vento e noite), calças corta-vento e blusa segunda pele. Dependendo de seu destino, o vento, frio e chuva podem ser grandes inimigos.

 

• Barraca, isolante térmico e saco de dormir, para poder passar a noite em qualquer lugar.

 

• Sacos-estanque, para levar câmeras, objetos que se degradam com água e roupas secas.

 

• Deixe câmara reserva, ferramentas e alguns alimentos rápidos em bolsas presas no quadro da bike, para evitar perda de tempo em trocas de pneus ou reabastecimento. Bolsa de guidão é uma mão na roda para deixar as coisas importantes sempre à mão.

 

• Caramanholas presas ao quadro: a hidratação é um fator decisivo entre o sucesso e o fracasso de sua viagem.

 

• Kit de primeiros socorros com medicamentos para náuseas, febre, desidratação, dores e curativos. Aprenda a estancar sangue e agir de forma correta em situações de emergência.

 

• Instale um “pezinho” na bike para poder parar a bicicleta em pé durante os descansos.

 

• Ciclocomputador que registre a distância percorrida e velocidades total e média, para que você sempre esteja com o controle de sua performance, se localize fácil entre trechos/cidades e não force seus limites.

 

• Lanternas. Para garantir visibilidade se você precisar pedalar à noite (evite isso por questões de segurança), utilize luzes halógenas ou mesmo um head lamp no guidão.

 

• Mapas, textos, guias e referências. Todas as informações que você conseguir serão valiosas. Converse com pessoas que já conhecem a região.

 

• Capacete. Nem cogite sair de casa sem ele.

(Reportagem publicada originalmente na Go Outside de abril de 2006 e atualizada em maio de 2019)

http://gooutside.com.br

Por Igor Botelho

25/MAI/2019

De Turim a Mônaco de bicicleta

O relato desta jornada remete ao ano de 2014, quando decidimos pela nossa primeira cicloviagem. A experiência, exótica para muitos brasileiros, é rotineira em vários países da Europa, onde ciclistas, sozinhos ou em grupos, avançam fronteiras com alforjes e disposição. O plano inicial era viajar em dupla, mas logo outros gostaram da ideia e, ao final, cinco amigos, cada um de um canto do mundo, toparam a travessia. Ainda sem alforjes, mas já com disposição.

O primeiro destino escolhido foi a Via Claudia Augusta, antiga estrada romana que cruza os alpes da Alemanha até Veneza. Já nessa primeira viagem, nossas mentes se abriram para essa experiência. Habituados ao turismo padrão dos grandes centros urbanos, descobrimos uma forma diferente de vivenciar a essência dos lugares. Numa viagem de bicicleta todos os sentidos se apuram: o olfato, pela pureza da respiração; a visão, pela apreciação lenta dos detalhes; o paladar, pela diversidade de sabores típicos; o tato, pela variação do clima, dos graus negativos ao sol a pino, da chuva ao vento; e a audição, simplesmente pelo silêncio.

 

Desde então, outras cicloviagens vieram. Numa delas, partimos de Berlim e chegamos a Copenhagen. Noutra, o destino foi a Suíça. Todas vivências inesquecíveis, mas com um ponto em comum, rotas existentes e bem conhecidas.

 

Desta vez, em 2017, ousamos definir nosso próprio trajeto. O caminho idealizado conciliaria o melhor das experiências anteriores. Montanhas, estradas vicinais, lagos, vilarejos medievais, litoral e altas e baixas temperaturas eram alguns dos elementos essenciais. Mas onde? Horas de Google Earth noite adentro, conferences call, Skype e diversos pitacos para, ao final, elegermos (em votação) a rota entre Turim e Mônaco. Além da composição da primeira viagem, Daniel Sabino, Henrique HBF, Jair Rangel, Caio Natividade e Rodrigo Barros, aderiram ao grupo João Claudio e Léo Trópia.

Escolhemos, como ponto zero, um anfiteatro romano e já em seguida partimos ladeira acima para iniciarmos a travessia dos Alpes pelo Passo de Montgenevre, onde, em 200 a.C., o imperador Anibal, com seus elefantes de guerra, invadiu o Império Romano. A subida era interminável, mas se os elefantes conseguiram, também nos sentíamos capazes! Além da natureza estonteante e barracas de queijos artesanais, passamos pelo Forte de Exilles, prisão do lendário homem da máscara de ferro.

“MONTANHAS, ESTRADAS VICINAIS, LAGOS, VILAREJOS MEDIEVAIS, LITORAL, ALTAS E BAIXAS TEMPERATURAS…”

Após uma noite bem dormida a 2.000m de altitude na fronteira entre Itália e França, acordamos com mais de um metro de neve na porta do hotel. Num primeiro momento, o deslumbre com a paisagem, algumas sessões de esqui-bunda, mas, em seguida, nos demos conta do problema. Como pedalar naquela situação? A solução foi descer os primeiros 10 quilômetros numa van e, com mais 60 pedalados adiante, o branco da neve deu lugar à imensidão azul do lago Serre-Ponçon. Se há um espaço neste planeta para ilustrar um ambiente bucólico, este é o local. Picos nevados, floresta, água azul, tudo sob a luz de um sol brilhante.

“PICOS NEVADOS, FLORESTA, ÁGUA AZUL, TUDO SOB A LUZ DE UM SOL BRILHANTE.”

 

Pedalamos dezenas de quilômetros contornando o lago até a aconchegante Barcelonnette, porta de entrada para o Parque Nacional Du Mercantour, na França. Em seguida, tome mais subida! Mas dessa vez uma subida suave, ziguezagueando cada contorno da montanha. Subimos horas desfrutando a linda vista do vale abaixo sem ver o tempo passar. Saímos de 1.100m de altitude e, já aos 1.600m, o verde da vegetação passou a dar lugar à neve na beira da estrada. Por sorte, um trator havia passado mais cedo e limpou a pista. A 2.000m o gelo em nossa volta já atingia um metro e, a 2.326m, no El Col de la Cayolle, um paredão branco de quase três metros escondia tudo ao redor, até mesmo o famoso refúgio.

 

A paisagem da descida até Nice, com seus túneis entalhados na rocha, não é menos maravilhosa. Por motivos óbvios, tudo passa numa velocidade mais acelerada e o silêncio contemplativo da subida deu lugar à adrenalina. Inesquecível também a parada em Entrevaux, vila medieval às margens do rio Var. No fim da tarde, chegamos à agitada Nice, com seus restaurantes e bares. Pensamos até em prosseguir noite adentro, mas os 130km pedalados no dia e a barriga cheia da famosa Cuisine Niçoise pesaram e buscamos um teto.

Quando pensamos que já estaríamos saciados de tantas belezas, acordamos com o sol rachando na Cote D´Azur e nos maravilhamos com o passeio de 40km pelo litoral até Mônaco, acompanhados por um mar azul e as suntuosidades das mansões dependuradas nas encostas. Chegamos em uma Mônaco preparada para a prova de fórmula-1, que aconteceria em duas semanas. Transformamos nossas bikes na McLaren do Senna e divertimo-nos nas várias voltas pedaladas do circuito. A subida do cassino Montecarlo, tão inofensiva para os potentes F1, mais parece uma parede quando os motores são nossas pernas. Principalmente após 500 km e 9.000m de ganho de elevação em seis dias de viagem.

“TUDO QUE IDEALIZAMOS FOI EM MUITO SUPERADO.”

 

Ao final, as incertezas dos primeiros dias de planejamento deram lugar a uma sensação de realização. Tudo que idealizamos foi em muito superado. Um caminho simplesmente deslumbrante, rico em história e estórias, digno de ser reconhecido como uma rota de cicloturismo oficial.

https://revistabicicleta.com

Por Daniel Sabino
Colaboração de edição Renato Perim

23/MAI/2019

A Expedição Dê – Éfe fase II, monumentos e locais históricos

FASE I – QUADRILÁTERO DO DF
Formação geométrica que define o Distrito Federal


FASE II – MONUMENTOS E LOCAIS HISTÓRICOS
Pontos turísticos dentro e nas proximidades do Distrito Federal


FASE III – HISTÓRIA
Cidades e povoados históricos, quilombo, parques ecológicos e rotas com cachoeiras


FASE IV – CICLOVIAGEM
Caminho da Fé de Trindade

A Expedição Dê-éFe (DF) é um abraço ao quadrilátero DF (formação geométrica que define o Distrito Federal) , procurando transcorrer de bicicleta o mais próximo possível todos os limítrofes do Distrito Federal com Goiás e Minas Gerais, além de outros pontos da história do Distrito Federal, criando trilhas sugestivas para pedais com três dígitos de quilometragem. O ciclista pode conhecer pontos e edificações da história da capital do Brasil, cidades históricas, rotas de cachoeiras e Caminho da Fé. A expedição foi realizada em algumas fases em diversas partes.

Em 2014 comecei a sonhar com essa aventura, dei início ao projeto e aos poucos fui planejando. Em 20 de outubro de 2016, eu e o colega de pedal Edson Luiz colocamos em execução a primeira etapa.

 

Fase II

Parte I


O Avião Plano Piloto de Brasília

 

Iniciada em 11 de dezembro, a fase II teve como objetivo conhecer pontos turísticos dentro e nas proximidades do Distrito Federal, com passeios entre 50 e 150 quilômetros. Começamos pedalando no Plano Piloto de Brasília, projeto urbano da cidade de 1957, com o formato popularmente comparado ao de um avião. Percorremos os Eixos Monumental, Norte e Sul, as vias L2 Norte e Sul e W5 Norte e Sul, em 80,1 km. Notamos que é mais viável girar nesse trajeto aos domingos e feriados, já que nem todo percurso tem ciclovia.

 

Parte II
 

Um passeio de bicicleta na capital do Brasil

Pedalamos por muitos pontos turísticos de Brasília. Passamos pela Praça dos Três Poderes, com seus edifícios monumentais e pelo Museu de Arte de Brasília (MAB), criado em 1985 pelo Governo do Distrito Federal e que reúne centenas de obras significativas da produção das artes visuais moderna e contemporânea, que vão da década de 50 ao ano de 2001. Atualmente, o museu está fechado e não recebe mais visitas. O acervo encontra-se no Museu Nacional.

 

Parte III e IV
 

Em busca de monumentos

A pedra fundamental de Brasília

Em 30 de dezembro, as 6h35, Edson e eu estávamos nas proximidades do Monumento “Árvores de Ferro Vermelhas”, monumento constituído de três artes simbolizando árvores, e nos galhos figuras de aves e animais. Partimos dali em busca da Pedra Fundamental de Brasília e quiçá, encontrar algumas construções históricas e modernas do Distrito Federal. Nos deslocamos por estradas de terrão e asfalto, por um percurso elaborado em forma de circuito.

Passamos por diversas lavouras e conhecemos o abieiro, árvore que se destacava na paisagem. Aproveitamos para descansar sob a sua sombra e degustar seu saboroso fruto, o abil. Revigorados, seguimos nosso caminho. Era possível manter um pedal constante, já que 65% era transcorrido por rodovias asfaltadas. Todavia, por causa do trânsito pesado em dias de semana, ausência de acostamento e asfalto irregular no trecho entre Sobradinho e Núcleo Bandeirante, o aconselhável é realizar esse percurso em fins de semana ou feriados.

Mas nosso objetivo principal nessa etapa da expedição era a “Pedra Fundamental de Brasília”. A Pedra Fundamental é um obelisco localizado no Morro do Centenário a 1.033 metros de altitude. Foi assentada ao meio dia de 7 de setembro de 1922, pelo então presidente Epitácio Pessoa, para comemorar o centenário da Independência. Ela caracteriza o ponto central do Brasil e foi assentada no ponto mais elevado do Morro do Centenário, proporcionando uma visão da área em todas as direções.

Mais tarde, visitamos a Fazenda Velha, datada de 1884, localizada em vale pertencente a terrenos suavemente acidentados, com vista de bela paisagem composta por elevações da Chapada da Contagem e depressões da bacia do São Bartolomeu. A casa possui arquitetura colonial, com paredes de adobe, piso de aroeira e telhado de telhas de barro. No início dos anos 1700, chegaram ao interior do país os bandeirantes, em grandes expedições à procura de ouro e outras riquezas. Anos depois, outros bandeirantes começaram a adentrar as terras hoje pertencentes ao Distrito Federal em busca de tesouros relatados pelas viagens de seus antecessores. Com o tempo, as terras eram ocupadas e se tornavam povoados e fazendas para a criação de gado e plantio de cereais diversos. Depois foram criadas as fazendas mãe, que originariam as atuais propriedades da região. Uma dessas fazendas mãe era a Fazenda Sobradinho dos Melos, pertencente a uma família nobre, sendo um local de referência social e econômica na época. Com o decorrer dos anos, as fazendas mãe iam sendo divididas em heranças e a Fazenda Velha hoje é a parte de Sobradinho dos Melos que sobreviveu. Nossa visita na fazenda foi uma viagem no tempo, com possibilidades de interação com modos de vida, usos e costumes dos nossos antepassados.

Na direção do Lago Norte, passamos pela Torre de TV Digital de Brasília, o último projeto de Oscar Niemeyer edificado antes de sua morte. Outro lugar interessante é o Parque Nacional Água Mineral de Brasília. Com cerca de trinta mil hectares, o parque protege ecossistemas típicos do cerrado do Planalto Central, abriga fauna abundante e preservada e tem várias piscinas formadas a partir de poços de água da região. 


Adiante, a Capela Nossa Senhora Aparecida, que foi destruída por um incêndio em 2007, mas restaurada de acordo com sua planta original e reinaugurada no ano seguinte.

Conhecemos o Catetinho, primeira residência oficial de Juscelino Kubitschek no Distrito Federal na época da construção de Brasília. Situado às margens da BR-040, próximo as cidades de Santa Maria e Gama, tem esse nome por causa do Palácio do Catete, então residência oficial do presidente. Foi construído em apenas dez dias, em novembro de 1956. O prédio simples, feito de madeira, é conhecido como Palácio de Tábuas. À margem leste da rodovia BR-040 fica o Monumento Solarius, popularmente conhecido como Chifrudo, uma estátua de dezesseis metros de altura doada pelo governo da França.

Durante essas fases, também pedalamos por quatro reservas ecológicas: Cabeça de Viado, IBGE, Fazenda Água Limpa e Marinha do Brasil. Nossa rota margeou essas reservas por 31 quilômetros. Chegávamos a última parte da fase ll.

 

Parte V


A volta no Lago Paranoá

Em 12 de janeiro de 2017, comecei a contornar o Lago Paranoá, partindo do Zoológico de Brasília. Fiz o total de 120,9 km, pedalando por nove horas e meia.

O Paranoá é um lago artificial de Brasília, concedido em 1894 e concretizado com a construção da cidade, no governo Kubitschek. Paranoá é um vocábulo tupi, que significa “enseada de mar”. Em alguns pontos do trajeto, devido ao baixo nível das águas, foi possível pedalar bem perto da margem, conhecendo lugares acessíveis apenas de barco. A rota dessa parte também incluiu passar pelos Palácios do Jaburu e da Alvorada.

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Por Izaias Santana Lima

23/MAI/2019

Ciclo expedição de Macapá-Amapá ao Oiapoque-Amapá

A ideia para efetivar essa ciclo expedição surgiu no início do ano de 2016 quando concluímos uma cicloviagem de Porto Alegre-RS até o Chuí-RS pela Costa Doce. Estas escolhas geralmente acontecem quando terminamos uma cicloviagem, e já passamos a pensar na próxima. Chegar ao Oiapoque seria para fechar o outro extremo do Brasil. Ao norte, a cidade do Oiapoque é considerada a primeira cidade, ou seja, onde o Brasil começa. Tanto é que na beira do Rio Oiapoque está construído um monumento com este dizer: “Aqui começa o Brasil.” Sendo lá nosso primeiro objetivo, queríamos registrar com fotos antes que o sol se pusesse. Isso após 600 km pedalados em 7 dias e outros 80 km embarcados em um carro de um dos locais. Com bicicletas carregadas, relevo forte e sofrido pelo tráfego de todo tipo de locomoção rodoviária, a lama grudava nos pneus dificultando o pedalar e até o empurrar, e estando no meio da floresta amazônica, ficaria extremamente difícil a travessia de dia. A área também é de reserva indígena, abrigando diversas tribos. Sendo assim optamos fazer a travessia de forma segura para não corrermos riscos desnecessários, como acampar no meio da floresta, enfrentando chuva, possibilidade de contato com onças, (que são relatados pelos moradores de todas as cidades que passamos), sucuris ou outros obstáculos.

As cidades conhecidas são: Macapá, Porto Grande, Ferreira Gomes, Tartarugalzinho, Amapá (cidade do estado do Amapá, na qual se localiza a Base Aérea Americana da Segunda Guerra Mundial), Calçoene, Distrito de Carnot, Distrito do Cassiporé I, Cassiporé II (ambos na área indígena), Oiapoque e Saint George na Guiana Francesa. Em todas, nos hospedamos em pousadas ou hotéis. Buscamos conhecer a história de cada uma delas, e também fizemos amizades muito bacanas que nos orientavam sobre todos os aspectos da região, sempre cuidando para que não entrássemos em situações perigosas em relação aos animais, locais onde ocorre o garimpo de ouro, intempéries e outros.

Iniciamos a Ciclo expedição no dia 26 de dezembro com a saída de Cuiabá-MT de avião, já que no estado do Amapá só se chega com avião ou navio. Como chove muito nesta época e a formação de neblina também ocorre, em sua primeira tentativa de pouso o avião teve que arremeter e voar em círculos por 20 min para nova tentativa, que também foi sem sucesso. Desta forma, fomos conduzidos em segurança para o aeroporto de Belém, no Pará. Ficamos lá por duas horas até que voltamos para Macapá e o pouso foi bem-sucedido. Situação angustiante para os passageiros, mas comum para tripulantes que já conhecem o que ocorre nas condições do tempo de inverno. Ficamos hospedados dois dias na cidade de Macapá, capital do estado Amapá. Lá procuramos o Consulado da Guiana Francesa para pegar o visto para podermos adentrar até a cidade de Caiena. Infelizmente não pudemos esperar os 8 ou 10 dias necessários para se obter o mesmo. Sendo assim, desistimos dos mais de 400 km que pedalaríamos dentro daquele país, mas só por enquanto; vamos voltar e concluir a missão de entrar na Guiana Inglesa e Suriname. Queríamos muito conhecer o Marco Zero, ou seja, a Linha do Equador, que passa em Macapá. Conhecemos também a Fortaleza de São José e a orla do rio Amazonas. Macapá é a única capital brasileira banhada pelo rio Amazonas, o que é relatado com orgulho pelos moradores.

Nosso primeiro dia de pedal efetivo foi de 128 km de Macapá até Porto Grande no dia 29 de dezembro. Foi aí que fomos batizados pela primeira chuva amazônica e que se tornou nossa companheira fiel e diária. Teve uma tarde em que precisamos nos agarrar e segurar fortemente as bikes para não sermos levados pelo vento que veio forte com a chuva vespertina. O calor é forte, mas as chuvas e vento são os principais obstáculos para cicloturistas. Nossa virada de ano foi na cidade de Tartarugalzinho. Chegamos perto das 21 horas e, sem nem tomar banho e com os pés encharcados pelas chuvas, fomos participar do 17º Festival da Banana. Admirável a festa organizada pela prefeitura municipal. Claro que não pudemos ficar até a virada pois no dia seguinte teríamos mais desafios pela frente.

 

“É MUITO EMOCIONANTE SABER QUE VOCÊ ESTÁ NO CENTRO DO PLANETA TERRA. “

Ficamos hospedados dois dias na cidade de Calçoene, eu havia contraído gripe, talvez pelo fato de tomar vários banhos de chuva e da roupa secar ou não no próprio corpo. Também precisávamos muito descansar pelo menos um dia e reavaliarmos os próximos “passos”. Aproveitamos o descanso e fomos conhecer a praia do Goiabal, próximo de onde ocorre o fenômeno da pororoca. O local está sofrendo invasão do Oceano Atlântico, que já causou problemas: casas e comércios da orla já foram totalmente destruídos pela força das ondas. O difícil acesso também impede que a população visite mais aquela linda localidade tão cheia de histórias.

Chegamos no Oiapoque no dia 5 de janeiro, já anoitecendo. No dia seguinte atravessamos o rio Oiapoque em um barco pequeno e fomos conhecer a cidade de Saint George, na Guiana Francesa. Compramos alguns souvenirs pagos com euro, já que a Guiana Francesa é Departamento da França. Voltamos ao querido Oiapoque de gente trabalhadora, sofrida e adaptada àquelas condições típicas do território, seu comércio diversificado e vibrante em razão da população guianense (que tem moeda forte) que busca todo tipo de serviços e produtos no nosso país.

 

O que mais nos chamou a atenção é que a cultura e a arquitetura deixada pelos portugueses são fantásticas, de norte a sul, do Oiapoque ao Chuí. Os traços culturais são fortíssimos, o que consideramos um fenômeno ímpar. Outra observação importante é que as pessoas, ribeirinhos ou não, são ordeiras e trabalhadoras. A cultura pré-colombiana local chega a ser equiparada, por arqueólogos atuais, ao que se encontra nas civilizações astecas e incas. Algo marcante é o uso do símbolo da pororoca em calçadas, paredes, pisos, cerâmicas e outros. Os oiapoquenses respeitam muito a lei do Departamento Francês porque lá realmente a lei é respeitada e cumprida, não tem acordo. Ou você está devidamente autorizado a percorrer o território guianense ou vai preso e deportado, sem contar com o risco de levar uma boas bordoadas dos gendarmes (conforme vários relatos). Escapando destes, pode cair nas mãos dos legionários da legião estrangeira, cujos métodos são temidos no mundo todo.

 

Nossa ciclo expedição continha no roteiro a volta pelo rio Amazonas, de navio. Para chegar do Oiapoque-AP até Santana-AP viajamos de ônibus por 12 horas. De Santana-AP até Santarém-PA, viajamos com o navio denominado Amazonas, que foi margeando várias cidades ribeirinhas, uma viagem importantíssima (vale relato posterior), por 36 horas; e de Santarém até Cuiabá-MT de ônibus por mais 36 horas de viagem pela rodovia BR 163, que está quase 100% com cobertura asfáltica.

 

Ciclo expedições e ciclo turismos já realizados

Estrada Real, São Bento do Sul a Foz do Iguaçu-PR, Porto Alegre-RS ao Chuy-Uruguai, Porto Alegre-RS a Montevideo-Uruguai, Vale Europeu-SC, Circuito das Araucárias-SC, Vale dos Vinhedos-RS, Cascavel-PR a Guarapuava-PR, Transoceânica do Acre ao Porto de Matarani, no Peru.

 

Existem muitos planejamentos de outras ciclo expedições como: A saga do Marrano; Roraima; parte da Route 66, entre outras.

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Por Áurea Wawzeniak

17/MAI/2019

Cicloturismo: como se preparar para uma viagem de bicicleta

Viajar de bicicleta é uma aventura inesquecível. Desde pequenos trajetos até viagens intercontinentais, são cada vez mais comuns as histórias de gente que abre mão do transporte motorizado em nome de uma viagem mais lenta, que proporciona mais proximidade com os lugares visitados. 

Para que tudo corra bem, no entanto, é preciso tomar alguns cuidados. Imprevistos podem ocorrer – esteja preparado para lidar com eles e seguir viagem. 

 

Cicloturismo: como se preparar para uma viagem de bicicleta. 

 

>> Planejamento

  • Comece pequeno. Se você nunca fez uma cicloviagem, é recomendável começar com uma rota modesta, de poucos dias e baixa quilometragem diária, para “pegar o jeito”, antes de se jogar em uma aventura intercontinental.

  • Treine para a viagem antes de ir, de preferência passando por relevos parecidos com os que você vai encontrar no caminho. Treinar com o alforje cheio vai te dar uma ideia mais precisa de como será pedalar com o peso extra, e como ficará o equilíbrio em cima da bike. 

  • É imprescindível fazer uma revisão mecânica na bicicleta antes da viagem. Informe seu mecânico sobre seus objetivos, por onde vai passar e quanto pretende pedalar, para que ele possa ver se todas as peças aguentarão a jornada. Corrente, pneus e pastilhas de freio precisam estar em boas condições. 

  • Investir em um bike fit apropriado antes de cair na estrada é o melhor jeito de evitar dores devido às horas contínuas de pedal. 

  • Escolha uma rota que esteja de acordo com a sua capacidade física. Vento, areia e lama podem dificultar ou impossibilitar o pedal – esteja preparado para o caso de não conseguir concluir um trajeto dentro do tempo planejado. 

  • Estude sua rota antes de sair de casa, leia relatos e pegue dicas com quem já foi. Veja onde há locais para se hospedar e determine quantos quilômetros você irá pedalar por dia. 

  • Saia de casa sabendo consertar pelo menos os problemas básicos da bicicleta – e com as ferramentas para isso. Saber trocar um pneu, ajustar o freio e resolver problemas na corrente são o mínimo necessário para resolver percalços inesperados.

  • Informe seus planos de viagem a pelo menos uma pessoa de confiança em casa, que saberá onde você está e quando deve voltar.

  • Se for pegar um avião ou ônibus com a bicicleta, confirme com a companhia com antecedência se é possível levar a bicicleta e quais os procedimentos e taxas. 

 

>> Na estrada:

  • Distribua o peso de maneira uniforme entre os alforjes, para que a bicicleta continue equilibrada. Barracas e outros itens coletivos de acampamento podem ser “desmembrados” e carregados por mais de uma pessoa.

  • Pedalando por estradas, siga sempre na mesma mão dos carros (nunca na contra-mão), e sinalize suas intenções com as mãos. Em cruzamentos, pare e verifique se não há carros vindo (mesmo se a preferencial for sua).

  • Não dependa só do GPS – o sinal pode falhar, o celular pode ficar sem bateria ou quebrar. Leve um mapa em papel da região sempre com você. 

 

>> Equipamentos:

  • Deixe a vaidade em casa. Leve a menor quantidade possível de roupas, e planeje repetir o mesmo look muitos dias – materiais sintéticos pegam menos cheiro e secam mais rápido.

  • Prefira roupas claras e em cores chamativas, que aumentam sua segurança na estrada. Se durante a viagem perceber que levou coisas demais, é sempre possível mandar de volta para casa pelo correio, ou doar a alguém que precise pelo caminho. 

  • Teste todo seu equipamento eletrônico antes de partir, e garanta que está com baterias e cabos. Um powerbank pode ser um ótimo aliado se você vai passar por lugares remotos. 

  • Reduza onde for possível. Itens de higiene pessoal devem ser em tamanho miniatura.

  • Esteja preparado para diferentes condições climáticas. Uma capa de chuva/corta-vento, um agasalho, um boné, óculos escuros e protetor solar compõem o kit mínimo para conseguir enfrentar qualquer situação com conforto. Não esqueça de levar um chinelo para os momentos de descanso.

  • Leve um kit de primeiros socorros, alimentação e água (para uma viagem auto-suficiente, pelo menos dois litros por dia por pessoa). Uma lanterna e luzinhas para a bike (frontais e traseiras) também são indispensáveis.

  • Seu kit ciclístico deve conter no mínimo remendos para pneu, emendas de corrente, duas câmaras reserva, lubrificante e um canivete multi-funções.

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03/MAI/2019

Três destinos no Brasil para você viajar de bike

 

Roteiros para curtir a vida na bike pelas estradas do Brasil

A bike é sem dúvida a parceira perfeita em viagens. Se você já é experiente ou quer uma inspiração para começar a viajar de bike, selecionamos três destinos incríveis no país para você conhecer em cima de uma magrela.

 

Circuito das Araucária

 

Um roteiro perfeito para quem quer visitar o Brasil e curtir a vida na estrada

 

Criado em 2012, o Circuito das Araucárias passa por quatro municípios do interior de Santa Catarina (Campo Alegre, Corupá, São Bento do Sul e Rio Negrinho) e contempla atrativos naturais variados, entre mata atlântica, florestas de araucárias e cachoeiras. Ao todo são 250 quilômetros de estradas de terra em bom estado de conservação, mas com várias seções de subidas pouco recomendadas para quem não está com o pedal em dia. O percurso é inteiramente sinalizado por placas e, ao longo do caminho, o ciclista carimba o “passaporte” emitido pela Secretaria de Turismo de São Bento do Sul, cidade a 100 quilômetros de Curitiba – o ideal é reservar um dia antes de começar o pedal para se inscrever nesse circuito.

 

É normal levar entre seis e oito dias para concluir o trajeto, que além de tudo é uma bela imersão nas culturas alemã, polonesa e italiana do interior do Brasil. A variedade de hospedagens pelo caminho possibilita diferentes planejamentos. Por exemplo, você pode esticar mais o pedal em um dia e suavizar no outro, e vice-versa (veja dicas no site oficial). Ainda assim, alguns trechos são isolados, sem restaurantes ou mercearias, mas nunca faltam lugares para se conhecer e curtir, como a Estrada Dona Francisca, em Campo Alegre, que conserva trechos originais de sua construção, da metade do século 19.

 

Distância: 250 km.

Duração: Uma semana.

Bike ideal: Um modelo de cicloturismo com pneus de cravo encara bem esse rolê.

Custo: $$$

Quando ir: O ano todo.

Dificuldade: Recomendado para quem está acostumado com subidas longas com a bike carregada.

 

FORA DA BIKE: A Rota das Cachoeiras é um dos atrativos imperdíveis para quando você ou seus amigos não estiverem sobre a bike. Trata-se de um trekking de quatro horas que passa por uma incrível sequência de 14 cachoeiras. Em Corupá, faça a trilha até o topo do Morro da Igreja, de 870 metros, uma caminhada de 2h30min (só de ida).

 

Natureza e calmaria na Canastra

Descubra as atrações da serra mineira e viva uma grande experiência em duas rodas

Localizado no centro-sul de Minas Gerais, o Parque Nacional da Serra da Canastra é recortado por pequenas estradas de terra que levam a inúmeras cachoeiras e outras paisagens extremamente preservadas. Uma viagem de bicicleta por lá exige bom senso de orientação e planejamento. Para quem chega por Franca (SP), a aventura começa em Delfinópolis (MG). Desse ponto sai uma estrada de terra que se transforma na Serra das Sete Voltas, uma dura subida cujo destino é a portaria do parque da cidade Sacramento. O acesso das bikes ao interior desse Parque Nacional é permitido, no entanto é proibido pernoitar lá dentro – e as portas fecham às 18 horas. Para cruzá-lo de ponta a ponta são 65 quilômetros, mas, mesmo que você consiga fazer isso em um único dia, estaria deixando de visitar os lugares mais interessantes.

 

A alternativa, então, é seguir rumo à Portaria São João Batista, que marca exatamente a metade do trajeto. Próximo a essa saída há um vilarejo bem receptivo e ideal para se acampar por uma noite. No caminho, você passará pelo mirante Casa de Pedra e pelas cachoeiras do Rolim e Casco D’Anta – nesta última encontrará um camping de alto nível próximo à saída homônima, que segue em direção à cidade de São José do Barreiro (MG). É também na Canastra onde nasce o rio São Francisco, que logo se transforma em uma cachoeira de 180 metros. Mas grande parte do trajeto é pela crista, entre a vegetação rasteira. Por isso uma boa dica é levar bastante água e roupas leves para se proteger do sol. O fim do passeio se dá na portaria de acesso à cidade de São Roque de Minas, que tem excelente infraestrutura turística, com bares agradáveis e pousadas para todos os bolsos.

 

Distância: 500 km.

Duração: 15 dias.

Bike ideal: Uma mountain bike que te permita carregar alguns apetrechos.

Custo: $$

Quando ir: Entre abril e outubro, durante a estiagem.

Dificuldade: Indicado para bikers de nível avançado, mais pela dificuldade de orientação do que pelas fortes subidas. Acesse o site para saber mais detalhes.

 

FORA DA BIKE: Em Sacramento (MG), próximo a uma das principais portarias do parque nacional de mesmo nome, estão alguns dos atrativos mais impressionantes da Canastra, como a Gruta dos Palhares (a maior gruta de arenito da América Latina) e a Cachoeira São Basílio. Todas elas podem ser visitadas em trekkings de tirar o fôlego.

Rolê de chapar

Na Chapada dos Guimarães, você pedala se sentindo em outro planeta

Distante apenas 60 quilômetros da capital Cuiabá (MT), a Chapada dos Guimarães é bem menos procurada do que as da Diamantina e dos Veadeiros, mas não menos interessante: cachoeiras, cavernas, lagos e trilhas estão ao alcance das bicicletas nesse pedaço privilegiado do cerrado brasileiro, onde as rochas foram caprichosamente esculpidas pelo tempo. De bike, siga para o Vale do Rio Claro, onde imperam os famosos paredões dessa chapada. Em estrada asfaltada e com pouco movimento, você passará antes pelo Vale dos Dinossauros, que tem esse nome graças às exóticas formações daquele arenito avermelhado. O rio Claro faz companhia durante todo esse trajeto, e paradas para se banhar ali são inevitáveis. Outro atrativo impressionante da chapada mato-grossense são as pinturas rupestres, extremamente conservadas e que nos dão a chance de entender um pouco do homem da pré-história. O retorno a Cuiabá de bicicleta é altamente recomendado: uma estrada só com descidas e um visual alucinante te fará apertar os freios várias vezes para tirar fotos.

 

Distância: 250 km.

Duração: Cinco dias.

Bike ideal: Uma mountain bike para enfrentar estradas de terra e singletracks.

Custo: $$

Quando ir: Entre abril e setembro, já que nos outros meses chove muito. Dificuldade: Apesar de a distância não assustar, há trilhas técnicas com subidas e descidas pela Chapada dos Guimarães, muitas vezes expostas ao sol.

FORA DA BIKE: Reserve um dia para subir a pé a Serra do Uatmã, o ponto mais alto da chapada, de onde se avista a planície cuiabana e o parque nacional dos Guimarães. É um trekking pelo meio da mata, que explora a parte alta do chapadão e permite um mergulho na nascente do rio Coxipozinho, que mais à frente vira a majestosa cachoeira Véu da Noiva.

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03/MAI/2019

5 dicas de cicloturismo para iniciantes

5 dicas de cicloturismo para iniciantes

Dicas de cicloturismo para iniciantes – Há aproximadamente 15 anos realizei a minha primeira cicloviagem. Parti de bicicleta com meu pai da minha cidade natal – Atibaia – rumo o distrito de Monte Verde, em Camanducaia.

Eu era um moleque. Mas um moleque absolutamente empolgado com a ideia de atravessar uma divisa de um estado pedalando.

 

Partimos no carnaval. Com uma dieta à base de Coca Cola sem gás e presunto fora da geladeira e com toda a bagagem numa mochila escolar nas costas, chegamos depois de dois dias de pedal. Exausto, exaurido e com muita fome. Mas chegamos.

 

A resolução da foto abaixo é péssima, mas é um dos poucos registros que temos do pedal.

Desde então não parei mais. Viagens pelo Brasil e por outros países vieram e eu ia aprendendo de pouco em pouco, através de minhas próprias experiências, sobre viajar de bicicleta.

 

Eu queria ter lido um post com dicas assim quando fiz uma das minhas primeiras cicloviagens. Então decidi escrever um eu mesmo baseado nas principais dificuldades que encontrei no cicloturismo como iniciante.

 

Então se você é um iniciante nas viagens de bicicleta e quer pegar algumas dicas para realizar uma cicloviagem, você está no lugar certo. Sem mais delongas, vamos lá:

 

1. Conheça sua bicicleta

Essa foto acima é minha quando comprei minha primeira mountain bike aro 29′, em 2013. Pode não parecer muita coisa, mas eu nunca tinha andado com nada tão sofisticado como ela.

 

E foi exatamente com ela que eu atravessei o leste europeu pedalando. E eu nunca tinha tido antes uma bike com freio a disco mecânico. Nem sabia como ajustar, regular ou o que fazer em caso de emergência.

 

E foi lá pela segunda semana de viagem, cruzando a Eslováquia, que meus freios falharam. Do nada eu senti que o manete foi mais do que devia e percebi que o cabo estava solto. Eu estava no meio do nada e eu não sabia o que fazer.

 

Tive que empurrar a bike em algumas descidas por conta disso.

 

Eu sugiro que você dê uma olhada no Curso Online de Manutenção Básica de Bicicletas do Marcelo Rudini na Eduk. Ele não vai te tornar o Mestre Miyagi da mecânica, mas certamente vai te permitir conhecer aspectos básicos de mecânica e ajustes para iniciantes.

O curso é oferecido pela Eduk. Para começar a assistir sua primeira aula você deve se cadastrar na plataforma. Ela te dá 7 dias de acesso gratuito a todos os cursos que eles oferecem (inclusive esse de mecânica). Basta descer a tela e você vai ver a imagem abaixo. Ele vai te pedir um cartão de crédito, mas se em 7 dias você não curtir, é só cancelar sua assinatura que não vão te cobrar nada:

Remendar uma corrente arrebentada é MUITO menos complicado que você imagina. Te garanto!

 

2. Peque a favor do excesso na bagagem

Muito iniciante se preocupa nas minúcias do que vai levar na cicloviagem. “Será que levo 2 ou 3 camisetas? 3 ou 4 câmaras de ar? Levo um livro?”

Minha dica: leve 4 camisetas, 5 câmaras de ar e 2 livros…. bem, vamos deixar isso um pouco mais claro. Existem dois tipos de coisas que você pode levar na cicloviagem: as essenciais e as não-essenciais.

 

Coisas essenciais são sua bicicleta, seus alforges/bolsas, umas duas mudas de roupas, alimento e, se você estiver acampando, seus ítens de acampamento. Claro, a lista é maior, mas você entendeu o que quero dizer.

Coisas não essenciais são todas as outras. Câmera fotográfica, aquela sua camiseta favorita, remédio para “caso eu tenha dor de barriga”, seu livro que você quer ler debaixo das estrelas, e tudo mais.

 

Como você pode ver, há aí coisas desapegáveis e coisas não desapegáveis. Uma câmera, por exemplo, não é algo que eu deixaria com um anfitrião meu em sua casa. Uns pares de camisetas, sim.

 

Portanto o que há de errado em levar mais dessas coisas que por você seria ok se desfazer?

 

Em março deste ano eu hospedei dois uruguaios em minha casa. Eles viajavam de carona pelo Brasil até que decidiram começar a viajar de bike. Eles nunca tinham feito isso antes e logo no primeiro dia de viagem ficaram aqui comigo.

 

E eles estavam com MUITA coisa.

E depois de uma breve consultoria (e sessão de desapego) eles deixaram algumas para trás:

Me contaram também que mais e mais coisas foram ficando pelo caminho depois.

 

E não tem nada de errado com isso!

 

Pelo menos eles deixaram coisas que trouxeram em excesso, e não sentiram falta de coisas que não trouxeram. Portanto a dica para cicloturistas número 2 é: se você está quase de alforges prontos para viajar, na dúvida – e se é algo sensato de se desapegar – leve na mala!

 

3. Conheça o Warmshowers.org

A dica para cicloturistas e cicloviajantes de número 3 tem a ver com hospedagem.

 

Se você se perguntou como eles dois vieram parar aqui em casa, a resposta é: Warmshowers.org. O site é uma rede de hospitalidade e ajuda formada apenas por cicloturistas. A versão brasileira do site ainda tem um português meio tosco, mas isso é o de menos. O projeto é MUITO massa!

Warmshowers em inglês é algo como “chuveiros quentes”, fazendo alusão ao querido banho quente que um cicloviajante que está na estrada há um bom tempo tanto gosta.

 

Eu já os hospedei e também encontrei anfitriões em minha cicloviagem no Chile.

É verdade que a plataforma ainda não tem uma popularidade muuuito grande aqui no Brasil, mas além de estar crescendo é também muito forte caso você esteja viajando em outros países.

 

Ah, o Warmshowers é gratuito!

 

4. O mundo é muito menos perigoso que você imagina

Se você vive em uma região de grande concentração urbana, certamente toma muitos cuidados ao pedalar. Vai em grupo, não sai a noite, escolhe muito bem o caminho que vai passar, fica atento às pessoas com quem cruza…

 

Mas a verdade é que no Brasil – e em boa parte dos países socialmente desiguais – a criminalidade está muito associada à urbanização.

 

Quer ver uma estatística (macabra, é verdade) que explica isso muito bem? Então saca só:

“2,2% dos municípios brasileiros, que também estão entre piores em saúde e educação, concentram metade das mortes violentas do Brasil” (Fonte).

 

A dica 4 para cicloturistas, portanto, não é pra te deixar alegre e saltitante, mas para ver que tem muito mais coisa boa do que ruim pra se ver por aí pedalando. Não deixe que o medo do ser humano te impeça de viajar.

 

Um ataque de um cachorro, por exemplo, é algo muito mais frequente que o de um criminoso. Para sua alegria, porém, aqui tem um artigo todo que fala o que fazer se estiver pedalando e um cachorro te atacar.

 

5. Leia mais sobre cicloturismo (duas recomendações)

A dica de ler sobre cicloturismo tem dois impactos importantes: o primeiro é que você vai se motivar a sair pedalando. O segundo é que você vai estar preparado quando tiver iniciado sua cicloviagem.

 

Para isso separei duas dicas de leitura. Uma inspiracional e outra mais técnica:

 

I – “Transpatagônia – Pumas Não Comem Ciclistas

“Transpatagonia – Pumas Não Comem Ciclistas” é talvez um dos maiores livros-relatos da literatura sobre ciclismo em português. Com uma leitura cativante que vai te transportar para a gélida região sulamericana, você vai ficar – ironicamente – preso numa história de liberdade sobre duas rodas e vai se sentir motivado a fazer a sua própria.

Link para o livro.

 

II – O Guia do Cicloviajante

O Guia do Cicloviajante é um livro em formato ebook que eu escrevi em 2016, somando todas as minhas experiências pessoais com cicloviagem. Ele foi atualizado esse ano, em 2018, trazendo informações mais recentes, mas a ideia é a mesma: ser seu manual para que você saiba tudo o que é preciso sobre viajar de bicicleta.

 

Eu eu disse tudo mesmo: escolha de rotas, mecânica para cicloturistas, escolha da bicicleta, alimentação durante a viagem, mais aplicativos como o Warmshowers, checklist de bagagem…

 

Se você está ainda com algumas dúvidas de como se preparar para sua próxima cicloviagem, esse Guia vai ser uma mão na roda.

https://www.aventrilha.com.br

01/MAI/2019

Quatro trilhas para pedalar na região de Campos do Jordão

Um roteiro para praticar mountain bike em Campos do Jordão

Entre um rodízio de fondue e vinho, durante o dia pegue uma bike e aproveite as trilhas que possibilitam práticas de esportes outdoor em Campos do Jordão – SP. Carlos Cristóvão, atleta de mountain bike e guia de bike na região selecionou quatro trilhas ideais para MTB. As sugestões vão desde as mais fáceis, para iniciantes, até as de níveis elevados, para os profissionais. Confira:

 

1 – Zoom Bike Park

Zoom Bike Park é um espaço de mountain bike em Campos do Jordão perfeito para alugar bicicletas e ter uma experiência radical. O espaço é destinado tanto para pessoas com pouca prática quanto para experientes.

Com 32 km de “single tracks” — sendo que 22 km foram construídos do zero, seguindo orientações internacionais no padrão IMBA (International Mountain Bicycling Association) —, o ciclista conta com 18 trilhas que, ao pedalar uma por vez, resulta em aproximadamente 46 km de percurso.

 

Além disso, o Zoom Bike Park oferece aluguel de mountain bikes, lojinha, estacionamento, vestiários, box lava bike, serviços de tirolesas, passeios à cavalo, arborismo, restaurante, lanchonete e chalés para hospedagem.

2 – Trilha do zigue-zague (Zig-Zag)

Famosa desde os anos de 1980, quando aconteciam as corridas de motos, a Zig Zag é uma das trilhas mais procuradas da região. Seu ponto mais alto fica a 1.659m acima do nível do mar, com extensão de 15 km, e leva de 1h30 a 2h para completá-la.

 

A trilha, que se alterna entre single track e aberta, é considerada difícil por ter 10 km de extensão. Porém, a caminhada é compensadora quando, nos 2 km antes de terminar a trilha, aparece a estonteante cachoeira do Lajeado, um dos pontos turísticos mais importantes de Santo Antônio do Pinhal, onde se pode tomar um banho revigorante.

 

3- Big Biker

A prova é disputada anualmente desde 2001 no sistema maratona, em que o ciclista percorre grandes distâncias por todo tipo de via em uma única volta. Algumas etapas podem chegar a mais de 100 km de percurso consagrando-se vencedor o atleta com o menor tempo de prova. As categorias são Pró e Sport, diferenciadas pela distância a ser percorrida e dentro de cada uma delas, os atletas são divididos por idade.

 

Um dos percursos atravessa Campos/Santo Antônio do Pinhal e São Bento. Carlos gosta de treinar e levar seus alunos, pois é um circuito com subidas duras e técnicas, com algumas descidas velozes.

 

4 – Travessia do Baú

Localizado na Serra da Mantiqueira, com picos de até mais de 2 mil metros, o trajeto liga Campos do Jordão e São Bento do Sapucaí. O visitante pode até sair de São Paulo pedalando para transformar o passeio em uma viagem de um dia.

 

Na estrada de terra, há uma apreciável vista da Pedra do Baú e estabelecimentos de refeição. Muitas estradas levam a famosa Baú e à Estrada do Campista.

 

Não importa se a trilha é fácil ou difícil, Carlos recomenda que o ciclista se hidrate muito e proteja a pele contra os raios solares, além de aquecer o corpo antes dos passeios.

Sobre Carlos Cristóvão

Atleta de mountain bike há 25 anos, Carlos Cristóvão é formado em nutrição e educação física. Atua desde 2015 como treinador em São Bento do Sapucaí (SP), cidade próxima a São José dos Campos. Em sua academia, Saúde e Performance ele desenvolve o treinamento de acordo com a necessidade do aluno, tanto para a prática casual do esporte quanto para competições de alto nível.

 

Ao longo de sua trajetória como atleta, Carlos conquistou importantes títulos, como o de vice-campeão Brasileiro, Campeão Paulista e Melhor Atleta do Vale do Paraíba, além de Campeão do MTB 12 horas.

Em 2003, o atleta foi convidado pela Bianchi, montadora Italiana de bicicletas, para treinar na Itália na categoria Elite. Infelizmente, sofreu um acidente antes de ter a oportunidade de pisar na país europeu. O atleta foi atropelado por um ônibus e teve quatro costelas quebradas. Perdeu o movimento do braço direito, teve uma protusão discal e, devido a uma batida forte com a cabeça, perdeu a fala. Após um tempo de sessões de fisioterapia e fono, Carlos voltou a disputar campeonatos, entre eles, os mundiais de 2005 e 2010.

Hoje, além de continuar competindo, Carlos aplica seus conhecimentos em sua academia e ensina o ciclismo profissional e o recreativo.

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30/MAR/2019

Tudo que você precisa saber para pedalar pelo Uruguai

A rota é fácil, e o país ficou conhecido entre os cicloviajantes pelas estradas sempre retas

Nosso vizinho ao sul é mais conhecido pela badalação de Punta del Este, destino que virou queridinho dos gaúchos em busca de festa, e pelo carisma de Montevidéu e da histórica Colonia del Sacramento. Mas o país tem muito mais a oferecer. Uma pedalada pelo litoral é uma boa pedida para conhecer essa região com calma. A rota é fácil, e o país ficou conhecido entre os cicloviajantes pelas estradas sempre retas, com pouca altimetria. O maior desafio é o vento contra, que pode maltratar o ciclista.

 

A viagem começa no Chuí (RS), a 600 km de Porto Alegre, onde se atravessa a fronteira pedalando. A primeira parada é em Punta del Diablo, 45 km adiante. Na descida, vale visitar o Parque de Santa Teresa, com trilhas, um forte do século 16 e campings, bastante frequentados por famílias uruguaias e gaúchas. A partir dele, uma trilha de 5 km leva à Laguna Negra, uma lagoa de mais de 180 km2, com águas esverdeadas.

 

Punta del Diablo é conhecida como a praia mais descolada do Uruguai, pela atmosfera hippie chic do povoado, que mantém desde casas rústicas a baladas. Uma boa pedida é experimentar nos restaurantes da cidade os pratos de frutos do mar frescos, trazidos pelos pescadores no fim dia.

 

Seguindo em frente, o melhor e mais explorado destino uruguaio está em Cabo Polônio, a 62 km da Punta del Diablo. O lugar é uma reserva ecológica e só pode ser acessada por caminhões que levam os turistas, chamados de jardineiras. As bikes precisam ficar presas no estacionamento da administração do parque, no km 264 da Ruta 10. Cabo Polônio é a legítima praia hippie do Uruguai. Não há luz elétrica, o banho é frio e as cabanas são bastante simples. Acampar é proibido, por isso reserve sua hospedagem com antecedência.

 

Seguindo mais 50 km está La Paloma, balneário com praias para diversos estilos.

O farol centenário é um dos pontos turísticos mais visitados da cidade. É possível subir para apreciar uma das melhores vistas da região. É também ali, nas imediações do porto, que estão as melhores opções de gastronomia de La Paloma.

 

Para quem quer fugir da muvuca, vale trocar a agitada La Balconada pelas praias de Arachania ou Corumba, a preferida dos surfistas. O trecho mais longo da viagem é o que liga La Paloma a Punta del Este, 104 km, devido ao contorno da Laguna de Rocha. Para os menos treinados, vale descansar uma noite no meio do caminho, em José Ignácio ou Santa Mônica.

Quem seguir direto chega à badaladíssima Punta del Este. Em alta temporada esteja preparado para multidões de turistas e preços mais altos. Não deixe de visitar a Casa Pueblo, construída pelo arquiteto uruguaio Carlos Paéz Vilaró, uma das principais atrações do balenário, em Punta Ballena.

 

Dali se parte até Piriápolis, uma cidadezinha costeira com atracadouro de iates e algumas praias de banho. A principal atração é o Cerro Santo Antônio, que pode ser conquistado de teleférico. A próxima parada pode ser uma perna longa até Montevidéu, a 100 km, ou acrescentar uma parada em Atlântida, que não tem grandes atrações, mas é um bom descanso a 45 km de Montevidéu.

 

Na capital de inúmeras opções culturais e gastronômicas, não deixe de pedalar a Rambla, uma larga calçada que margeia toda a costa do Rio da Prata.

 

Dicas para pedalar pelo Uruguai

 

A alta temporada, no verão, encarece as hospedagens e lota as cidades de turistas. Mais ao sul do mundo, no verão costuma anoitecer às 21h no Uruguai, o que dá mais algumas horas aproveitáveis de pedal com luz do dia.

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27/MAR/2019

Costa dos Coqueiros: um roteiro de bike pelo norte da Bahia

 

Muita areia,estrada, calor e céu azul no rolê de bike pelo litoral norte baiano

Chamada de Costa dos Coqueiros pelos mais de 200 quilômetros de uma rota de coqueiros que se estende paralela ao mar, a região foi escolhida a dedo para trilharmos de bike. Águas cristalinas do mar, dos rios e das cachoeiras, flora e fauna riquíssimas, gastronomia e artesanatos peculiares são os presentes que o local te traz pelo caminho.

 

A ideia é sair da Praia do Forte e chegar a Mangue Seco, mas você pode fazer apenas um trecho do caminho, se preferir. Parte do trajeto é feita pela Linha Verde, a rodovia que liga Salvador à divisa de Sergipe, mas a rota passa pela praia e estradinhas de terra. Fique esperto nos horários das altas de maré, e boa viagem.

1º dia – Praia do Forte a Porto do Sauípe (45 km de pedal)

Na hora de partir para a trilha, pegue a Linha Verde, sentido Porto do Sauípe. O trajeto é tranquilo, todo pelo asfalto, com acostamento em excelente estado e pouco tráfego de veículos. Uma referência do caminho é o trevo no quilômetro 10, de onde seguimos para conhecer Imbassaí. Ela é uma praia cheia de dunas, onde o rio de mesmo nome encontra-se com o mar. Voltamos para a Linha Verde, com subidas e descidas suaves se alternando. Finalizamos o primeiro dia em Porto do Sauípe.

 

2º dia – Porto do Sauípe a Subaúma (35 km de pedal)

 

Comece pela Linha Verde. Após 10 quilômetros de pedal, informe-se numa pastelaria sobre a estradinha de terra (8 km) que vai a Massaradupió. O caminho é gostoso, entre dunas cristalinas e uma vegetação selvagem. Parte da praia desse vilarejo é reservado ao naturismo (800m) e o resto (1.200 m), para quem quer curtir a praia com roupa. Na maré baixa, pedala-se de lá, pela praia até Subaúma. Se a maré subir, opte pela Linha Verde.

 

3º dia – Subaúma a Baixio (18 km de pedal)

A partir de Subaúma, todo o trajeto é feito à beira-mar. De lá atravessamos um rio, perto do mar, para pedalar na praia, com um vento agradável, mas contra. Praticamente durante todo o ano o vento na região é nordeste. Quando o vento é sul, ou “a favor”, é sinal de tempo ruim. Chegamos pela praia a Baixio, um pequeno e tranqüilo povoado do município de Esplanada, parte integrante da área de proteção ambiental do litoral Norte da Bahia.

 

O mar é aberto e excelente para o surf. Uma das pessoas mais conhecidas é o Nino, ele é um dos capitães de areia da ONG Global Garbage. Seu trabalho é recolher o lixo internacional que vem do mar e devolver para o país de origem. No fim da tarde, quando o sol estiver mais fraco, vale dar um role de bike até a Lagoa Azul, um dos lugares mais bonitos da região.

 

4º dia – Baixio a Sítio do Conde (32 km de pedal)

 

O primeiro trecho do dia segue pela praia até a foz do Rio Itariri, na margem desabitada. Um belo manguezal acompanha o rio até a foz. Com ajuda dos locais, atravessamos o rio pelo melhor local para chegar à simpática vila. Aproveite para dar um tempo na praia de águas rasas e tranquilas e tomar banhos de água doce e salgada de frente para as “Dunas de Tieta” (algumas cenas do filme “Tieta” foram rodadas ali). De lá, a 16 km de dunas fica o Sítio do Conde. Para não ter que seguir pela estrada de terra e areia paralela à praia, tente chegar nesta parte na hora da maré baixa. Antigo vilarejo de pescadores, com praias belíssimas, dunas, coqueirais, lagoas, cachoeiras e manguezais, o Sítio do Conde é um verdadeiro oásis.

 

5º dia – Sítio do Conde – Poças – Siribinha – Mangue Seco (55 km de pedal)

 

O último dia de pedal é o mais longo e uma guerra contra o relógio, já que quase todo percurso tem que ser pela praia, com pouco mais de 4 horas de maré baixa. O primeiro trecho segue por uma bela estrada de terra ao lado da praia, entre dunas e coqueirais. Em pouco mais de 6 km chega-se a Poças, outro pequeno vilarejo, que ganhou esse nome por conta das inúmeras piscinas que se formam em sua praia. A partir dali siga 7 km pela extensa e calma praia até Siribinha, um simpático vilarejo de apenas uma rua de areia com uma capelinha (Bom Jesus dos Navegantes), que dá um ar bucólico à paisagem. Atrás da vila passa o rio Itapicuru, que faz divisa entre as dunas brancas e o manguezal, e que deve ser atravessado de barco. Do outro lado, mais 40 km de pedal pela praia.

 

Depois dos primeiros 14 quilômetros, chega-se ao povoado de Costa Azul, bom local para uma pausa. De lá, chega-se enfim a Mangue Seco, na divisa com Sergipe, de frente ao Rio Real. São dunas douradas que chegam a 20 metros de altura, coqueirais, rios e quilômetros de praias desertas. Para chegar de bicicleta ao vilarejo e finalizar a rota, há um desafio final: pedalar 2 km em meio às dunas e ao mangue seco. Para terminar o dia, assista ao pôr do sol no rio Real.

 

Dicas importantes para encarar de bike a Costa dos Coqueiros

• Para pedalar na praia é importante seguir a Tábua de Marés para saber onde e quando rola maré baixa.

 

• Na praia ou areia fofa o pneu ideal é o semi-slick. Se por acaso estiver derrapando muito, esvazie um pouco os pneus.

 

• O protetor solar é obrigatório nessa rota.

 

• A temperatura média anual é de 25 a 27 graus, portanto é possível fazer esta pedalada durante todo o ano.

 

• Durante todo o trajeto há opções de hospedagens e restaurantes.

 

• Fique atento: Na maioria dos vilarejos é necessário atravessar rios. Combine antes o valor da travessia.

 

• Para sair de Mangue Seco tome um barco até o povoado de Pontal, do outro lado do Rio Real. A maioria dos turistas deixa o carro ali. Para Aracaju ou Salvador é necessário seguir 12 quilômetros por uma estradinha de terra em boas condições. Pelo asfalto da Linha Verde, Aracaju fica a 109 km (82 deles pela Br 101) e Salvador a 223 km.

 

A Sampa Bikers realiza esta viagem anualmente na última semana de Novembro. Informações no site 

 

(Reportagem publicada originalmente na Go Outside de fevereiro de 2007 e atualizada em março de 2019)

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Por Paulo de Tarso

Onde é mais seguro pedalar, em Paris ou no Tajiquistão

 

Como alguns devem saber, desde abril de 2016 estou dando a volta ao mundo com a Dulcinéia, minha adorável bicicleta de bambu. Já cruzamos a África de ponta a ponta, estamos terminando a Europa e partindo para a Ásia. Como na rota está o Tajiquistão, recebi centenas de mensagens de preocupação e pêsames sobre o recente atentado na região, com algumas desinformações. Decidi fazer algumas averiguações com autoridades, ciclistas e nativos, para dar alguns esclarecimentos e também fazer um desabafo. Vamos ao que é tido como fato até o momento. No dia 29 de julho, cinco terroristas atropelaram deliberadamente um grupo de sete ciclistas, depois os atacaram usando facas. Morreram dois americanos, um suíço e um holandês, os outros três escaparam com vida. O atentado aconteceu na cidade de Danghara, fronteira com o Afeganistão.

O Daesh – ou o auto-intitulado “Estado Islâmico”, reivindicou o ataque, mas meio que o grupo é notoriamente conhecido também por reivindicar qualquer ataque pelo mundo, portanto não há nada confirmado. Por outro lado, o governo Tajiq responsabiliza pelo ataque o partido banido no país, a Renascença Islâmica, o que é visto como uma forma de ao mesmo tempo espantar o medo da presença do Daesh no país e de quebra enfraquecer o partido adversário. O fato é que esse foi o primeiro ataque registrado a turistas do ocidente no país.

 

Vale muito pegar as análises do Paul Stronski para o Washington Post, ele é especialista em Eurásia e Rússia. Ele e outros afirmam que os países dessa região possuem um patrulhamento forte e ostensivo feito pelo exército e pela polícia, por isso a região da Ásia Central – parte da ex-União Soviética -  é considerada extremamente segura quanto a iminência de ataques terroristas de larga escala. De fato, o governo dos Estados Unidos sempre teve o Tajiquistão em segurança “Nível 1 - Precauções de rotina”, e após o ataque as recomendações de segurança subiram para “Nível 2”. No norte do Afeganistão, com o qual o Tajiquistão faz fronteira e perto de onde aconteceu o ataque, a recomendação é de “Nível 4 – Não viajar”. Após o ocorrido, tanto os especialistas da região quanto os próprios governos envolvidos não retiraram a recomendação de visita ao país.

Claro, ninguém precisa ser um especialista em Tajiquistão, eu mesmo pesquisei mais profundamente somente por estar por visitar a região, mas destaco que existe um tipo de ignorância positiva e outra negativa. Há os que não sabem de algo e perguntam, se informam, pesquisam, ou os que simplesmente pegam uma manchete e concluem com contundência e certeza sobre algo, muitas vezes sem sequer ler a matéria completa. Por matemática básica, até então não sabíamos nada do Tajiquistão, depois recebemos uma notícia ruim, portanto a única notícia ruim representa 100% do que sabemos do país. Porém, 100% do que sabemos pode significar simplesmente que não sabemos o suficiente, por isso checamos, perguntamos. Poucos me perguntaram o que estava acontecendo, se eu estava preocupado, me vi rodeado de especialistas que há até dois dias sequer sabiam soletrar o nome do país.

 

Existe uma tendência natural de temer o que desconhecemos, ou valorizar o que temos como zona de conforto. Para ilustrar, posso citar apenas de memória lugares por onde pedalei e jamais recebi recomendações de cautela. Houve em maio o ataque no Distrito Ópera em Paris e em Liége na Bélgica, além de um ataque via atropelamento em Toronto que matou dois e deixou mais de uma dezena de feridos, uma semana antes do ocorrido no Tajiquistão.  Visitei Londres pouco depois do atentado na London Bridge, e Paris após o atentado de Notre-Dame. O atentado de Nova Iorque em outubro foi até bastante semelhante, com o uso de um caminhão que vitimou mais de duas dúzias de pessoas. 

 

Ninguém, repito, ninguém jamais me escreveu pra dizer “Nossa, cuidado com Paris, hein!”, “Hum, pedalar logo em Manhattan…”. Isso de forma alguma quer dizer que todos esses locais são inseguros, senão que os atentados são vistos como uma exceção em meio a um ambiente seguro. Minha pergunta é: por que somente no Tajiquistão, que simplesmente não tem o registro anterior de ataques a turistas, a exceção virou verdade?

 

Das notícias direto do front, de quem está comendo poeira de estrada pedalando e dentre os quais me incluo, existe uma recorrência absoluta: a raça humana é espetacular, o mundo também, mais viajamos e mais nos damos conta disso. Viajo para aprender e passar a mensagem adiante, com base no que vejo com os meus olhos, sem jamais deixar de pesquisar e obter diferentes pontos de vista.

 

Algo semelhante aconteceu enquanto eu cruzava a África. “África é perigoso e tá em guerra…”. África onde, cara pálida? Como se a África fosse um país. Sim, de fato há por lá zonas de guerra em que é bom evitar, algumas com guerras históricas. Meu ponto é que essa narrativa de usar exceção como regra pode ser usada em qualquer região do globo. Somente agora, há uma guerra no Leste da Ucrânia, sem falar da região da Crimeia.  Pra pegar apenas as últimas décadas, temos a crise de mísseis do Chipre, as guerras no norte do Cáucaso, de independência da Croácia, Chechênia, Kosovo, Geórgia. Lembrem-se de que estamos falando de uma Alemanha que existe tal qual a conhecemos somente a partir de 89, o mesmo com a República Tcheca e tantos outros. O que chamamos de Guerra Mundial foi muito mais uma guerra na Europa. África e Brasil estavam muito bem, obrigado. 

 

Nunca, repito, nunca recebi recomendações de cuidado ao cruzar a Europa, mesmo que os conflitos que citei sejam apenas os que tenho na memória imediata. Por alguma razão, existe o discernimento de pensar que não são todas as regiões da Europa que podem oferecer risco, ou que algumas coisas aconteceram há muito tempo e não existem mais. Quer a notícia boa? O mesmo acontece com a África, com o Tajiquistão. O mesmo vale para todo o mundo.

 

Claro, jamais vou sair por aí sem saber onde piso, pois disso depende a minha vida e graças a isso estou aqui escrevendo essas linhas. O que digo com isso é que fazer da exceção uma regra dá margem para uma série de distorções perigosas. 

 

Outra boa notícia? O mundo é, por via de regra, extremamente seguro, vos escreve quem por ele viaja desde 2007. Se existe um risco? Existe sim, mas não me atreveria a arriscar mais de 1% nisso. Se eu pensar nos riscos de menos de 1% antes de fazer algo, sequer pego o elevador.

 


Ricardo Martins é carioca, 33 anos, formado em Marketing, com especialização em Coaching e nova graduação em Ciências Sociais, com ênfase em políticas de mobilidade urbana.
 

Desde abril de 2016 está dando a volta ao mundo com sua bicicleta de bambu, através do projeto Roda Mundo. Já cruzou a África de ponta a ponta, finalizou a Europa e seguiu para a Ásia. Antes disso, viajou durante 4 anos de bicicleta pela América do Sul, com R$ 385 iniciais. O projeto atual conta com um documentário no YouTube, fotos e artigos.
 

No projeto Roda Mundo, já foi palestrante para a ONU na COP-23, maior evento de sustentabilidade do mundo. Também foi speaker encerramento no TEDx - Alemanha, além de recentemente haver apresentado seus estudos no Velo-City, maior evento de mobilidade por bicicleta do mundo. 
www.roda-mundo.com
canalrodamundo@gmail.com - Foto © Arquivo Pessoal

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Por Ricardo Martins / roda-mundo.com

16/MAR/2019

Desafio de iniciante Londres a Barcelona

 

Eu já pedalava todo santo dia havia quatro anos. Usava a bike para ir trabalhar, beber com os amigos, fazer compras e todo o resto. Por isso, achei que já era hora de expandir meus horizontes e encarar a minha primeira cicloviagem.

A oportunidade bateu à minha porta quando uma amiga dos tempos em que eu morava em Barcelona me convidou para o seu casamento. E por que não chegar lá pedalando? Mesmo inexperiente nas estradas, decidi encarar o desafio.

 

“Já era hora de expandir meus horizontes e encarar a minha primeira cicloviagem.”

 

Foi uma loucura. Quando comprei a passagem de avião, faltavam os alforjes, a barraca, a rota e noções de mecânica (eu mal sabia trocar um pneu). Eu só tinha a bicicleta. Foram meses de planejamento cheios de angústia, correria, ansiedade e noites mal dormidas para providenciar tudo a tempo. 

 

No final, fechei o roteiro em duas etapas. Na primeira, pegaria a Avenue Verte, uma famosa rota cicloviária que liga Londres a Paris. Depois, desceria de Toulouse até Barcelona.

 

Em agosto de 2017, parti para a minha aventura.

 

Parte 1

Inglaterra

As primeiras pedaladas começaram num chuvoso e frio 19 de agosto, diante da Abadia de Westminster, coração da capital inglesa. Pedalando apenas por ciclovias e ciclo rotas que compõem o Avenue Verte, vi de perto vários cartões postais da cidade, como o Big Ben, o Parlamento, o rio Tâmisa e a usina nuclear Battersea, capa do álbum Animals, do Pink Floyd, minha banda favorita.

 

Usando meu celular como navegador, cheguei apenas no fim da tarde à Redhill, 40 km do ponto de partida. Lá fiquei na casa da simpática sul-africana Ailsa, que conheci pelo site WarmShowers, uma comunidade de pessoas que hospedam cicloviajantes sem cobrar um centavo: pelo mais puro altruísmo.

 

Nos dois dias seguintes me deparei com muitas subidas e descidas e paisagens de tirar o fôlego. Passei por florestas onde não havia sinal de celular (logo, sem orientação para o meu GPS) nem supermercados para saciar a fome. Pedalei por longas estradas rurais em que via a todo momento ovelhas pastando em imensos campos amarelados pelo frio, imagens dignas de uma pintura. Vilarejos históricos, como o de East Grinstead e algumas igrejas medievais eram paradas obrigatórias para “turistar” ou para encher as minhas garrafas de água.

 

No final da tarde do terceiro dia cheguei ao litoral, mais especificamente em Newhaven, onde pegaria a balsa até Dieppe, na França. Seguindo meus instintos, decidi passar a noite num camping e só atravessar o Canal da Mancha no final do dia seguinte. Que bela decisão!

 

Acordei debaixo de um céu azul e um calor de mais de 20 graus, uma coisa inédita até então na viagem (sim, o clima inglês é tão ruim quanto dizem). Tempo perfeito para ver de perto, com toda a sua exuberância, um dos lugares mais bonitos que já conheci: as Seven Sisters, uma formação rochosa de falésias de calcário. Eram enormes penhascos brancos como giz que contrastavam com o mar verde azulado lá embaixo. Um espetáculo.

 

Parte 2

Norte da França

 

Foi só atravessar o Canal da Mancha que tudo mudou. Na França, me deparei com mudanças de fuso-horário, clima, arquitetura, cultura e, claro, idioma. Eu não sabia, mas estava começando a etapa mais marcante de toda a viagem.

 

“Em poucos quilômetros, eu já estava encantado com a paisagem.“

 

Meu desembarque na Normandia, norte da França, aconteceu na fria madrugada do dia 23 de agosto. Improvisei um café da manhã no chão da estação de trem, único abrigo que encontrei para o vento forte que cortava a madrugada, esperei o dia clarear e segui viagem.

 

Em poucos quilômetros, eu já estava encantado com a paisagem. Eram vastas planícies verdes, cobertas por plantações e criações de gado. Vacas e vilarejos com suas igrejas medievais foram surgindo por toda a ciclovia plana, asfaltada e reta que marca o trecho normando do Avenue Verte. Me sentindo seguro, e com a temperatura subindo ao longo do dia, tirei camiseta, luvas e até o capacete e fui pedalando tranquilo, tentando curtir cada segundo.

 

O mais difícil era achar alguém que falasse qualquer coisa em inglês. Por isso, tive que apelar para a boa educação e a simpatia para me comunicar, principalmente quando eu tinha que pedir que enchessem as minhas garrafas de água ou que me dessem orientações de caminho. A frase decorada previamente “Bonjour! Je ne parle pas français”, acompanhada por um grande sorriso, era a porta de entrada para todas as necessidades. E deu certo. Várias vezes me deram água gelada para me refrescar no calor de quase 30 graus. Isso sem contar o esforço enorme de praticamente todas as pessoas para me ensinar caminhos por meio de poucas palavras e muitos gestos.

 

Cheguei em Paris depois de seis dias na França. Chorando, finalmente diante da catedral de Notre-Dame, fiz uma celebração bem discreta e silenciosa do fim da primeira parte da viagem. Afinal de contas, eu sabia que ainda tinha muito chão até Barcelona, então era hora de recuperar as energias para recolocar o pedal na estrada.

 

Parte 3

Sudoeste da França

Depois de passar um dia inteiro derretendo no calor seco que fazia na capital francesa, peguei um trem até Toulouse, de onde começaria a segunda etapa da viagem até Barcelona (eu não tinha tempo para percorrer esses mais de 700 km de bike: o casamento da minha amiga não esperaria). Paguei uma taxa de 10 euros para embarcar a magrela, que foi muito bem acomodada num espaço logo ao lado da minha cabine.

 

Cheguei em Toulouse na manhã de 30 de agosto com um pouco de frio e chuva fina. Como depois descobri, a cidade, assim como todo o sudoeste francês, é totalmente diferente do que havia visto até então naquele país.

A atmosfera mediterrânea, seja pelo clima mais abafado ou pelos edifícios de até três andares com suas sacadas discretas frente às ruas, me faziam sentir mais na Espanha do que na França.

 

Porém, o frio e o tempo chuvoso me fizeram desistir dos meus planos de fazer turismo na cidade e tratei de cair na estrada. Agora era hora de dar adeus às placas do Avenue Verte e seguir a rota traçada ainda no Brasil. Eu iria margear o Canal du Midi, um canal artificial inaugurado em 1681 para transporte de mercadorias.

 

No trajeto, me deparei com barcos com bandeiras de vários países passando ao meu lado, em geral tripulados por pessoas de meia idade, aparentemente curtindo as férias. Do caminho, também via plantações de girassóis e, mais adiante, inúmeros vinhedos, paisagens que faziam a viagem mais do que agradável enquanto, na ciclovia, eu cruzava com vários bicigrinos que seguiam o caminho dos Pirineus até Santiago de Compostela.

 

Depois de vários quilômetros, o solo de terra batida foi ficando cada vez mais irregular, fazendo com que a magrela, com pneus super calibrados e garfo rígido, pulasse intensamente. A coisa toda degringolou no segundo dia, quando eu não conseguia pedalar a mais de 12 km/h e via cada vez mais longe o alcance da meta de chegar a Barcelona pelas minhas próprias pernas (só me restavam sete dias).

 

Cheguei finalmente à linda Carcassonne e sua gigantesca e encantadora cidadela medieval depois de murchar os pneus e ver meu rendimento melhorar. Mas os trancos e barrancos já tinham me irritado demais. Por isso, abandonei a minha rota original e joguei a sorte para o Google Maps, que traçou um caminho me colocando em estradas movimentadas. Apesar dos carros voando a 90 km/h à minha esquerda, o resultado foi ótimo. Num asfalto liso como um tapete, atingi quase 30 km/h em vários trechos, mesmo com os quase 20 kg de roupas, comida, itens de camping e de sobrevivência.

 

“Uma viagem que com certeza marcou um ponto de virada na minha vida.”

 

Ao chegar em Narbonne, outra bela cidade histórica, dei início à parte litorânea da viagem. Foram três dias de pedal derretendo de calor pela costa mediterrânea. Ao final de cada dia, eu era recompensado com um belo e merecido banho de mar ou de piscina (sim, boa parte dos campings locais tem piscinas). Tirando o vento contrário, que quase me derrubou da bike algumas vezes, segui num ritmo tranquilo sentido sul, em direção à Espanha. Mal sabia eu que a moleza logo acabaria com a chegada dos temidos Pirineus, a cadeia de montanhas que divide a França e o país vizinho.

 

As subidas começaram logo depois da simpática, colorida e hiper turística cidadezinha costeira de Banyuls-sur-Mer. Fui em ritmo de tartaruga até chegar em Cerberè, o último município francês antes da fronteira. Eu não sabia que, vencida a primeira pirambeira, ainda teria que superar outras três até finalmente poder esticar as pernas em um camping catalão. E assim foi. Depois de um total de mais de 800 metros de subidas acumuladas, finalmente cheguei à Llançá, já na Catalunha. As minhas pernas nunca mais seriam as mesmas na viagem.

 

Parte 4

Espanha

Na Espanha, com exceção de um pequeno trecho, quase toda a viagem foi feita por estradas. Eu já tinha perdido o medo e minha pressa de visitar meus amigos em Barcelona acabou falando mais alto que a prudência. Felizmente, deu tudo certo.

 

Assim como ocorreu nos outros países, os motoristas me respeitaram o tempo todo. Mesmo quando eu estava no acostamento, sempre deixavam uma faixa livre entre eles e a minha bike na hora de fazer as ultrapassagens.

 

Mais uma vez, as paisagens eram lindas. O mar reluzente na costa ou os intermináveis vinhedos mais para dentro do país foram meus companheiros nesses últimos três dias de aventura.

 

No camping da cidade de Canet del Mar, o recepcionista foi claro: “agora só faltam 60 km para Barcelona”. Dormi como um bebê depois da que eu sabia ser a última cerveja do meu período de estrada. Na NII, rodovia nacional espanhola, voei baixo na reta final. Mantendo o mar sempre à minha esquerda, atingi uma média de quase 19 km/h, num último esforço das minhas pernas já acabadas.

 

Aos poucos a paisagem foi se tornando familiar. Praias que por muito tempo fizeram parte do meu dia a dia agora me traziam vários flashbacks. Fui vendo a aglomeração urbana ganhar força à medida que me aproximava da capital catalã até que, por volta das 13h do dia 06 de setembro, cheguei finalmente à Sagrada Família, o ponto final dessa aventura particular.

 

Dessa vez não chorei. Com um sorriso de orelha a orelha, liguei para os meus pais e para meus amigos no Brasil. Eu queria compartilhar a alegria por ter concluído aquela loucura de 1.375 km rodados em 18 dias. Uma viagem que com certeza marcou um ponto de virada na minha vida. 

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Por Flávio Dagli

08/mar/2019

São João Del-Rei a Paraty

1° dia 

São João del-Rei - Carrancas 76 km

Foram dias de superação numa cicloviagem solitária pela estrada real que nos proporcionaram ânimo renovado pra encarar novos desafios. Sete dias de pedalada, 443 km percorridos, num visual das montanhas que só Minas proporciona. 

 

Após 12 horas de ônibus, saindo de Campinas em 25 de abril, cheguei em São João por volta das 8 horas da manhã. Montei a bicicleta na rodoviária mesmo, arrumei as coisas, tomei um café na rodoviária mesmo e parti em direção ao meu primeiro destino, Carrancas. Como acabei saindo um pouco mais tarde do que o planejado, acabei seguindo direto para o povoado de Rio das Mortes por rodovia mesmo. De lá, entrando no povoado, segui os marcos da estrada real até a cidade de São Sebastião da Vitória. O trajeto foi muito técnico, com muito single track, fortes subidas, mas de muita beleza. De São Sebastião até a represa de Camargos, seguindo sempre os marcos, a estrada é boa e o pedal rende bem. Existem longas subidas, mas para ser em Minas, até que são "normais". Chegando na represa, a balsa não estava funcionando, e a travessia teve que ser feita por um barco, que deve ser chamado aos "berros" do outro lado da represa. Depois, segui para a parte final do dia até Carrancas, com uma grande serra pela frente. Uma longa subida, com muito cascalho, difícil de pedalar em alguns trechos. Mas a vista lá de cima, com o pôr do sol, recompensou todo o esforço do dia. De lá de cima até Carrancas foi só descida! Finalizei o dia na igreja matriz e me hospedei na pousada Senna, bem simples, mas o suficiente para uma boa noite de descanso!

 

2° dia

Carrancas / Cruzília - 66km

Partindo da Matriz de Carrancas, segui o Guia do Antonio Olinto, deixando os marcos da estrada real de lado. Como queria passar na cachoeira Esmeralda, tive que fazer um desvio de aproximadamente 7km, que foi recompensado com um lindo poço de água cristalina, na cor esmeralda. Não se paga nada para a visitação; a contribuição é por conta da pessoa. Há bar para apoio, um dos poucos no caminho. A estrada é boa, passa por várias fazendas, inclusive a Traituba, que é no meio do caminho. Subidas e descidas se alternam, mas o pedal rende. Em um dia sem intercorrências, logo chegamos na matriz de Cruzília, e nos hospedamos no Hotel Central, bem em frente à igreja. Neste dia, meu amigo Fabricio já me esperava para fazer o restante da viagem comigo.

 

3° dia

Cruzília / São Lourenço - 65 km

Partimos da igreja matriz para Baependi, primeira cidade do caminho. O trajeto é tranquilo e neste trecho tivemos a primeira grande descida, por um caminho bem técnico. Começamos a avistar a Serra da Mantiqueira, nosso próximo obstáculo mais adiante. Após Baependi, você precisa ficar atento aos marcos da ER, e numa dessas desatenções, passamos reto pela entrada de Caxambú e só fomos perceber 6km depois. Felizmente, era um trecho bem plano, de asfalto, e retornamos sem maiores problemas. Paramos para almoçar em Caxambú, no restaurante do alto do teleférico, onde se tem uma vista sensacional de toda a região. Partimos para São Lourenço, em um trecho tranquilo. Nos hospedamos na pousada Al Chaddai.

 

4° dia

São Lourenço / Passa Quatro - 56km

Nosso primeiro destino do dia era Pouso Alto. O trecho tinha algumas subidas, entre as montanhas da serra. De Pouso Alto, decidimos seguir novamente o guia do Olinto, que nos direcionou direto para a cidade de Itanhandu, passando por São Sebastião do Rio Verde. Este trajeto encurta em torno de 15 km o percurso total. Trecho sem grande elevação, mas sem sombras pelo caminho, o que nos castigou um pouco, mas sem maiores problemas. Paramos para o almoço em Itanhandu e com mais 15km chegamos em Passa Quatro, em um trajeto bem plano e tranquilo. Nos hospedamos na pousada Caminho dos Ventos, já no bairro de Pinheirinho, início da subida final para o próximo dia, que seria a Garganta do Embaú.

 

5° dia

Passa Quatro / Guaratinguetá - 70km

Saímos de Passa Quatro já no início da rodovia que sobe para a Serra. Logo no início, entramos em uma estrada de terra que cruza a linha do trem. Neste ponto encontramos um grupo de 34 pessoas, da cidade de Guarani-MG, que estavam indo até a cidade de Aparecida. Decidimos seguir o grupo pela linha do trem até o túnel que separa Minas Gerais e São Paulo. Após atravessar o túnel, que tem cerca de 1 km de extensão, descemos a serra por um single track sensacional, por aproximadamente 7km, até encontrar a rodovia novamente. Pegamos então a rodovia sentido Cruzeiro, e mais uma vez por distração, passamos da entrada da ER. Quando percebemos, já estávamos em Cruzeiro. Decidimos então tocar em frente, pela rodovia, até a Vila do Embaú, onde cruzaríamos novamente com a ER. Seguimos por uma trilha curta, muito esburacada, até sair na rodovia para a cidade de Cachoeira Paulista. E mais uma vez, passamos do ponto de entrada da ER. Quando vimos, já estávamos atravessando o Rio Paraíba do Sul. Para nossa felicidade, existe uma ciclovia que liga Cachoeira Paulista até a cidade de Guaratinguetá, toda plana, passando pelo centro da cidade de Lorena. Tocamos então em frente, num ritmo bom e logo chegamos na matriz de Guaratinguetá. Nosso hotel, Kafé Hotel, ficava bem em frente. 

6° dia

Guaratinguetá / Cunha - 53km

Partimos para Cunha, pela rodovia que liga as duas cidades. Os primeiros 20 km são praticamente subida o tempo todo. Lá do alto da Serra do Quebra Cangalha, se tem uma vista espetacular de todo o vale do Paraíba, e mais ao fundo, da imponente serra da Mantiqueira, a qual atravessamos no dia anterior. O trecho alterna estrada de terra com a rodovia com acostamento, seguro para pedalar. Quase chegando em Cunha, retornamos para a estrada de terra com algumas fortes subidas novamente, e, chegando na cidade, uma insana descida. Finalizamos o pedal do dia na pousada Vila Rica.

7° dia

Cunha / Paraty - 60km

Após 6 dias de sol intenso, acordamos sob forte neblina. O dia alternava sol e nuvens e até um pouco de chuva. Partimos de Cunha rumo ao nosso destino final, Paraty. Talvez esse, junto com o primeiro dia, foi o mais difícil de todos. Foram 35km de subida, por estradas de terra e rodovia, com uma altimetria acumulada de 1.300 metros. Mas o visual e as cachoeiras que passamos pelo trajeto compensaram todo o esforço que realizamos. Após os 35km, bem na divisa de São Paulo com Rio de Janeiro, iniciamos talvez a descida mais doida que já fiz na vida. Descemos de uma altitude de mais de 1.500 metros, ao nível do mar em 20km. A estrada é de lajota, em perfeito estado. Não se pedala neste trecho, só se usa o freio. Até chegar aos arredores de Paraty, onde o trecho se torna plano, até chegar no nosso destino final. Passamos pela igreja do cais e, após algumas fotos, fomos "bebemorar" nossa cicloviagem na praia do Pontal, a mais próxima do centro de Paraty.

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Por Claudio Barufaldi

03/MAR/2019

Cicloturismo nas estradas mais altas do mundo

 

Viagem de bicicleta por Ladakh, o pequeno Tibete, nos himalaias indianos, região das estradas mais altas do mundo.

 

Ladakh é conhecida como a “Terra dos Passos”. O sufixo “La” significa exatamente a palavra “passo”, ou seja, o ponto mais alto de uma estrada, onde paramos de subir para descer do outro lado da montanha.

 

Por muitos anos o Khardung La foi considerado a passagem de montanha mais alta do mundo possível de se percorrer em veículo automotor, ou seja, uma estrada comum, com trânsito de pessoas e veículos. Com a evolução dos sistemas e instrumentos de medição, essa posição tem sido reclamada por outras estradas da região. O fato é que o lugar se tornou um roteiro tradicional para os aventureiros, que no verão se amontoam no topo do passo para fazer um selfie junto à placa com a anotação de 18.379 pés de altitude (5.602 metros).

 

Em nossa viagem por Ladakh, mais que grandes feitos, buscávamos a experiência de pedalar e permanecer entre as montanhas do Himalaia, conhecer suas paisagens, sua gente e sua cultura, ligada diretamente ao budismo tibetano.

 

Pedalar pelas estradas mais altas do mundo nos trouxe o agradável sentimento de fazer parte da imensidão da natureza, enfrentando desafios que passaram das montanhas para dentro de nós mesmos.

 

Através das imagens das estradas mais altas do mundo, queremos compartilhar um pouco da experiência única que é entregar-se ao espírito das montanhas do himalaia…


Rothang La

Subindo a partir de Manali, o Rothang La foi o primeiro passo de nossa viagem. Chegamos ao alto com muita neblina, pois, a 3.978 m de altitude, é ele que segura a umidade das monções.


Baralacha La

O segundo passo, Baralacha La, está a 4.890 m de altitude. A partir dele nos sentimos mergulhados nas montanhas do Himalaia indiano.


Gata Loops

Gata Loops não é um passo, mas sim uma sequência de 21 curvas para vencer a grande montanha e chegar ao Nakee La, a 4.739 m de altitude.


Lachulung La

A partir do Nakee La descemos um pouco e novamente voltamos a subir para passar o Lachulung La, a 5.064 m de altitude.


Taglang La

O Taglang La foi nosso primeiro passo bem acima dos 5.000 m (5.328 m). Lembre-se que, nesta altitude, poucos metros passam a fazer grande diferença. Não foi o mais alto, mas foi o mais difícil, pois o clima mudou durante a subida, sentimos muito frio e nossas forças quase se esgotaram… este é o último passo da estrada entre Manali e Leh (clique aqui para ver o mapa com nosso trajeto).


Khardung La

 

Depois de alguns dias de descanso em Leh, estávamos preparados para enfrentar os mais de 2.000 m de desnível para alcançar os 5.359 m de altitude do Khardung La, num lindo dia de sol. A partir dali, descemos em direção ao Vale Nubra, do outro lado das montanhas.


Wari La

 

Após uma volta pelo Vale Nubra retornamos para Leh pelo Wari La (5.310 m). De tão pouco frequentado, esse passo não tem nem placa marcando a altitude. Por outro lado, isso nos permitiu acampar em seu sopé, acompanhados somente pelas marmotas e iaques.


Chang La

 

O Chang La, com praticamente a mesma altitude que o Khardung La (5.360 m), foi nosso último passo de montanha na região ao redor de Leh.


Fotu La

 

A partir de Leh seguimos em direção a Kargil, passando pelo Fotu La (4.108 m) e pelo Namika La (3.718 m).


Namika La


Penzi La

 

A partir de Kargil fizemos uma volta e chegamos a Padum, uma região do Himalaia muito apreciada para trekking. No caminho passamos pelo Penzi La, a 4.400 m de altitude, que praticamente separa a área muçulmana (mais perto do Paquistão) da área budista de Ladakh.


Shingo La

 

Para que nossa volta ao redor de Ladakh desse certo, tivemos que continuar por um trekking de 80 km, passando pelo Shingo La, com 5091m.


Kunzum La

 

Finalmente, já terminando a viagem, adentramos o Vale Spiti pelo Kunzum La, a 4.551 m de altitude.

 

A experiência vivida em cada passo nos preparou para o próximo, os desafios físicos nos fizeram buscar a conexão plena entre o corpo e a mente, a matéria e o espírito.

 

E como nos prometeu a placa, lá no começo da viagem, através das duras e espetaculares estradas de Ladakh pudemos alcançar lugares mais elevados dentro de nosso próprio ser

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Por Cicloturismo no Brasil Projeto De Antonio Olinto E Rafaela Asprino

28/FEV/2019

MTB em Malta

 

Mais do que eu posso te dizer

Imagine um lugar cercado por águas azul-turquesa, com um clima idílico durante todo o ano e onde você ainda pode ouvir histórias de heróis gregos.

 

Sem dúvida um autêntico paraíso terrestre onde descansar. Ou talvez o contrário: para praticar o seu esporte favorito. Seu clima é ideal durante todo o ano, talvez para o nosso esporte os meses de verão são um pouco quentes, mas no resto do ano é ótimo para praticar atividades ao ar livre. Além disso, se você gosta de unir o pedal com boa cozinha mediterrânea, lugares históricos e um ambiente acolhedor, Malta é o seu destino.

 

A República de Malta é um país insular membro da União Europeia, densamente povoada, composta por um arquipélago e localizada no centro do Mediterrâneo, no sul da Itália, ao leste da Tunísia e ao norte da Líbia. As principais ilhas e as únicas habitadas do país são Malta, Gozo e Comino. O centro do governo, comércio e cultura é a capital, Valletta, localizada na parte oriental de Malta.

 

Estas ilhas foram um ponto estratégico para diferentes culturas ao longo da história e a verdade é que, embora agora as razões para nós são muito diferentes, elas também são válidas hoje para escolher este destino e desfrutar de férias incríveis com sua bicicleta de montanha; a oferta de atividades é imensa.

 

Suas cores são intensas e vivas, e o azul de suas águas parece querer convidar você a mergulhar em suas incríveis enseadas. Sua arquitetura parece tomada de tempos passados, tão bem preservada que as vezes você pensa que está em um filme. Não é surpreendente que Malta tenha sido a estrela de algumas das principais produções cinematográficas das últimas décadas, tais como Gladiador, Tróia, Assassin’s Creed, Guerra Mundial Z, Assassinato no Expresso Oriente...

 

Se você é um daqueles que são conquistados pelo estômago, Malta também é o lugar para você. Sua proximidade com a Itália e suas heranças árabe e anglo-saxônica fizeram de sua gastronomia uma série de influências que resultam em pratos requintados.

 

Alguns de seus pratos mais conhecidos são:

 

Pastizzi a pequena massa folhada com ricota ou pasta de ervilha é, sem dúvida, um dos petiscos mais populares da ilha. Em qualquer padaria, bar ou restaurante você pode encontrá-lo e sempre a um preço muito bom. Os malteses comem o pastizzi com muita frequência no almoço ou lanche e, em geral, uma unidade deste bolinho pode custar entre 0,30 e 0,50 euros.

Bragioli Bifes de vitela muito finos feitos em um rolo (como um bolo) recheado com uma mistura de ovos cozidos picados, migalhas de pão e ervas. Estes rolos de carne são cozidos em seu suco em fogo muito baixo. Eles geralmente são servidos com molho, batatas fritas ou outro acompanhamento.

 

Stuffat tal-Fenek / Coelho Este é, sem dúvida, o prato mais conhecido da cozinha maltesa. Em poucos lugares do mundo, você será capaz de comer um prato de coelho tão requintado quanto este. A preparação leva muito tempo, já que primeiro é necessário marinar a carne e depois ferver por várias horas. Desta forma, obtém-se um prato absolutamente tenro, que derrete na boca e tem um sabor delicioso.

 

As ilhas: Malta - Gozo - Comino

 

Malta

 

Malta é a maior ilha e o centro cultural, comercial e administrativo. Nela você pode descobrir 7.000 anos de história que ainda estão muito vivos. Onde quer que você vá, as paisagens e a arquitetura da ilha proporcionarão um cenário espetacular. Sua cor é surpreendente, com pedras cor de mel contrastam com o azul intenso do Mediterrâneo.

 

As Ilhas Maltesas foram descritas como um grande museu ao ar livre. O que as torna únicas é que grande parte do passado ainda é visível hoje. Vá mais fundo na misteriosa pré-história das Ilhas, siga o caminho que Paulo percorreu ou contemple o lugar onde os Cavaleiros de São João defenderam o cristianismo.

 

A uma distância de apenas um ou dois quilômetros, você pode praticar esportes, embarcar em um cruzeiro pelas ilhas e visitar os lugares históricos mais importantes, e ainda terá tempo de mergulhar em sua vida noturna. Esta é a grande vantagem de estar em Malta. Malta possui instalações dedicadas à saúde e hotéis com spa e clubes esportivos. Tanto nas zonas marítimas como em terra, você pode praticar diferentes atividades, como escalada, mergulho, mountain bike ou caminhadas.

 

Gozo

 

Gozo é conhecida por ser um canto tranquilo para mudar de ar e ritmo. O encanto da irmã de Malta é descoberto aos poucos; é uma ilha mais verde, rural e menor do que Malta, onde as estações, a pesca e a agricultura ditam o ritmo da vida.

 

Acredita-se que Gozo, de acordo com o mito, é a lendária ilha de Calipso que aparece na “Odisséia” de Homero, um paraíso místico e pacífico perdido. A Caverna Calipso está localizada na bela areia vermelha da melhor praia de Gozo, na Baía de Ramla, e acredita-se que seja a caverna de que Homero fala em sua obra. A história conta que Gozo é a ilha homérica de Ogigia, e a caverna é o lugar onde a bela ninfa Calipso reteve Ulisses durante sete anos como "prisioneiro do amor".

 

Como uma cereja, a ilha oferece locais históricos, fortalezas e vistas de tirar o fôlego, bem como o templo pré-histórico melhor preservado do arquipélago, em Ggantija.

 

Além disso, em Gozo, há uma vida noturna e um programa cultural únicos.

 

Comino

Entre Malta e Gozo fica Comino. Este lugar, que ocupa apenas 3,5 quilômetros quadrados, não tem carros e, com exceção de seu único hotel, dificilmente tem habitantes.

 

Sua principal atração é a Lagoa Azul, um espaço de águas azul-turquesa brilhante cercado por areia branca, muito popular para passar um dia navegando em um navio de cruzeiro ou em um veleiro.

 

Comino vale a pena em todas as épocas do ano, e no inverno é ideal para caminhantes e fotógrafos. Não tendo áreas urbanas ou carros, o aroma de tomilho e outras ervas selvagens é facilmente percebido.

 

Nos tempos romanos, Comino era habitada, mas não adquiriu muita importância até a chegada dos cavaleiros. Foi então que ela começou a desempenhar um papel duplo: terreno de caça e posição de defesa das ilhas contra o Império Otomano.

 

A ilha provou ser um bom local para os piratas que operavam no Mediterrâneo e, embora não tenha vida selvagem hoje, era o lar de lebres e javalis em 1530, quando os cavaleiros chegaram. Os grão-mestres tomaram medidas estritas para garantir que a caça em Comino fosse protegida: aquele que violasse a lei teria que passar três anos como escravo nas galés.

 

Após a Segunda Guerra Mundial, Comino permaneceu perdida até que sua economia ressurgiu graças ao turismo em meados dos anos sessenta.

 

Se você quer conhecer a história de Malta, suas tradições, clima, lugares para ficar e o que visitar, não deixe de visitar o visitmalta.com, um dos mais completos atualmente.

 

Vamos pedalar

 

Rotas familiares, enduro, descida ou circuitos de XC. Você apenas tem que escolher o seu estilo e lançar-se para desfrutar de tudo o que estas ilhas se prepararam para oferecer. As pessoas são simpáticas, acolhedoras e dispostas a ajudar.

 

Abaixo, você vai conhecer alguns passeios imperdíveis na região das ilhas. Mas existem várias outras opções. Mais informações sobre rotas e trilhas disponíveis no mtbmalta.com (com links para rotas no Strava). Nele você também encontra circuitos de XC. E trilhas de MTB nas ilhas de Malta podem ser localizadas no maltamountainbike.org.mt.

 

Gozo Enduro

Um passeio ao longo da costa de Gozo com muitas paisagens para desfrutar. Penhascos incríveis que farão você aproveitar todo o percurso. A trilha começa e termina perto do terminal de balsas em Mgarr. Uma boa escolha para passar o dia. Distância: 50 km

 

Fiddien Enduro Trail

 

Começa a partir do topo da Dwejra que leva para Chadwick Lakes Valley, com saída em Fiddien. Ele se conecta muito bem com Mtahleb e Bahrija. Distância: 3,2 km

 

M.M.B.A - Curso XC

Um circuito XC localizado atrás do Radisson Hotel em Golden Bay. A área é conhecida por abrigar o parque Majjistral, com belas paisagens em geral. Uma grande trilha para incluir em suas pedaladas.

M.M.B.A - XC Curso Mgarr

Outro circuito destinado ao XC localizado em Mgarr com vista para a baía de Gnejna. Inclui o Downhill Lippija para adicionar um pouco de adrenalina. Tem belas paisagens quando você alcança terreno elevado.

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Por David Cachon

25/FEV/2019

Via Francigena de Canterbury a Roma de bike atravessando 4 países

 

Depois de já ter pedalado por lugares como a Estrada Real, a Cordilheira dos Andes e o Caminho de Santiago, decidi fazer algo diferente.

Dessa vez, queria voltar à Europa para pedalar, mas desejava algo mais desafiador e também espiritual que me abrisse espaço para desenvolver algumas reflexões a respeito do meu momento. Talvez uma jornada em torno de 30 ou 60 dias; não sabia ainda ao certo, mas era definitivamente o momento de me entregar de corpo e alma a mais uma cicloviagem.

 

Pesquisei bastante e descobri a Via Francigena. A princípio, um trajeto relativamente simples que percorria o lado oeste da Itália, partindo do Vale da Aosta e chegando em Roma; algo em torno de 800 km. Foi quando, aprofundando-me historicamente no assunto, descobri que, no século X, o então arcebispo de Canterbury, Sigeric, fizera, pela primeira vez, um percurso parecido, no sentido inverso, atravessando quatro países: Itália, Suíça, França e Inglaterra. Foi uma surpresa — além de descobrir que a Via Francigena era um caminho sagrado de peregrinação, meu apetite aventureiro foi aceso e tive a certeza: é isso o que quero!

 

Sabia, desde o princípio, que não seria fácil: seriam 2.000 km, três idiomas e culturas diferentes, mas resolvi encarar. Foram 12 meses de preparação física e psicológica, definição do melhor equipamento para levar, alternativas de rota, logística de viagem e contatos com pouquíssimos europeus que haviam percorrido todo o caminho.

 

Peguei o avião para Londres no começo de agosto e de lá parti para Canterbury, cidade situada no Condado de Kent, sudeste da Inglaterra, onde iniciaria minha jornada.

 

Com a credencial de peregrino AIVF em mãos e após um final de semana me concentrando em Canterbury, no dia 6 de agosto de 2017, após assistir a uma missa na catedral e receber uma bênção pessoal da Canon Clare, às 9 horas, os sinos badalaram anunciando a minha saída; foi emocionante.

 

Inglaterra: O aperitivo da Via Francigena

Foram 44 km até Dover pela mão esquerda, esquisitíssimo. Meu final de semana na Inglaterra não foi o suficiente para me acostumar à inversão de lado de direção e à rotatória no sentido anti-horário.

 

Chegando a Dover, procurei uma igreja antes de embarcar no ferry rumo à França. Queria ter meu 2º carimbo na credencial antes de deixar a Inglaterra e assim o fiz numa pequena igreja na saída de Dover. Eu me perdi um pouco para encontrar o ferry, mas cheguei, comprei o tíquete por £ 30 para Calais e esperei um tempão para o embarque num gigantesco navio. Tudo muito organizado para a bike que, assim como as motos, têm prioridade no embarque e no desembarque. Encontrei dois motoqueiros que me perguntaram para onde iria. Falei que iria para Roma e um deles me falou: "Nossa, quando pretende chegar lá? No Natal?". Também perguntei a eles aonde estavam indo, e um deles me disse, discretamente: "Sem destino, para onde o vento soprar, só Deus sabe!". Assim, embarquei rumo a Calais.

 

França:

Autoconhecimento

 

Na França, entrei por Calais, Departamento de Pas-de-Calais, norte da França. Uma cidade grande, muitos caminhões, carros, muita movimentação — o que particularmente nunca me atrai. O primeiro destino seria Guînes, um vilarejo a apenas 15 km de Calais. Chegando lá, fui muito bem recebido no albergue e, pela primeira vez, tive a oportunidade de testar meu francês (o qual — concluí — era compreensível o suficiente para as minhas necessidades dali até a Suíça).

A França é um país extraordinário, com povo educado e acolhedor, mas uma cena me chamava a atenção por aqueles lados: a quantidade de cemitérios e monumentos homenageando os mortos da 1ª e da 2ª guerra; um enorme respeito pelos que lutaram e morreram pelos ideais do país. À medida que avançava pedalando, vinha-me a impressão de estar só; passava por vilas e vilarejos vazios, mas delicadamente bem cuidados e ornamentados. Das casas, com imensos jardins floridos, os aromas das flores espalhavam-se pelas pequenas ruas onde passava.

 

Dia após dia, fui sentindo meu corpo se acostumar com a jornada diária, como se ele e a bike fossem um só; fui ficando mais leve, em todos os sentidos: a harmonia entre homem, máquina e natureza estava ali, perfeita. Nesse momento, fui abduzido pela Via Francigena; fui entendendo o funcionamento do meu corpo, da minha fome e da minha sede, os meus desejos. Na França, alcancei Wisques, onde fui calorosamente recebido por irmã Lucy numa Abadia — um prêmio espiritual para quem estava começando a se entender ali, existencialmente.

 

Arras foi a minha primeira cidade grande e foi lá que escolhi passar duas noites descansando. Meu maior aprendizado nas outras cicloviagens foi colocado à risca nesta — não queria me desgastar ou entrar em estado de fadiga, então o estado de consciência dos meus limites e a harmonia do corpo com o cosmos foram fundamentais para a continuidade. Sabia que em algum momento enfrentaria os Alpes Suíços, mas isso era futuro, não queria pensar a respeito, queria apenas viver um presente que me foi dado por Deus. Passei então dois dias pernoitando na Diocese de Arras, recuperando-me das primeiras etapas.

 

Tomei a rota sudeste dois dias depois, alcançando Trefcon, já no Departamento de Aisne. Trefcon não me parecia uma vila, muito menos um vilarejo (village, como eles dizem por lá), eram só uma rua e uma igreja incrustadas no meio de fazendas e campos de trigo. Aqui consegui um abrigo, justamente numa fazenda, um B&B perdido no interior da França chamado Le Val D’omignon. Fui muito bem recebido e acolhido pelo casal Wynand. Sentamos para jantar, conversamos desde sobre a produção de leite na região até o artesanato de selas para cavalo, sua especialidade. A solidão e o isolamento daquele lugar me tocaram pela primeira vez e, depois de alguns dias de estrada, tive a impressão de que, cada vez mais, a partir daquele momento, o desafio seria saber lidar comigo mesmo.

 

Comecei a me observar cada vez mais, olhar para meu interior, analisar minhas virtudes e qualidades, fazer uma reflexão constante e uma busca incansável pelo meu "id". Comecei a dar mais valor aos sinais que via pelo caminho, às coisas que tocava e às pessoas que cruzavam a minha trajetória.

 

Deixando meu lado existencialista de lado, comecei a parar em toda igreja que encontrava pelo caminho. Entrava, rezava e agradecia a oportunidade de estar ali. Foi assim, com essa espiritualidade, que cheguei a Laon, completando 375 km de percurso. Laon, uma antiga capital do Reino da França entre os anos de 895 e 988 d.C., esperava por mim no alto de uma colina. Da estrada, a menos de 5 km já se podia avistar o vulto da imponente e gótica Cathédrale Notre-Dame de Laon.

 

Meu próximo destino, um dia depois, seria Reims, a apenas 55 km de Laon. Saindo de Laon debaixo de chuva e frio, cheguei em Reims, dessa vez acompanhado por um ciclista belga em busca do Caminho de Santiago. Reims teve um papel importantíssimo na conclusão da Segunda Guerra Mundial. Foi em Reims que, dentro de um edifício ao lado da estação de trem da cidade, os generais alemães assinaram o primeiro tratado que garantia a rendição das forças armadas da Alemanha aos Aliados na Guerra, em 7 de maio de 1945. Dois dias foram o suficiente para conhecer a cidade e desfrutar de sua história. Foi também quando, pela primeira vez, o cansaço físico me deu boas-vindas e o questionamento sobre quem eu era e o que realmente procurava com essa jornada começava a ficar cada vez mais frequente.

 

Vitry-le-François e Bar-sur-Aube seriam a sequência da cicloviagem. A essa altura, já estava me sentindo em casa, perdi definitivamente a timidez, entrava nos escritórios de turismo, perguntava tudo e tentava conversar com todos. Os franceses eram hospitaleiros, muito solícitos e extremamente educados. Em Bar-sur-Aube, numa cabana no meio de um camping, uma tempestade despencou madrugada adentro. Segundo minha planilha de viagem, que mudava conforme o cardápio do dia, ainda faltavam três cidades grandes pela frente e somente mais um descanso em território francês. Parecia que a França tinha ficado curta e, aos poucos, caminhava em direção à fronteira franco-suíça.

 

Langres e Besançon seriam as próximas etapas. Eram 98 km que dividiam as duas cidades. Em Besançon passaria dos 1.000 km pedalados e ali daria a última pausa antes de entrar definitivamente em território suíço. Besançon é uma das cidades mais verdes da França e valia estar ali pelo seu patrimônio histórico e cultural, assim como pela arquitetura única. A cidade é toda construída na pedra calcária da própria região, que se chama Chailluz. Quando o tempo está seco, a cor dessa pedra se mostra entre cinza e azul; já quando chove ou está úmido, ela fica amarelada. Assim, tive a oportunidade de admirar a cidade mudar de cor por duas vezes nos dias seguintes. Simplesmente incrível.

 

Deixei Besançon com o coração na mão e me dirigindo para a minha última localidade na França, Pontalier. Nesse dia, tive uma sensação estranha quando acordei, não me sentia disposto. Fui à cafeteria, tomei um café, comi muito mal, voltei ao quarto e tentava entender o que estava se passando comigo. Uma angústia, talvez, por todo o tempo de estrada? Não sabia! Resolvi partir mesmo assim, arrumei minhas coisas, subi na bike e, no primeiro quilômetro, a sensação ruim se foi; não sei explicar o que se passou, só sei que melhorei quando comecei a pedalar. Sentia por estar deixando a França. No meio do caminho, meu primeiro problema mecânico. Devido ao peso do equipamento, meu bagageiro não suportou, estourando seu parafuso de sustentação no meio da serra. Fiz uma gambiarra para poder sair daquela situação e continuar viagem; deu certo! Pedalava por uma estrada muito linda, passando por um vale com corredeiras, subindo uma serra e, finalmente, alcançando a última cidade na França, a 1.000 m de altitude. Chegando a Pontalier, fui pedir auxílio de manutenção na primeira bicicletaria que encontrei e deu certo. Pontalier já tinha cara de Suíça e aqui me dei ao luxo de ficar no F1 Hotel, construído com contêineres transformados em quartos, ducha compartilhada, tudo muito simples, mas aconchegante. Em Pontalier, no Centre Ville, à beira do Rio Doubs, saboreando uma taça de vinho; essa foi a minha despedida do território francês. Depois de ter passado por 127 vilas e vilarejos, sentia-me mais forte e disposto para encarar a Suíça no dia seguinte.

 

Suíça: O Desafio

 

Parti para a Suíça; queria alcançar Lausanne, à beira do Lac Lemman. A viagem foi tranquila, desci uma serra, passei por muitos vilarejos típicos suíços, como Brettonières e Pompaples. Impressionante o número de ciclovias pela Suíça, tudo limpo, organizado e sinalizado. Parei num restaurante para almoçar, o dinheiro não era mais euro, mas franco suíço. Peguei o rumo de Centre Ville, iria ficar num albergue perto da estação de trem de Lausanne. Resolvi passar duas noites em Lausanne, peguei um trem, fui a Genève. Uma constatação: a Suíça é um país caríssimo, uma garrafinha d’água custava o equivalente a R$ 20,00. Dei uma volta rápida em Genève, tomei um ônibus urbano e, por incrível que pareça, acabei retornando à França, até o Mont-Salève; ali, havia um teleférico. Seria deslumbrante apreciar a cidade de cima, então subi até o topo. De lá, não só via Genève, mas grande parte do imenso e maravilhoso Lac Lemman. Ainda para a minha surpresa, era possível também avistar de lá o Mont Blanc, majestoso, coberto por nuvens. Voltei para Lausanne, descansei por mais uma noite. Aos poucos, um nervosismo começa a tomar conta de mim, sabia que o grande desafio da viagem não estava longe, Grand-Saint-Bernard estava logo ali. Dia seguinte, tomei viagem, indo para Martigny, meu ponto de saída para o topo dos Alpes. Passei mais duas noites em Martigny, queria descansar e me concentrar para o desafio dos Alpes. Martigny é muito simpática, uma cidade pequena, com um castelo do século XIII. O calor era forte, 35 graus, talvez um aperitivo para o que provavelmente me aguardaria na Itália.

 

O grande dia seria em 24 de agosto de 2017, 3.000 m de ganho em altitude em apenas 54 km. Estava pesado demais, carregava muito equipamento de frio, indispensável ao ataque final do Col du Grand-Saint-Bernard. Tomei o rumo de Grand-Saint-Bernard; o dia estava quente, ensolarado. De início, em 11 km de subida e declividade média de 12%, apresentou-se uma pequena estrada cheia de curvas sinuosas de onde aos poucos se avistava Martigny ficando para trás. No topo, desci para Sembrancher, a cidade do vale, aos pés dos Alpes. Grand-Saint-Bernard apareceria na minha frente, imponente, chamando-me para o desafio. A subida foi dura e a temperatura começou a baixar vertiginosamente. Passei por Osières, Liddes e Bourg-Saint-Pierre, vilas ao longo do percurso onde tive a oportunidade de me abrigar da chuva que, repentinamente, começou a cair. Daí para a frente não havia nada, só a estrada e um grande túnel de 5 km que me levaria ao Hospice du Grand-Saint-Bernard, divisa da Suíça com a Itália, lugar com que tanto sonhava e que muito desejava. Os últimos 2 km de subida dos Alpes foram extenuantes, não tinha mais forças para pedalar, faltava-me ar, senti tontura, as pernas não correspondiam mais. Desci da bike e comecei a empurrá-la. Um filme da minha vida começou a se projetar na minha cabeça, pensava em tudo nesse momento, na minha mãe doente, nos meus filhos, não era hora de desistir, faltava pouco para alcançar o cume. Faltando 200 m para a chegada ao Hospice, uma grande pedra, à direita na estrada, foi meu marco. Passei por ela e, finalmente, consegui avistar o Hospice. Parei por ali, comecei a chorar, não acreditava que depois de 8,5 horas de estrada, sol e calor, chuva e frio, havia conseguido conquistar o Col du Grand-Saint-Bernard. Sim, havíamos chegado ao ponto máximo dos Alpes, eu, a bike e Deus. Parei em frente ao Hospice, coloquei a bike de lado, deitei no chão de braços abertos. Um alemão, que por ali passava, veio até mim, perguntou se me sentia bem, se necessitava de cuidados médicos. Respondi que não, que só queria ficar ali quieto por um instante, mas não conseguiria por muito tempo, pois a temperatura já beirava os 5 graus naquele momento. Passada a euforia, dei entrada no albergue, me acomodei, tomei banho e descansei: um troféu por essa conquista.

 

Itália: A Alma

Passei duas noites no Hospice, um prêmio pelo esforço e pela determinação de chegar em um lugar tão iluminado. Segundo o Códice Calixtino, um manuscrito iluminado de meados do século XII, tanto o Hospice du Grand-Saint-Bernard, quanto os Hospices de Jerusalém e de Saint-Christine du Somport (Pirineus) são descritos como lugares santos, casas de Deus para o conforto dos peregrinos e dos doentes; lugares de salvação dos mortos e de ajuda aos vivos. Uma curiosidade: foi ali que surgiu a raça de cães São Bernardo.

 

Acordei cedo, estava muito frio, zero grau, havia chovido na noite anterior. Arrumei minhas coisas, encapei-me todo, seriam 40 km de descida até o Vale da Aosta, a porta de entrada da Itália. Antes, parei para tirar uma última foto em frente à estátua de Saint-Bernard du Monjoux, protetor dos alpinistas, dos montanhistas e dos Alpes. Assim me despedi da Suíça, da França, do idioma francês e dei entrada na Itália, pedalando numa descida espetacular com asfalto belga impecável.

Chegando em Aosta, uma hora depois, um baque: 40 graus de temperatura. Parei dentro da cidade, em frente à oficina de turismo, saquei toda a minha roupa, estava derretendo. Continuei a viagem que passava por todo o vale e segui para Pont Sant Martin. O idioma começava a ser uma barreira, fazia confusão com o espanhol, um problema pela frente.

 

A viagem continuou nos dias seguintes. A elevação não era tão grande, dava para andar bastante, mas o calor era agonizante. Parei na primeira estação de correios que encontrei, separei tudo o que carregava que daria para despachar. Foram 4 kg de equipamento e, como sempre digo, uma vez que o peso que você carrega é proporcional ao medo que você sente de passar frio, ficar doente, etc. Despachei para a casa de um amigo que morava em Arezzo, que também guardou a minha mala de chegada, já despachada de Canterbury. Fiquei bem mais leve, uma diferença absurda de rendimento na pedalada. Sabia que ainda teria muitas montanhas pela frente, já que meu próximo desafio seria a Toscana.

 

A parte norte da Itália é muito movimentada, com muitos caminhões. Por diversas vezes, peguei estradas, e os motoristas por ali não são tão respeitadores como na França e na Suíça. Enfim, era o caminho, não havia alternativa e tinha de conviver com o perigo.

 

Após 5 dias pedalando sem pausa, alcancei Firenzuola D’Arda, mas, mesmo assim, resolvi continuar sem descanso. Sabia que, no dia seguinte, iria me encontrar com as montanhas da Toscana, mas me sentia muito bem e não era prudente parar naquele momento. No dia seguinte, na etapa 19, alcançaria Cassio, mas onde, afinal, seria Cassio? Nem o GPS sabia onde era. Joguei as coordenadas, ele me mandou para um caminho maluco, fui parar na autoestrada E33, parei num pedágio, perguntei e me indicaram a direção de Paso della Cisa. Não imaginava o que me esperava: atravessava pontes sobre rios completamente secos, a Itália literalmente derretia, 42 graus de temperatura. Não havia placas da vila que procurava e, mesmo assim, continuei rumo ao sul numa serra. Parei numa bica de água no meio da estrada, o calor me provocava delírios. Continuei, cheguei a 1.050 m de altitude, e encontrei um motociclista que me disse que estava distante 5 km de Cassio. Encontrei o pequeno vilarejo e imediatamente me instalei no albergue, precisava de banho, descanso e comida.

 

Choveu a noite toda, a temperatura caiu. No dia seguinte, as subidas continuaram (afinal, estava numa região de montanhas), quando finalmente cheguei à divisa da Emilia-Romana com a Toscana. De cima, tudo era muito lindo. Continuei a viagem, a próxima cidade seria Pontremoli, onde parei para o almoço e provei um prato típico toscano — "testalori al pesto", uma delícia. Queria chegar em Aulla e, depois de 66 km, consegui. Não havia albergues em Aulla, resolvi ir a uma comunidade vizinha, Podenzana, a 5 km. O único problema era que tinha de subir um morro 400 m. Muito calor, minhas pernas não aguentavam mais, mas achei um canto para dormir, um restaurante num mirador que fornecia estadia — por lá fiquei. Jantei, admirando toda as montanhas da Toscana, a partir de então meu novo lugar.

 

Acordei no dia seguinte, firme na ideia de encontrar o Mar Mediterrâneo. Para isso, precisaria fazer um desvio na rota, então resolvi traçar a rota até Marina de Pietrasanta. Nesse dia, fui acometido por uma terrível dor na lombar que me acompanhou por 52 km. Cheguei cedo em Marina de Pietrasanta, procurei alojamento, precisava tomar remédio, descansar. Às vezes, queria conhecer um pouco mais sobre as cidades, mas, geralmente, o cansaço era tão grande que acabava somente percorrendo as ruas do entorno dos albergues. No albergue, encontrei um casal de alemães; não acreditaram quando lhes falei que vinha de Londres (na verdade, sempre falava que vinha de Londres, pois ninguém faz a mínima ideia de onde fica Canterbury).

 

Um pouco mais recuperado da dor nas costas, deixei Pietrasanta logo cedo, indo para Lucca. Havia uma pequena serra pelo meio do caminho, com a opção de ir para Pisa, mas continuei sentido Lucca, pois a viagem seria curta. No km 40, passei por um portal e me vi pedalando em cima de um grande muro. Parei, olhei para baixo, vi um gramado imenso e pensei: "Que grande parque!". Era nada: depois me dei conta de que estava pedalando pelos muros da indescritível Lucca, uma cidade rodeada por uma muralha de 4 km de extensão e 12 m de altura. Passei duas noites em Lucca; andar pelas duas ruelas de traçados regulares, mas que, na verdade, não passam de grandes labirintos, é voltar à era medieval. Dia de descanso, também não deixei de ir de trem e passar a tarde em Pisa. Espantoso como a região da Toscana é rica culturalmente!

 

Parti dois dias depois para a 23ª etapa da viagem, destino San Gimignano. Muito difícil de chegar, mas, atravessando os imensos campos de uvas da Toscana, avista-se a cidade bem de longe numa colina a 324 m de altitude. Por ser uma cidade muito pequena, ônibus de turismo chegam de todos os lados trazendo temidos turistas alvoroçados. Assim, a cidade, apesar da sua arquitetura e história únicas, é um mar de gente. Só fiquei ali porque estava muito desgastado pelo calor e porque já tinha reservado a hospedagem. Entretanto, o dia seguinte foi compensador. Apontei para Buonconvento (em latim, bonus conventus, ou seja, "encontro feliz"), uma cidade toda em tijolos, construída sobre as ruínas do Castelo Percenna. Poucas pessoas, alguns restaurantes, crianças jogando bola pelas ruas, eu me senti em casa em Buonconvento e passei uma noite na cidade.

 

Acquapendente seria a 25ª etapa, mas não sem antes passar por San Quirico D’Orcia e Bagno Vignoni. Num documento datado do século XIV, Bagno Vignoni é descrita como “local de banho rodeado por edifícios e bares com uma capela no meio”. Na Piazza delle Sorgenti, há uma grande piscina de onde jorra água termal a uma temperatura de 49º C. Após um banho de energia em Bagno Vignoni me senti disposto para rodar mais 50 km até Acquapendente, província de Viterbo. Lá, já muito cansado, apenas descansei e saí à noite para comer uma pizza. Distante duas noites de Roma, não estava conseguindo segurar a minha ansiedade, ora pelo fim da viagem, ora pela conquista de Roma.

 

Montefiascone seria o próximo passo e, como o próprio nome diz, em cima de um monte. De Acquapendente, contornaria o Lago de Bolsena e alcançaria Montefiascone, minha penúltima noite antes de Roma.

 

No dia seguinte, seguindo para Viterbo, resolvi mudar a rota. Então, parado numa cafeteria, depois de conhecer a Catedral de Viterbo, descobri um imenso monastério em Bassano Romano. Na pequena cidade, incrustada na região do Lácio, apareceria, no alto de uma colina, um centro de espiritualidade monástica, de paz e acolhimento como o Hospice du Grand-Saint-Bernard; chamava-se Monastero San Vicenzo. Chegando ao gigantesco Monaci Benedettini, fui muito bem recebido por Dom Alessandro, que me mostrou os aposentos, serviu comida e vinho. É muito bom sentir-se abraçado dessa maneira. A menos de 24 horas da Piazza San Pietro, no Vaticano, eu me sentia mais leve. Era uma sensação estranha chegar em Roma e, quando me imaginava lá, minha garganta travava. Esgotado fisicamente, queria continuar, faltava pouco e estar no monastério nada mais era do que uma concentração para o dia seguinte, que sabia que iria ser psicologicamente muito difícil para mim.

 

Assim como aconteceu em Canterbury, às 9 horas do dia 9 de setembro de 2017, os sinos do Monastero San Vicenzo badalaram, dessa vez anunciando a saída para os últimos 68 km da 28ª etapa. Depois de 36 dias de viagem, estava ali, pronto para Roma. Sentido sul, peguei a Via Cassia. Passei pelo Parque Naturale Regionale di Bracciano-Martignano. Parei em frente ao Lago de Bracciano. Era sábado, havia algumas pessoas por ali, crianças brincando. Não imaginavam o que se passava comigo naquele momento, uma espécie de ebulição, uma sensação de querer e não querer chegar em Roma, ao mesmo tempo. A 25 quilômetros do final, encontrei um ciclista das redondezas, Franco, que ficou espantado com a minha jornada. Fez questão de me acompanhar até a entrada da grande Roma, quando nos despedimos. Foi meu último anjo. Roma foi chegando aos poucos, numa longa descida, numa avenida em que o trânsito e o barulho começaram a me incomodar. Aos poucos, atravessava a cidade, quando passei de longe e avistei a ponte sobre o Rio Tibre. Parei em cima dela, olhei o cenário em 360º, havia chegado na capital italiana. Sentei na sarjeta e chorava feito uma criança que acabara de ganhar seu primeiro presente. 

 

Uma mistura de orgulho e euforia tomou conta de mim. Subi de novo na bike, faltavam 10 km até o meu ponto final. Pedalava vagarosamente até o Vaticano, nem fotos me importavam mais, queria esse momento registrado na minha memória, não para os outros. Cheguei à Piazza San Pietro, deitei no chão, era o fim da linha. Uma história única, de aventura e de espiritualidade, que havia acontecido. Aquele momento era só meu e gostaria que fosse inspirador para todos que não acreditam ou não têm fé nas suas propostas. Sabia que poderia até ser um herói para alguns, mas, na verdade, eu era um herói para mim mesmo, um herói solitário da Via Francigena que, naquele instante, havia me dado um dos maiores presentes da minha vida, a oportunidade de atravessar a Europa, pedalando 2.000 km, e conquistar Roma.

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Por Nestor Freire

10/FEV/2019

Do Alentejo ao Algarve

 

A Costa Vicentina é lugar muito especial, tem paisagens incríveis, praias de sonho, comida de “lamber os beiços” e, sobretudo, gente muito boa, cheia de vontade de receber.

Portugal me encanta...Já havia percorrido o país de ponta a ponta de carro - nada muito difícil de fazer; considerando que Portugal é um país pequeno (do tamanho do estado de Pernambuco). Desta vez resolvi percorrer alguns trechos de bicicleta. A primeira rota escolhida foi a Rota Vicentina - uma rede de percursos no sudoeste do país, totalizando 450 km para caminhar e pedalar, ao longo de uma das mais belas e bem preservadas zonas costeiras do sul da Europa.

 

Deste percurso 110 km são de costa selvagem e cerca de 80 mil hectares de área protegida, inseridos no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina.

 

É formada pelo Caminho Histórico, Trilha dos Pescadores e vários Circulares. Os percursos proporcionam uma vivência entre uma cultura rural viva e autêntica e uma costa surpreendentemente selvagem (http://pt.rotavicentina.com/regiao.html).

 

O percurso está integralmente sinalizado e pode ser percorrido nos dois sentidos, em total autonomia e segurança, preferencialmente entre os meses de setembro e junho – nós escolhemos o mês de junho.

O CAMINHO HISTÓRICO - está sinalizado de vermelho e branco.

 

NA TRILHA DOS PESCADORES - a sinalização é em verde e azul.

 

O Caminho Histórico é possível percorrer de bike sem problemas - constituído em sua maioria por caminhos rurais, trata-se de uma clássica Grande Rota (GR), com serra, vales, rios e ribeiras, numa viagem pelo tempo, pela cultura local e pelos trilhos da natureza. Já na Trilha dos Pescadores, alguns trechos são inviáveis para pedalar –  beira de penhascos e trilha estreita, sempre junto ao mar, seguindo os caminhos usados pelos locais para acesso às praias e pesqueiros.

 

Fomos desaconselhados a seguir totalmente por ele. O que fizemos foi revezar entre o Caminho Histórico e a Trilha dos Pescadores – o que tornou alguns trechos mais longos.

 

Há também vários Percursos Circulares - são curtos com início e final no mesmo local, para que seja ainda mais fácil descobrir o prazer de pedalar no sudoeste de Portugal, sem transferes, sem complicações e com a duração de apenas meio dia ou menos.

 

A Rota Vicentina inicia-se em Santiago do Cacém (145 km de Lisboa), mas decidimos iniciar em Sines.

Para chegar até o sudoeste do país a melhor opção é um voo até Lisboa. De lá seguimos de ônibus até Sines (163 km), e a viagem durou pouco mais de 3 horas e foi bem tranquila (https://www.rede-expressos.pt/).

 

As bikes

Nós optamos em alugar pela comodidade que isso proporciona. Eu descobri viajando por aí que alugar uma tem muitas vantagens: economiza o trabalho e o custo com o transporte; diminui o peso e facilita muito o deslocamento até o local do pedal e às vezes há a possibilidade de você pedalar em uma bike melhor que a sua e ajustada para você. Esqueça a ideia de que alugar uma é igual a bike enferrujada e rangendo a cada pedalada – não! Hoje existem empresas especializadas e muito preparadas para receber o ciclista. Conhecer pessoas do local que entendem do serviço é também um grande ganho - esse vínculo é fundamental para quem viaja por conta própria. Em Portugal optamos pela empresa Gocycling (www.gocyclingportugal.com), e quem nos recebeu foi o Pedro, uma pessoa incrível que deu dicas muito importantes sobre o percurso. Combinamos o local de recolha das bicicletas (o custo adicional desse serviço de recolha/pick-up é de 30EUR por bicicleta). O valor do aluguel de cada uma foi de 25EUR por dia. Mas é claro que tudo é uma questão de “negociar”, dependendo do número de dias é possível um bom desconto. Nossas bikes foram da Scott e cumpriram muito bem a função dela.

 

Nosso ponto de partida - Sines

O centro da cidade ainda conserva a sua estrutura medieval, com ruas paralelas ao mar cruzadas por travessas perpendiculares e a sua praça central. Nele destaca-se o Castelo, que desde o século XIV manteve à distância os visitantes indesejáveis: principalmente piratas e corsários, interessados em empilhar as riquezas da terra. Hoje é palco de Festivais de Música do Mundo, onde se celebra a diversidade cultural que Vasco da Gama e os outros descobridores portugueses revelaram ao mundo.

 

Vasco da Gama viveu a sua infância no Castelo em Sines e certamente ouviu os relatos das façanhas dos velhos pescadores, cujos descendentes ainda hoje se reúnem nos largos abertos sobre o mar para adivinhar a aproximação dos temporais.

 

O Castelo onde ele viveu na infância foi afetado pelo terremoto de 1755, mas conservaram-se as paredes e estrutura medievais, destacando-se o paço medieval e a Torre de Menagem, que desde 2008 abrigam o núcleo sede do Museu de Sines e a Casa de Vasco da Gama.

 

Em Sines também está a “Casa de Vasco da Gama” não visitável – é uma casa particular.  Apesar de a placa colocada na fachada em 1898 assinalá-lo como local do nascimento do navegador, os moradores com quem conversamos disseram que o local é onde Vasco da Gama começou a erguer sua residência, após o regresso da Índia, mas que, ao nunca ser terminado, entrou em ruína e foi demolido em finais do século XIX.

 

Escultura de autoria de António Luís Branco de Paiva (1926-1987) ao lado do castelo em homenagem aos 500 anos do nascimento do navegador. Estórias e histórias são o que não faltam por ali.

 

1˚ dia de pedal
Sines / Cercal -  61,1 km

Sair da cidade pedalando não foi problema, nosso objetivo do dia era chegar em Cercal. Pelo mapa seriam 40 km (claro que pedalaríamos mais – considerando erros e acertos, entradas e saídas). Saímos cedo e sem nenhuma pressa.

 

Seguimos pedalando em direção ao sul de Sines e logo entramos no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, com as suas pequenas praias envolvidas por despenhadeiros. É a parte do litoral europeu melhor conservada, com várias espécies de fauna e flora únicas.

A primeira praia dessa costa, S. Torpes, é a mais pertinho de Sines, conhecida por ter a água do mar mais quente de Portugal. Mais precisamente: elas atingem cerca de 30ºC; enquanto o resto do país trinca de frio com águas congelantes do mar mesmo em pleno verão. Isso porque nos fundos da praia está plantada uma termoelétrica que é a causa do “fenômeno”. Ela usa as águas do Atlântico para arrefecer a usina e, quando elas voltam à praia, estão morninhas. É assim há décadas, dia e noite.

 

Depois de S. Torpes, é uma sucessão de praias lindíssimas, de água límpida de um azul caribenho. As falésias são muito variadas e de grande beleza. Muitas rochas e ilhas isoladas completam o cenário belo e singular desta etapa.

 

Chegamos em Porto Corvo, uma pequena vila encantadora de pouco mais de mil habitantes. O cenário é arrebatador de um lado, com casinhas caiadas de branco, de portas e janelas coloridas, poucas ruas e praças cheias de charme; do outro, uma sequência de praias cercadas de falésias e acessíveis por trilhas ou escadinhas, que levam até lá embaixo.

 

De Porto Corvo, seguimos na direção de Cercal, até Herdade da Matinha, uma casa rural onde ficaríamos hospedados.

 

Herdade da Matinha (http://www.herdadedamatinha.com/) é um lugar lindo, de bom gosto, com vastos hectares de colinas e pastagens formando um cenário naturalmente perfeito. Fomos recebidos com muita simpatia pelo Alfredo e a Monica.

 

A pequena cozinha onde as refeições são preparadas com produtos frescos da fazenda.

 

2˚ dia de pedal
Cercal / Zambujeira - 75,8 km

Logo pela manhã deixamos a Herdade da Matinha. Confesso que ficaria ali – a tranquilidade e beleza do lugar me encantaram. Mas, deveríamos seguir. Saímos da fazenda por uma trilha, nos afastamos um pouco da linha do mar e adentramos para o interior da Serra do Cercal para apreciar a paisagem dos campos alentejanos.

 

Nesse trecho cometemos nosso primeiro erro; ao pegar a trilha deveríamos sair no sentido de Cercal para São Luiz, mas voltamos e seguimos a sinalização de um percurso circular. Erramos! Mas foi ótimo porque ao voltar tivemos a oportunidade de conhecer a Ilha do Pessegueiro, que no dia anterior havíamos deixado para trás. Seguimos pela direção da Ribeira da Azenha e finalmente chegamos ao Forte do Pesqueiro. Um lugar lindo!

Da Praia da Ilha retomamos a sinalização do Caminho Histórico, continuamos pedalando até voltarmos em direção ao mar para conhecermos o primeiro cabo desta região, o Cabo Sardão, um local privilegiado para sentir a força das ondas e a imensidão do oceano. Talvez aqui seja o único lugar do mundo em que as cegonhas nidificam no topo das falésias negras que, com seus recortes pontiagudos, proporcionam uma paisagem ímpar.

 

Faro do Cabo Sardão: este farol tem uma característica única: está construído ao contrário de todos os outros, ou seja, com a porta de entrada virada para o mar e o farol voltado para a terra! Conta-se que o construtor interpretou mal a implantação da construção, rodando em 180º. Fato que mostra a dificuldade de comunicação entre o construtor e os engenheiros da Marinha; mas não deixaria também de estar relacionado com a distância e a solidão desta costa, longe das inspeções dos responsáveis.

 

Seguimos por uma trilha belíssima! São aproximadamente 8 km contornando falésias sempre junto ao mar até chegarmos à outra vila de pescadores, a Zambujeira do Mar! A Zambujeira é uma vila de veraneio, lugar encantador, casas simples, pintadas coloridas, ruas limpas e uma praia lindíssima.

 

Ficamos hospedados no Hotel Rosa dos Ventos, com um atendimento fantástico e ao lado da praia, onde terminamos o dia apreciando um lindo por do sol.

 

3˚ dia de pedal
Zambujeira do Mar / Aljezur - 60,8 km

Mais uma despedida difícil, já que cada canto desse percurso a vontade era ficar dias e dias, mas tínhamos de seguir pedalando. O que nos confortava era a certeza de que o caminho continuaria a nos proporcionar vistas incríveis e encontros ainda mais.

 

Nesta etapa encontramos muitas pessoas fazendo a Trilha dos Pescadores caminhando - principalmente os ingleses, e não é por acaso -  o jornal britânico Independent considera a trilha uma das melhores da Europa. Ela recebeu, recentemente, a certificação Leading Quality Trails – Best of Europe. Só posso concordar! O cenário é lindo. Infelizmente alguns trechos da trilha são terminantemente desaconselháveis para bikes (informações no site: http://pt.rotavicentina.com/regiao.html). Confesso que quando vi alguns caminhantes em lugares que não alcançaria com minha bike, sentia um pouquinho de inveja e ficava com a sensação de estar perdendo algo. Bom, não se pode ter tudo.... Acho que vou ter que voltar para percorrer o caminho a pé.

 

Seguimos pedalando -  agora para Aljezur, nossa próxima parada. Durante o nosso percurso passamos pela Praia de Alteirinhos, a bela praia do Carvalhal, e pela famosa praia da Amália que, como o nome indica, era o refúgio preferido da diva portuguesa. As praias estavam tranquilas e muitas vezes isoladas, mas, segundo os moradores com quem conversávamos, no Festival do Sudoeste e em meses de verão eles recebem muitos turistas e o sossego desaparece! 

Um pouco mais ao sul, chegamos à aldeia de Azenha do Mar. Ali, vimos novamente a sinalização da Trilha dos Pescadores, não resistimos e mais uma vez exploramos o lugar. Deixei minha bike com o Zé Marques, que ficou em um barzinho e fui sozinha caminhar um pouco por onde a minha bike não alcançava (segurança é tudo em uma viagem).

 

Depois de satisfeita por subir em alguns penhascos caminhando, voltamos à procura da sinalização vermelha e branca que nos levaria de volta para a trilha do Caminho Histórico. Mas nesse trecho cometemos nosso segundo erro. Saindo de Azenha do Mar entramos em uma grande propriedade rural, exploramos um estradão e depois outro e nada da sinalização. Foi ali que encontramos a primeira ciclista no percurso e ela estava tão perdida quanto nós. Juntamo-nos pela busca do percurso certo.

 

Caminhamos por um trecho muito arenoso – pedalar era impossível, a solução foi empurrar bike! Até chegarmos a uma pequena estrada, onde encontramos um senhor que nos indicou o sentido correto. Mas não demorou muito e o que encontramos novamente foi a sinalização verde e branca (Trilha dos Pescadores) que nos levou direto para a praia Odeceixe.

 

A estrada para a praia serpenteia durante 3 km ao longo de um vale verdejante, acompanhando a Ribeira de Seixe e campos agrícolas. Nas encostas do vale observam-se bosques de sobreiro (árvores de cortiças) que dão lugar, mais perto da praia, a matos litorais. A praia é uma ampla língua de areia entre o mar e a ribeira que deságua no extremo norte, onde se formam várias lagoas de águas baixas.

 

A chegada em Odeceixe marca a fronteira entre o Alentejo e o Algarve.
 

Na praia de Odeceixe há vários serviços de apoio, incluindo bons acessos para a praia, bares, restaurantes, lojas e estacionamento. Aproveitamos e fomos até um mercadinho. Abastecidos, fizemos um belo piquenique, apreciando o movimento. Deixamos a praia e seguimos até a estrada N120 para Aljezur, nosso destino final do dia.

 

Aljezur é uma vila pequena e tranquila, dominada por um castelo mouro do século X. Quando os árabes construíram o castelo, várias ribeiras percorriam a área e a que corria em redor do monte era tão larga que permitia aos barcos subirem até Aljezur. Mas as águas ficaram infestadas com mosquitos que espalharam a malária e a população teve de se mudar, criando assim outro centro. Por isso, a vila está dividida em duas partes: a Vila Velha e a Igreja Nova.

 

Ficamos hospedados no Guest House Ladeira na parte da Igreja Nova.

 

O Castelo erguido pelos árabes no século X e tomado pelos mouros no séc. XIII foi um dos últimos castelos a serem conquistados no Algarve. Embora em mau estado de conservação, mantém a sua cerca de muralhas (séc. XIV) e duas torres. A vista do alto é magnífica!

Aljezur é o maior produtor de batata doce de Portugal, por isso este legume está presente na gastronomia local. Nós, claro, não poderíamos deixar de provar!

 

4˚ dia de pedal
Aljezur / Sagres - 67,3 km

Logo pela manhã, deixamos Aljezur, e não foi difícil encontrar a sinalização pela cidade.

 

Mas, depois de percorrer alguns quilômetros, a falta de sinalização fez com que nos questionássemos sobre o caminho. A estrada estava em péssimas condições com muitas pedras soltas e muitas subidas. O que tornava o percurso agradável apesar das condições eram os imensos sobreiros - árvore especial que tem na casca seu principal produto (cortiça). Os portugueses chamam de montado um bosque desse tipo de carvalho, tanto em plantação formada quanto nativo. A cada nove anos, a árvore perde a casca, fica com cor de ferrugem e aí vai ter outros nove anos para se regenerar e ter outra casca para ser cortada. Assim, nesse ciclo de nove em nove anos, o sobreiro, a árvore da cortiça, vive um século, dois séculos, até mais.

 

Quando finalmente encontramos a sinalização, seguimos tranquilos. Paramos para um descanso e seguimos para Sagres. No caminho passamos por Arrifana e do topo da falésia tivemos uma visão privilegiada da praia - considerada como uma das melhores para a prática do surfe. Do alto constatamos o fato – um monte de pontinhos pretos na água.

 

A próxima praia no caminho foi a Praia da Bordeira - apesar de a praia ficar mais perto da aldeia da Carrapateira do que da aldeia da Bordeira, seu nome está relacionado ao fato de a Ribeira da Bordeira desaguar nela. Belíssima e tranquila, tem uma longa extensão de areia – e é famosa pelas suas belas dunas.

Da aldeia da Carrapateira seguimos para Vila do Bispo e finamente chegamos em Sagres  -  nossa meta do dia.

 

A história de Sagres foi definida pela sua localização geográfica e pelos magníficos promontórios de Sagres e do Cabo de S. Vicente. A ideia de que a terra termina aqui nestes promontórios com 50 metros de altura que se precipitam dramaticamente no mar foi uma fonte constante de mistério e atração para os sucessivos colonizadores da região. A figura mais influente da história de Sagres foi o Infante D. Henrique, que aí se inspirou para embarcar nas suas viagens de descoberta, trazendo fama à região e levando à fundação da Vila do Infante.

Chegamos em Sagres em tempo de apreciar um belo por do sol. Seguimos para o Hotel Casa Azul onde nos hospedamos.

 

5˚ dia de pedal
Sagres / Lagos -  59,0 km

Sagres exibe algumas das mais impressionantes paisagens do Algarve. Não foi fácil nos despedirmos da cidade. Mas antes de seguirmos para o nosso destino final – Lagos, decidimos visitar o Cabo de São Vicente, cujo farol continua a guiar hoje em dia todos os navios que deixam a Europa para cruzar o Atlântico. Este pequeno canto tem uma linda paisagem que ainda permanece selvagem, varrida pelo vento e batida pelo sol, uma costa escarpada sobre um mar bravo ao alcance da mão.

Deixamos o Forte e seguimos para Lagos. Parte do percurso seguiu a Estrada Nacional 125. A ecovia é sinalizada através de um ciclista branco ou linha azul pintada no pavimento. Em algumas etapas a sinalização é quase perfeita, em outras é escassa ou inexistente. Mas quando menos se espera, eis que surgem algumas placas com informação de quilometragem e do conselho responsável pela próxima etapa da ecovia.

 

De repente, a ecovia transforma-se num caminho rural, passando por Salema e Burgau, duas vilas, até chegar em Lagos, uma cidadezinha litorânea de grande importância histórica. No século 15, Lagos foi capital do Algarve e foi dali que D. Henrique partiu para conquistar o norte da África.

 

Em Lagos terminamos nosso pedal! Foram cinco dias e 324 Km (entre erros e acertos) pedalando lado a lado das mais ricas e interessantes geologias, floras e faunas da Europa.

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Por Vera Lucia Marques

06/FEV/2019

Cicloviagem: ele pedalou 1.939 km entre o Atlântico e o Pacífico

 

O jornalista Diego Salgado encarou uma longa viagem de bicicleta entre setembro e outubro. Em 30 dias, ele pedalou 1.939 km e percorreu o trajeto entre os dois oceanos que banham a América do Sul, o Atlântico e o Pacífico. A jornada de Diego, de 36 anos, teve início em Rio Grande, no litoral gaúcho, e terminou em Valparaíso, no Chile. O que era para ser uma cicloviagem motivada pelo desafio pessoal de cruzar quatro países converteu-se em uma jornada de autoconhecimento, solidariedade e boas histórias.

 

“Tive de vencer os medos e começar a desatar todos os nós que apareciam, como procurar o lugar para dormir já com a noite posta, encarar o vento de peito aberto, lidar com a responsabilidade criada a partir do momento em que propus a viagem e até de criar um acostamento na estrada onde não existia. Não foram poucas as vezes em que tive de falar comigo mesmo na ânsia de me acalmar”, lembra.

Ciclista há 18 anos, Diego estudou o roteiro cuidadosamente, traçou um planejamento e embarcou sozinho para a cicloviagem. Poucos dias de pedal foram suficientes para perceber que seria impossível cumprir à risca o que havia planejado. No fim das contas, o jornalista precisou matar vários leões por dia durante um mês. Armar a barraca e descansar em um local seguro e com banho quente – como um pedágio em uma rodovia de San Andrés de Giles, na Argentina – já era uma vitória a ser comemorada.

 

A alimentação foi um dos pontos que escaparam do roteiro inicial. Mesmo carregando um fogareiro para economizar e preparar a própria comida, o cansaço o vencia ao fim do dia e o levava a comer em postos de gasolina, gastando cerca de R$ 50 diários, mais do que os R$ 30 que havia estipulado.

Além do bolso, o corpo também acusou o golpe de pedalar 72 km por dia, ora pelas dores no joelho, ora pelo gasto calórico altíssimo de ficar horas a fio em cima da bike. Antes de se deitar, ele sentia as roupas mais folgadas e conseguia apalpar os ossos – sinais claros de que estava perdendo peso rápido demais. A solução foi apostar em alimentos ricos em açúcar. Apesar de abusar dos refrigerantes e chocolates, ele encerrou seu desafio 5 kg mais magro.

 

Quando Diego imaginava que seus problemas não teriam solução, fosse para dormir, comer ou fazer reparos na bicicleta, pintava um desconhecido que lhe estendia a mão e salvava seu dia. As ajudas foram de caronas inesperadas quando ele já se preparava para dormir na Cordilheira dos Andes a convites para comer um tradicional churrasco argentino em um posto policial.

 

De tão marcante que foi a experiência por Brasil, Uruguai, Argentina e Chile, o jornalista decidiu transformá-la em livro. Ele pretende lançar a publicação até março de 2019. Abaixo, você confere dicas, episódios curiosos e perrengues vividos por ele em seu pedal sul-americano.

Pneus furados

Acostumado a pedalar em ciclovias e ruas asfaltadas de São Paulo, Diego era inexperiente quando o assunto era a mecânica de uma bike. Até então, ele nunca havia trocado um pneu de bicicleta em sua vida. Pedalar em províncias secas, com muitos espinhos no chão, fez com que ele tivesse que aprender como reparar a própria bike. Do km 1050 ao 1600, seus pneus furaram 11 vezes.

 

“Troquei um pneu pela primeira vez na vida no meio de uma estrada. Meu pneu tinha quatro furos e o dono de uma bicicletaria na cidade de La Dormida [província de Córdoba, na Argentina] me tratou superbem. Para construir um pneu mais resistente, ele cortou um pneu velho e colocou dentro do pneu que eu já tinha. Também fez uma revisão na minha bike e me chamou para almoçar na casa dele com a mulher e a filha”, recorda.

 

Boa infraestrutura na Argentina

Segundo Diego, a Argentina oferece condições melhores para os ciclistas do que o Uruguai, onde ele passou quatro dias sem tomar banho e dormiu em lugares que transmitiam insegurança.

“A Argentina tem uma rede de postos de gasolina chamada YPF. Lá, os funcionários te recebem bem. Dá para dormir na parte de trás do posto, tem wi-fi, lugar para tomar banho. Tomei banho muitas vezes de graça”, diz.

 

Churrasco com a polícia

“Muitas pessoas com quem eu cruzei no caminho fizeram do meu desafio o desafio delas. Elas queriam que eu chegasse lá da mesma maneira e passaram a torcer por mim”, conta.

 

Ao passar pela cidade de Diego de Alvear, na província de Santa Fe, na Argentina, o jornalista recebeu um convite inusitado. Com pena do brasileiro por todos os perrengues enfrentados, um policial o chamou para ir até o posto policial às 21h. E não havia maneira mais argentina de receber um visitante. Os policiais serviram um tradicional churrasco argentino a Diego.

 

O ponto alto

Cadeia de montanhas mais extensa do mundo, a Cordilheira dos Andes oferece paisagens estonteantes aos seus visitantes. Para quem se aventura a desbravá-la de bicicleta, o ponto alto é a estrada de Los Caracoles. O nome é uma referência às 29 perigosas curvas do percurso de 1 km.

 

A sensação de descer a Cordilheira dos Andes salpicada pela neve não sairá tão cedo da cabeça do jornalista. “A descida foi um absurdo. Eu não acreditava no que estava acontecendo”, recorda. A imagem abaixo fala por si só.

A lição que fica da cicloviagem

 

“Eu não tinha noção nenhuma do que era uma viagem tão longa. Tampouco da força mental que seria necessária ao encarar a estrada todos os dias sozinho a fim de ligar os dois oceanos em apenas um mês. Eu também não tinha noção da solidariedade que me atravessaria o caminho todos os dias, trazida pelas mãos de pessoas que tomaram para si meu objetivo de forma tão generosa, mesmo que por segundos (ou horas e até dias em alguns casos). Sem elas, seria impossível continuar. Assim como todas as mensagens recebidas fizeram diferença. Me ajudaram a empurrar os pedais quando a cabeça e os joelhos já davam sinais de cansaço. Voltei ao Brasil com outro pensamento sobre muita coisa. Os 1.939 km vão durar por muito tempo – arrisco dizer que serão eternos. E saber disso é a minha maior recompensa. Eu faria tudo de novo, sem uma mudança sequer”, conclui Diego.

https://www.ativo.com

Por Pedro Lopes

29/JAN/2019

Raios... Raios duplos!

 

Aprender na prática soa como um clichê, mas não posso deixar de reconhecer que tenho maior facilidade de aprender algo quando ele está relacionado a uma experiência. Ter experiências e consequentemente aprender são coisas que busco ao viajar de bicicleta.

 

Parafraseando uma velha propaganda de lingerie, posso dizer que o primeiro raio quebrado a gente nunca esquece. Foi no interior da Inglaterra, depois de 6 mil quilômetros pedalados na volta ao mundo. Só então comprei uma chave de raio e coloquei em prática as teorias que aprendi a respeito de centragem da roda.

 

Tudo é muito simples na teoria. Quando quebra um raio é só retirar, colocar outro e apertar. O problema é que quando um raio quebra o aro entorta, pois é a tensão de todos os raios juntos e em equilíbrio que suportam a roda.

 

Com o aro torto o ciclista pode ter problemas com os freios, pois as sapatas podem encostar-se ao aro, principalmente em freios v-break. A grande alavanca formada pelo “V” que lhe dá tanta eficiência, também obriga que as sapatas estejam muito mais perto dos aros que os antigos freios cantilever. Se não puder ou não quiser arrumar o aro, poderá simplesmente soltar o cabo de freio e continuar seu caminho assumindo todos os riscos de pedalar sem freios, valendo-se apenas do famoso freio de pé (colocar o pé no chão ou no pneu da frente).

 

A primeira vez que troquei o raio achei estranho, pois tive que entortar para fazê-lo entrar no local certo, depois acabou ficando reto de novo. A maior dificuldade é centrar o aro. Seguramente não ficará perfeito como quando ele sai da bicicletaria; lá o mecânico possui uma máquina especial que ajuda a identificar com precisão o que deve ser feito para centrar e “desovalar” o aro. Na estrada, o ciclista poderá utilizar a sapata de freio como gabarito para centrar o aro. O macete é ter paciência e apertar, bem lentamente, o raio preso no lado do cubo contrário ao lado da torção do aro, até que a roda circule sem tocar nas sapatas de freio. Na prática isso pode demorar horas para quem não está acostumado.

 

Aí tem sempre alguém que diz: “felizmente eu utilizo freios a disco e não preciso saber de nada disso”. Quando eu e a Rafa pedalávamos na Patagônia, em El Calafate (Argentina), encontramos Gustavo, um ex-velocista argentino fazendo uma grande viagem de bicicleta. Ele já estava com três raios quebrados em sua roda da frente. Contava que mesmo sendo argentino os mecânicos na Patagônia exploravam demais para trocar um simples raio e como utilizava freio a disco estava tudo bem. Isso é um mito! A roda da bicicleta funciona com o equilíbrio de força de todos os raios e, quando um arrebenta, a tendência é que outros fiquem sobrecarregados e também arrebentem. Enquanto conversávamos sobre isto, dei um jeito na roda do Gustavo.

Mais ou menos, veja os números e proporções para não assustar: em minha volta ao mundo rodei 46.620 km, o peso total da bicicleta variou entre 50 e 70 kg. Troquei cerca de 29 raios, mas nunca um raio da roda traseira do lado das catracas (roda livre ou cassete). Até o final da volta ao mundo, nunca me dei conta de que para trocar um simples raio da roda traseira do lado das catracas é preciso retirar a catraca. Não tem outra forma de fazer um raio passar pelo furo do cubo.

 

“Tá e daí?”

Daí que é preciso ter um sacador especial e uma chave chamada “chave de corrente” (não é aquela que falamos na outra matéria; esta é enorme e tem um pedaço de corrente atado a ela para fixar os dentes da catraca enquanto faz força para soltá-la). Em bicicletarias geralmente os mecânicos travam o cubo em uma morsa de tão dura que é esta operação, ou seja, sem chances de fazer este trabalho no meio da estrada: mesmo com todas estas grandes ferramentas, ainda será necessária uma morsa.

 

Como diria o Dick Vigarista: “raios... raios duplos!” Neste momento desejo expressar minha profunda revolta contra a farsa de que os grandes fabricantes de equipamentos estão desenvolvendo novas tecnologias para melhorar a vida dos ciclistas. Enquanto o mundo todo discute qual tamanho da roda é melhor, 26, 27,5 ou 29, ninguém pensa em fazer uma pequena alteração no desenho do encaixe dos raios aos aros. Infelizmente, só vemos esta solução em poucos produtos top de linha. Será preciso tecnologia avançada para mudar um simples design?

 

Na volta ao mundo tive sorte de nunca quebrar um raio destes, mas isso poderia mudar. Tinha que arranjar uma solução para este problema. Em uma viagem pela Alemanha consegui encontrar um equipamento raro e caro, paguei cerca de cinco euros por um par de raios flexíveis especialmente feitos com cabo de aço e um gancho na ponta para solucionar este problema.

 

Carreguei este equipamento por muitas viagens como um amuleto que serviu para que nunca quebrasse nenhum raio. Pouco antes de sairmos para fazer a viagem de Bariloche à Terra do Fogo é que percebi que de tão emocionado por ter encontrado o tal do raio flexível eu nem reparei que ele não servia para bicicleta aro 26 como a minha.

 

Partimos em viagem sem meu amuleto que a rigor nunca serviria para nada mesmo. Justamente um dia depois de termos tomado um desvio em uma estrada que já estava interditada foi que a bicicleta da Rafa inventou de quebrar o tal do raio traseiro do lado da catraca. Não preciso explicar como é ruim uma estrada de terra na Patagônia com o famoso ripio, agora imagine uma estrada que já está interditada há anos. Na manhã em que percebemos o raio quebrado sabia que tinha que consertar antes que quebrassem outros. Concentrei-me e senti o poderoso “espírito de MacGyver” tomando minha mente. Lembrei-me de que um amigo cicloturista comentou uma teoria simples de remediar este problema. Se tivesse preparado em casa seria melhor, mas tive que fazer em plena estrada. É necessário um raio um pouco mais comprido do que aquele da sua roda. Observe que em uma extremidade o raio possui uma rosca para fixar-se no nipple, que é aquela pecinha que fica encaixada no aro para receber o raio. Do outro lado possui um formato para travar nos buracos de encaixe do cubo.

Com um alicate de bico fino, aumente a curva do raio no ponto da trava e depois corte a trava. Pronto, é só enganchar no cubo e depois roscar no nipple. Não aperte muito, pois o raio não tem mais a trava e poderá soltar. O problema foi remediado e conseguimos pedalar em estradas ruins por mais uns 300 km sem que quebrassem outros raios (até o momento que quebrou o próprio aro, mas isto é outra história).

Contando assim até parece fácil, mas naquela manhã fazia muito frio e meus dedos congelavam no vento patagônico; eu era obrigado a ficar pondo e tirando as luvas durante o serviço. A maior dificuldade foi retirar o pedaço de raio que ficou preso ao cubo, demorei quase duas horas para executar esta tarefa.

 

Assim como o treinamento físico evita que a dor muscular sufoque o deleite de uma viagem de bicicleta, às vezes a prática em executar manutenção em sua bicicleta pode ajudar muito numa hora destas. Sempre indico aos cicloturistas aprender a fazer a manutenção em suas bicicletas, é melhor ficar tentando centrar uma roda na tranquilidade de seu quintal que no meio do deserto; o atraso de duas horas com a troca do raio alterou o ponto de nosso acampamento que ficou deste jeito no dia seguinte.

http://www.revistabicicleta.com.br

Por Antonio Olinto

27/JAN/2019

Vai viajar de bike pela Europa? Com esses cuidados você evita dores de cabeça

 

Muita gente que adora pedalar tem o sonho de passar por vários países do continente europeu em cima de sua bike.

Para quem decidiu tirar esse sonho do papel é importante tomar alguns cuidados para evitar que a sua viagem se transforme em um problema, ou que você fique pelo meio do caminho.

 

Confira essas dicas importantes para quem vai cair no mundo de bicicleta e não quer ter dores de cabeça.

 

Faça uma revisão completa

Se você vai viajar com o objetivo de conhecer a Europa pedalando é preciso garantir que a sua bicicleta não te deixe na mão.

 

Procure fazer uma revisão completa poucos dias antes do embarque, de preferência dizendo para o mecânico uma estimativa da distância que será percorrida.

 

Assim ele pode ajudar a descobrir que peças podem se desgastar mais facilmente e terem de ser substituídas no meio do percurso.

 

Contrate um seguro de viagem

Como você vai estar em um território até então desconhecido, nunca se sabe como o seu corpo pode reagir a alimentos diferentes, mudanças bruscas de temperatura e outros fatores que podem prejudicar a sua saúde.

 

Além disso você também está sujeito a problemas com a companhia aérea, como o extravio de bagagens ou até mesmo danos causados pelo manuseio incorreto.

 

Um seguro de viagem pode ser extremamente importante em um desses momentos, além de ser obrigatório para que a sua entrada nos países da União Europeia seja aceita.

 

Sites como o assistentedeviagem.com.br permitem que você simule o seu seguro e faça todo o processo online. Vale a pena e é obrigatório para quem vai pedalar pela Europa.

 

Utilize a embalagem correta

O primeiro cuidado que você precisa ter na hora de fazer o check-in e despachar a bicicleta e suas malas é com a embalagem.

 

A ANAC determina que as bicicletas precisam estar desmontadas (sem pedais e guidom), com os pneus vazios e devidamente embaladas, mas isso deixa a coisa meio vaga, então cada companhia acaba criando suas próprias regras.

 

Enquanto algumas exigem que a bicicleta seja embalada em produtos próprios, como cases, outras permitem apenas a embalagem em plástico bolha.

 

Por isso o melhor a se fazer é entrar em contato com a empresa aérea dias antes da viagem para evitar correrias outros transtornos na hora do embarque.

 

Cuidado com o tamanho e o excesso de peso

Também é preciso tomar cuidado com o peso para não exceder os 23 quilos da sua bagagem, e com isso ter de pagar um excesso que pode ficar salgado.

 

Quanto ao tamanho, a ANAC possui duas regras diferentes que devem ser levadas em conta na hora de despachar a sua bicicleta.

 

Em voos com destino à América do Sul a medida máxima da sua bicicleta deve ser de no máximo 292 cm.

 

Já para o embarque em voos que vão para a Europa e América do Norte as dimensões são mais reduzidas, com no máximo 158 cm.

 

Essas medidas são o resultado da soma da largura, altura e comprimento da sua bagagem.

 

Dando atenção especial a esses pontos a sua viagem de bicicleta pela Europa tem grandes chances de ser repleta apenas de histórias boas para contar quando você voltar pra casa.

http://www.revistabicicleta.com.br

Por Jordana Hedler

24/JAN/2019

Nova rota de bike vai conectar 8 países na Europa

A recém-inaugurada rota Trans Dinarica vai passar por países dos Balcãs Ocidentais

Que tal conhecer países da Europa de bike seguindo um único percurso? A Trans Dinarica é uma nova rota de ciclismo que irá conectar oito países europeus. Atualmente o caminho passa pela Eslovênia, Croácia e a Bósnia e Herzegovina – o plano é adicionar Montenegro, Albânia, Kosovo, Sérvia e Macedônia nos próximos meses.

 

O objetivo é criar uma rota que leve os visitantes a percorrer algumas das paisagens mais cênicas da região dos Bálcãs Ocidentais, enquanto visitam cidades, aldeias de montanha e Patrimônios Mundiais da UNESCO ao longo do caminho.

A trilha, na verdade, é paralela à famosa Via Dinarica, que é uma rota popular de caminhada de longa distância que atravessa a região também. Quando concluída, a ciclovia percorrerá cerca de 2.000 km.

Rota projetada pela Trans Dinarica:

De acordo com o site da Trans Dinarica, a rota passa por diferentes superfícies, que incluem trilhas de mountain bike, com cascalho e trechos de asfalto. A Trans Dinarica passa por uma ampla variedade de paisagens da região: montanhas, lagos, rios alpinos e cidades no coração dos Alpes Dináricos (que dá o nome à rede).

 

A ideia do Trans Dinarica começou em 2016, quando três operadoras de turismo – da Eslovênia, Croácia e Bósnia e Herzegovina – se uniram para criar um corredor que se estendia pelos Balcãs Ocidentais, que é frequentemente ignorado pelos turistas. A missão era combinar um ótimo ciclismo (com ênfase no mountain bike) com a densidade da experiência do mundo antigo da região.

 

Recentemente, um grupo de ciclistas partiu de Sarajevo, a capital da Bósnia e Herzegovina, em um passeio exploratório de 320 km para iniciar a expansão da rota em direção ao sul para Podgorica, capital de Montenegro.

 

Ainda não se sabe quanto tempo será necessário para adicionar as outras cinco nações balcânicas à Trans Dinarica, mas os planos de expansão já estão em andamento. Por agora, a trilha está em funcionamento e tem muito a oferecer, incluindo alguns passeios.

http://gooutside.com.br

21/JAN/2019

A dica mais importante para se preparar para uma grande viagem de bicicleta

 

A bicicleta tem sido apontada como uma solução simples para grandes problemas. Talvez, por isso mesmo, o cicloturismo é uma ideia cada vez mais aceita e corrente entre as pessoas que desejam algo mais que uma viagem de entretenimento. Tenho visto aumentar o número de pessoas que se lançam no desconhecido em grandes viagens de bicicleta. Frequentemente recebo e-mails com perguntas diversas e respondo cada uma, entretanto, fica o sentimento de que poderia falar mais, comentar sobre tantos pequenos detalhes que as pessoas não sabem que deveriam saber. É isso mesmo, com pouca experiência uma pessoa não sabe perguntar sobre o que poderia fazer alguma diferença no planejamento de uma grande viagem de bicicleta.

 

Em nossa página, livros e dvds procuramos repassar o que aprendemos sobre cicloturismo. No entanto, para simplificar as coisas, em cada guia os comentários se restringem ao circuito específico, nunca havíamos escrito sobre como se preparar para uma grande viagem de bicicleta. Aproveitamos a segunda edição do livro 7 Passos Andinos para fazer um capítulo especial comentando, de forma sistemática, os assuntos que consideramos importantes na preparação de uma grande viagem de bicicleta.

 

O texto é como uma conversa entre cicloturistas que se encontram pela estrada e contam as experiências, dificuldades, problemas e soluções que adotaram. Não queremos ditar regras, acreditamos que cada um deve desenvolver sua própria forma de viajar.

 

A lista de temas é enorme, desde as razões para a escolha de cada equipamento até macetes simples do dia a dia de acampamentos como “lavar a louça sem água”, passando por assuntos práticos de manutenção e mecânica emergencial até temas profundos, como o medo em suas várias manifestações.

Depois de meses escrevendo percebemos que, se estivéssemos realmente conversando com alguém, seria uma conversa de dias. Quando o texto desse “pequeno” capítulo especial de dicas ficou pronto, contava com mais páginas que toda a história do livro 7 Passos Andinos.

“Tá Olinto, então, fala logo qual é a tal da dica mais importante para se preparar para uma grande viagem de bicicleta”...
Em nossos guias de cicloturismo, procuramos informar tudo o que é necessário saber com a precisão de duas casas depois da vírgula. Para nós, isso pode ser importante para quem precisa calcular o grau de dificuldade e o tempo necessário para aquele circuito específico. Quem se lança em uma grande viagem de bicicleta não está tão preocupado com isso, pois busca exatamente o desconhecido.

Parece haver um senso comum em nosso país que correlaciona o sucesso de uma aventura a um minucioso planejamento. Talvez esta seja a herança de aventureiros que se lançaram ao mar ou se propuseram a escalar difíceis montanhas.

Uma viagem de bicicleta pode ser muito simples, isso possibilita ao cicloturista viver uma grande aventura na viagem ao invés de executar um complexo projeto de um circuito que sai de um ponto e chega a outro. Vejo no cicloturismo um caminho amplo que a rigor qualquer um pode trilhar. Ser o primeiro a chegar a um lugar físico que nunca ninguém conseguiu chegar é um conceito de aventura atrelado ao século XIX e tem pouco sentido nos dias de hoje. Pouco importa que todo o planeta já tenha sido explorado, continuo desejando conhecer lugares para minha própria satisfação, independente de ser o primeiro ou não.

“A coragem é a mais importante de todas as virtudes,pois sem coragem, você não pode praticar qualquer outra virtude de forma consistente.”

Além da viagem para conhecer lugares e pessoas, o cicloturista pode conhecer e enfrentar a si mesmo chegando a um nível de autoconhecimento superior. Acredito que não há como fazer uma viagem para conhecer bem o mundo externo sem fazer a mesma viagem para conhecer bem seu mundo interno. Na atualidade, vejo que a última fronteira não está naquele local distante, mas sim, dentro do próprio homem. 

 

A aventura não pode ser medida em quantidade de quilômetros, melhor observar a distância que cada um toma daquilo que lhe é conhecido e quanto cresce e aprende com as experiências do caminho. Por exemplo: se em sua viagem tudo aconteceu como planejado, talvez tenha percorrido somente os caminhos de seu universo conhecido. 

 

Por outro lado, se utilizarmos “explorar o desconhecido” como conceito de aventura, como poderíamos planejar uma verdadeira aventura? Afinal, como podemos prever e nos preparar para o que realmente não conhecemos? É como desenhar um cubo em uma folha de papel, a perspectiva é somente a representação da terceira dimensão que não cabe nas duas dimensões do plano. 

 

Por tudo isso, vejo que o conceito de aventura é relativo e está intrinsecamente ligado ao histórico de cada um. Existirá uma verdadeira aventura sempre que conseguirmos ultrapassar as fronteiras do que é conhecido e de tudo aquilo que esta consciência pode imaginar e planejar. Quando entramos num “terreno desconhecido” e a dúvida nos abraça, o sabor da aventura aumenta e a viagem passa a ser mais especial.

 

Sendo assim, acredito que, mais importante que tomar o trabalho de organizar uma planilha do excel com datas, locais e horários de saída e chegada, é importante trabalhar a coragem. Não é uma questão de se tornar um destemido valentão. A coragem nos tempos atuais pode ser simplesmente ir contra um sistema que impõe o medo como padrão de relacionamento. A coragem pode estar em se desapegar enquanto toda a sociedade trabalha com a lógica do “possuir” e do “acumular”. Falo de uma coragem que vem da fé em seu sentido amplo que significa “acreditar”. 

Acreditar que você, com sua bicicleta, pode enfrentar o mundo.

 

Mais do que conseguir uma resposta para cada evento imaginário que possa ocorrer em uma viagem, a melhor preparação é feita internamente. Às vezes é preciso aceitar e abraçar os problemas que certamente virão, mas ter sempre a certeza interior de que encontrará uma saída com suas capacidades e seus diminutos equipamentos de cicloturista.

 

“Essa história tá muito complicada Olinto, não tem uma dica mais simples? Algo como tomar muita água em dias quentes?”

 

Para simplificar vou utilizar uma frase de Maya Angelou: “A coragem é a mais importante de todas as virtudes, pois sem coragem, você não pode praticar qualquer outra virtude de forma consistente.”

É por isso que dizem que a pior viagem é aquela que nunca começou...

 

Para compreender melhor a frase, simplesmente imagine alguém que, tendo nascido com uma voz maravilhosa, não tem coragem de se expor e cantar em um palco. De que adianta ter um planejamento perfeito, saber de tudo, estar treinado e forte se nunca tiver a coragem de partir e se lançar na aventura de uma grande viagem de bicicleta? É por isso que dizem que a pior viagem é aquela que nunca começou...

 

Parte de nosso trabalho é fazer com que as pessoas tomem riscos e se lancem em aventuras de bicicleta. Minha experiência tem demonstrado que a vida em si já é uma aventura, temos somente a ilusão de estarmos seguros por isso ou aquilo e, a rigor, quando nos lançamos no desconhecido de uma grande viagem de bicicleta, nem sempre estamos realmente aumentando nossos riscos mas, quase sempre, estamos nos desenvolvendo. 

http://www.revistabicicleta.com.br

Por Antonio Olinto

18/JAN/2019

Um rolê de bike por cinco ilhas do litoral paranaense e paulista

Pedal pelas ilhas do Paraná e de São Paulo segue por centenas de quilômetros de praias isoladas

Injusta é a fama de que o Paraná não tem litoral. Embora o Estado registre a segunda menor extensão de praias do País, possui um dos cinco ecossistemas mais notáveis do globo terrestre. O roteiro de pedal a seguir inclui três ilhas no Paraná: Ilha do Mel, Ilha das Peças e Ilha do Superagui, além de mais duas ilhas no Estado de São Paulo: Cardoso e Comprida – esta última para ninguém botar defeito. Eu e um grupo de amigos antecipamos a compra das passagens de volta para capital saindo direto da Ilha Cumprida, o que nos garantia o retorno à capital sem nenhum imprevisto.

1° dia: São Paulo – Curitiba – Morretes – Ilha do Mel (48 km de pedal)

Ônibus saem do terminal rodoviário Tietê à meia-noite e chegam à rodoviária de Curitiba seis horas depois. A poucos metros do terminal, fica a estação ferroviária, onde você deve pegar o trem para Morretes. Nessa viagem, as bicicletas viajam mais confortáveis que seus donos, num vagão exclusivo para elas. A caminho do mar, a descida é coberta pela rica Mata Atlântica, que guarda uma das únicas partes intocadas da floresta original que ainda sobrevive no sul e sudeste do País. E o charme dessa viagem de três horas está justamente em descer a Serra do Mar curtindo a altura dos penhascos e das pontes férreas através da janela da locomotiva.

 

Em Morretes, prepare as magrelas e comece o pedal rumo à cidade de Paranaguá pelo acostamento da rodovia BR-227. Será perto do meio-dia e o calor pode chegar aos 40o C na beira do asfalto – portanto, use roupas leves e hidrate-se muito bem. Depois de 48 km de estrada, chega-se a Paranaguá, onde você se despede da civilização e embarca na balsa que cruza o mar até a ilha do Mel, numa travessia de menos de meia hora. As bikes viajam no teto do barco, reluzentes ao sol. Graças aos esforços de muitos, na ilha não entra veículo motorizado, e as magrelas são o melhor meio de transporte para percorrer suas praias.

2° dia: Ilha do Mel – ilha das Peças – ilha de Superagui (25 km de pedal)

Depois do pernoite em uma das confortáveis pousadas da ilha, acorde cedo para pedalar rumo à ponta do Hospital, no extremo norte da ilha. O objetivo é pedalar o máximo que puder pela areia, já que a maré alta logo o espremerá contra a restinga do manguezal. Depois de 8 km, você alcançará a Fortaleza de N. Sra. dos Prazeres, construída em 1767 para proteger Paranaguá. Logo acima do Forte há uma trilha que leva até o mirante, de onde avista-se as outras ilhas inclusas no roteiro da expedição.

 

Depois do mirante, retorne à praia de Brasília pedalando por um caminho sinuoso, paralelo ao mar, chamado de “Trilha dos postes”. É bom chegar à praia até as 10 horas para pegar o barco rumo à ilha das Peças. Garanta sua passagem no cais, antes de começar o pedal do dia. A embarcação leva turistas para avistar os botos-cinza, espécie que vive bem em frente ao cais.

 

A partir desta travessia você pedalará por um Patrimônio Natural da Humanidade, formado pelas ilhas das Peças e de Superagui, ambas com mais de 21 mil hectares de área preservada. Siga por 12 km pedalando com vento a favor entre centenas de gaivotas que sobrevoam suas cabeças. No fim da praia, há um canal de 150 metros, do lado oposto da ilha. A única forma de atravessá-lo até a vila de Superagui, um bom local para o segundo pernoite, é um pescador te avistar da outra margem e te dar uma carona.

3° dia: Ilha do Superagui – Ilha do Cardoso (48 km de pedal)

A diferença entre os terrenos das duas ilhas é brutal. Ao contrário da ilha das Peças, a areia de Superagüi é fofa o bastante para perdermos o controle da bicicleta. São 4 km até um rio de mangue escuro, que só pode ser atravessado na maré baixa. Da outra margem, são 30 km numa praia totalmente deserta, em areia dura, até chegar à barra do Ararapira, divisa dos Estados do Paraná e São Paulo.

 

Superagui foi declarada Parque Nacional em 1989 e faz parte do complexo estuário formado por Cananéia, Iguape e Paranaguá. O Parque não é aberto ao público, mas seu entorno pode ser visitado em atividades de baixo impacto ambiental (como trekkings e pedaladas). Para atravessar a barra do Ararapira, basta que um pescador lhe aviste do outro lado da margem. O barco o deixará em uma cabana que serve comida caseira. A partir deste ponto são só mais 14 km de pedal até o vilarejo de Marujá, no Parque Estadual da Ilha do Cardoso. Quase 90% dos 140 km² da ilha são cobertos por Mata Atlântica costeira ainda virgem.

 

4° dia: Ilha do Cardoso – Cananéia – ilha Comprida – São Paulo

Marujá é um povoado simples e hospitaleiro. Apesar de não dispor de energia elétrica, a comunidade atrai uma porção cada vez maior de turistas à procura de sossego e balada. A boemia noturna estende-se até o alvorecer na praia, e o último dia de pedal pode vir acompanhado de uma indesejável companheira: a ressaca.

 

Pegue um barco para a cidade de Cananéia, numa viagem de três horas. De lá, faça a última travessia de balsa até a ilha Comprida. Pela frente, a maior extensão litorânea da expedição: 59 km de uma praia infinita. Na metade do caminho há algumas barracas de lanches, onde é aconselhável se hidratar por causa do sol forte. No fim do pedal, pegue o ônibus da InterSul com destino a Sampa.

 

O que levar

– 1 mochila de hidratação ou 2 caramanholas ou cantil

– 1 alforge de 30 litros (bagageiro da bicicleta)

– 1 moletom e 1 anorak (capa de chuva e vento)

– Sapatilha ou tênis + 1 par de chinelos ou papete

– Roupas de tecido sintético, lanterna de cabeça e canivete

– Capacete, kit reparo, câmera de reserva, bomba de ar

– 12 barras de cereal, 12 de proteínas e 8 de carboidratos

– Kit primeiros socorros, filtro solar, boné e óculos de sol

 

Dicas

– Faça o possível para não deixar sua bagagem molhar, ou ela passará a pesar o triplo

– Informe-se com os locais sobre os horários das marés

– Faça uma manutenção diária na bike, para ela aguentar firme até o fim da jornada

(Reportagem publicada originalmente na Go Outside de maio de 2007 e atualizada em janeiro de 2019)

http://gooutside.com.br

Por Alexandre Cappi

18/JAN/2019

Trilhas Alagoanas - Um mundo de possibilidades para o MTB nas Alagoas

Engana-se quem resume Maceió – AL enquanto terra de sol e mar. Há tanto mais para ver nos recônditos interioranos da capital e região, entre as lagoas que nomeiam o cenário e que definem a paisagem. Infindáveis caminhos de terra serpenteiam o que a vista capta, escondendo nos últimos grotões de mata atlântica o silêncio das águas claras, convidando para um mergulho restaurador e sem pressa após uma tórrida pedalada. Há uma história a ser recontada, banhada na superação de um povo que absorve, todos os dias, o flagelo da cana-de-açúcar e que se redesenha, sublime, em artefatos feitos do barro das trilhas. Atreva-se a pedalar neste encanto de Brasil, entre o encontro das águas do mar com as doces lagoas. Certamente, alegres surpresas estarão esperando a cada curva.

 

O som da tapioca recém-feita e a visão do sol às 5 h da manhã preparam os sentidos para o que há de vir. Da janela do salão de café do bikefriendly Hotel Ponta Verde, visibilizo a ciclovia, o calçadão, pessoas correndo, caminhando e pedalando sobre ambos, além dos coqueiros vergados em reverência ao mar em todo o seu “verde com um não sei quê de turquesa”.  

 

Há quase seis meses vínhamos tratando com o Claudovan Freire a possibilidade de visitá-los a fim de produzir uma matéria. A ideia e o convite formulado por Claudovan prometiam ótimas pedaladas, mas de certa forma, escondiam um universo que só vim a descobrir quando entre eles me encontrava.

 

Meu anfitrião fez questão de reunir personagens importantes de vários grupos de pedal para compor a comitiva que iria me levar a conhecer um pedaço do tanto que detém sob sua guarda, um sem-número de trilhas inventariadas e mapeadas pelo incansável Sérgio Novis. Juntos, Claudovan e Novis reuniram esforços para que os dois dias que permaneci aprendendo entre eles fossem suficientes para prender algo de mim às Alagoas.

 

Um dos roteiros que realizamos tinha início na Ilha de Santa Rita, por onde beiramos os canais que ligam a Lagoa Mundaú com a Lagoa Manguaba, região onde se encontra a grande quantidade de mata atlântica original ainda preservada. Os caminhos de terra ribeirinhos ofereciam uma frondosa cobertura de árvores em forma de túnel verde, tornando o pedalar confortável diante do sol impiedoso que já dava noções de sua inclemente presença. Ao atravessar pelo Broma, chegamos ao Sítio de Cumbé com seu denso coqueiral margeado por águas convidativas.

Ao perguntar para o Claudovan qual o caminho que tomaríamos, ele apontou para a outra margem, onde ficava Massagueira. Inusitadamente, para lá atravessamos de barco-táxi levando as bikes conosco. A conversa fraterna entre tantos bikers fez a travessia de menos de cinco minutos inesquecível. A prosa irrigada por risos brindou conhecer o Gaúcho, a Renata, a Carmen, o Phillipe, o Mota, a Amanda e a Mi, o Yuri e o Wagner, além do fantástico Arestides Porangaba, um jovem de 73 anos que é uma referência para seus companheiros. 

 

Não se pode deixar de apontar Massagueira como o lugar onde é possível experimentar a melhor comida regional feita com frutos do mar e de lagoa, tendo como carro chefe o sururú.

 

Identifica-se no caminho feito de lagoa, coqueirais e céu, aspectos regionais em transição, seja pelos pescadores tecendo a rede ou pelos falares com um sotaque generoso da menina que, ao nos ver passar, tomou a sua bicicleta e decidiu, simples assim, nos seguir, como se o sonho de ir além de sua realidade houvesse trazido guias.

 

Ao chegar no município de Marechal Deodoro, encontra-se uma fagueira sombra em frente à matriz, onde se rega o ânimo com um caldo de cana gelado e com algumas mangas doces coletadas pelo trajeto. A presença de grupos de mountain bikers na região já faz parte do dia a dia, porém, sempre dão margem a uma observação minuciosa por parte das senhorinhas sob a sombrinha colorida ou dos moleques sentados à soleira de casarios coloniais, muito bem cuidados, embora singelos.

 

Na travessia da cidade, após contemplar o entorno usando uma ciclovia, parada obrigatória no Museu Casa Marechal Deodoro, onde viveu o proclamador da República até os 16 anos. Patrimônio conservado aberto ao público e com orientações sobre a história em torno do personagem, contendo objetos pessoais e dando uma noção mais próxima da realidade de como viviam naquele período. Uma aula de história do Brasil gratuita.

Na sequência, o caminho bordeado por cana-de-açúcar aumenta consideravelmente o calor do pedal, martirizando os seres que não estão acostumados com tamanha força de quase 39 graus. 

 

Ao reclamar ao Novis por um recanto longe do sol, a resposta veio da seguinte forma: “calma, você não perde por esperar, o Lago Azul está logo ali adiante”. Está bem, pensei, um lago azul como qualquer outro que eu já tenha visto, ou seja, nem tão azul assim, desdenhei em pensamento. Quando, ao final de um tramo com palha de cana pelo chão e cheiro de chorume da mesma, avista-se um grotão, nem mesmo a mais fértil das imaginações poderia criar tal visão, um lago plenamente azul clamando por ser visitado. Este lugar é um brinde à pedalada, um momento de confraternizar com os parceiros que nos levaram até lá e agradecer. 

 

Prosa, imersão em águas refrescantes, sorrisos fartos e a gentileza humilde deste povo. Como não se sentir em casa?

 

Refeitos, seguimos para o término da pedalada que cumpriu 62 km de terra.

 

No dia seguinte, retomamos o pedal, desta vez, no município de Capela, distante 65 km do litoral, terra de Claudovan, para um percurso de 47 km, porém, com muita serra e a promessa do calor escalda-miolos sobre nós. A região é a fronteira entre o litoral e o sertão, afamado pela seca abrasadora. Na reunião para a partida, em um posto de gasolina, lá estavam mais de 40 ciclistas, homens e mulheres, jovens e jovens de outra idade, pais e filhos, de diversos grupos reunidos em nome da pedalada. Alegres, se aproximaram e nos deram as boas-vindas, calorosamente. Possivelmente, uma das melhores coisas é ser recebido, seja aonde for, com hospitalidade, e isto não faltou em nenhum momento em Capela.

Novis comenta que o relacionamento entre estas “tribos” do pedal atingiu o que se chama de maturidade, já que participantes de um grupo são geralmente bem-vindos noutro e muitas vezes o convite e troca de informações sobre uma programação de trilha (geralmente através das mídias sociais), circula em vários grupos ao mesmo tempo, aumentando assim o leque de opções de quem quer pedalar. Grupos como o Singletrack Adventure, o Pedalando Bem Acompanhado (PBA) e o Capela em Trilhas são verdadeiramente parceiros e têm em muito valorizado esta atividade em Alagoas.

 

Ao dar início à pedalada, nota-se que o cenário era bastante distinto do que havia feito no dia anterior. Pedalando entre Capela e a vizinha Cajueiro, entre a Serra do Amaro e Serra do Boi, os sinais da ilógica realidade da cana-de-açúcar não permitem que fiquemos indiferentes ante a pobreza que gera, neste estado que já foi um dos maiores produtores nacionais. A docilidade das gentes pelo caminho contrasta com a brutalidade da monocultura que suga tudo o que têm e por onde passa. Não, não há como não ver que ainda vivemos tempos coloniais, onde a concentração de riqueza nas mãos de poucos faz por sucumbir a natureza e a expectativa de uma vida justa e digna. Ao borde do caminho, dezenas de casas em pé por pura sorte são um símbolo de resistência ante a escassez de recursos. Mas, o cicloturismo pode estar transformando isto de forma silenciosa, é o que queremos crer.

 

Aos poucos, percebe-se que toda a humildade de Claudovan Freire guarda um profundo respeito por este lugar e que se materializa ao levar mais e mais ciclistas a conhecer seu pedaço de mundo e conviver com sua gente. É notável as dezenas de pessoas que, ao cruzar com o experiente mountain biker, o saúdam pelo nome, com gestos fartos, estejam nas cercas incompletas de taquara, caminhando pelas estradas com bacias sobre a cabeça e debaixo do sol sem piedade, ou ainda incógnitos por trás de uniformes usineiros. A melhor forma de dar-se conhecer é acolhendo, e Claudovan tem feito este trabalho de tornar a realidade de seu povo conhecida, através da promoção do cicloturismo. Obrigado!

 

O sorriso franco e carregado de esperança do moleque sobre a bicicleta, ao nos ver passar diante de sua casa, emociona. A presença regular de cicloturistas vai trazendo uma outra realidade para a região e talvez, assim esperamos, possibilite um futuro melhor.

Em uma parada ao lado de um caminhão de cana, a única sombra disponível em meio a devastação. Os olhares vislumbram as serras e o verde que ainda resiste por conta da cota que não privilegia a cana neste bioma. 

 

Ao finalizar o pedal, não se pode deixar de conhecer, em Capela, o ateliê do renomado artista João Carlos da Silva, o João das Alagoas, o qual retrata em sua obra, o cotidiano nordestino. No dia 04 de agosto de 2011, o Mestre João das Alagoas foi declarado como Patrimônio Vivo Cultural de Alagoas e tem ensinado a diversos discípulos, como o Cláudio Henrique, irmão de Claudovan, a sua arte que imita a vida. Um brinde aos olhos.

 

Durante os últimos anos, Novis vem mapeando uma grande quantidade de trilhas apropriadas para o cicloturismo. Ele afirma que o estado de Alagoas está apenas parcialmente desbravado em termos de cicloturismo e trilhas de MTB, pois há ainda muito o que se descobrir, numa região de infinita beleza e diversidade geográfica. Perguntei ao Novis sobre o que falta para a consolidação dos caminhos e trilhas da região de Maceió e ele crê na possibilidade de criação de um Circuito Cicloturístico unindo Maceió e cidades próximas. Basta vontade política, porque atrativos naturais e culturais existem em qualidade e quantidade. 

Ele conta que o grupo Singletrack Adventure tem a ambição de, junto com os órgãos de turismo da região, consolidar e oferecer algumas rotas cicloturísticas. A primeira delas ligando o litoral às serras e algumas cidades num entorno de 80 km da capital Maceió (Capela, Cajueiro, Viçosa, Murici e União dos Palmares), e a segunda desbravando o litoral de sul ao norte, incluindo a renomada Costa dos Corais e sua enorme opção de praias paradisíacas, como Japaratinga e São Miguel do Milagres.
 

Para concluir, ele orienta que existe também uma opção mais longa que é a Rota do Imperador, traçado histórico já pronto ligando a foz do Rio São Francisco ao alto sertão que tem como ponto forte a histórica e belíssima cidade de Piranhas, região onde foi morto o famoso cangaceiro Lampião.

 

Então, agende sua visita, prepare o protetor solar, aguce os sentidos. Maceió e região está pronta para receber cicloturistas em busca de experiências maravilhosas. Eu estou voltando em breve. Algo de mim está preso às Alagoas.

 

E viva a bicicleta, sempre! 

 

João das Alagoas

Rua Pio de Barros, 114.
Capela-AL - Fone: (82) 3287-1430

 

Hotel Ponta Verde

Av. Álvaro Otacílio, 2933 - Ponta Verde
Maceió – AL – Fone: (82) 2121-0040

Revista Bicicleta 

Por Therbio Felipe M. Cezar / Colaboração Sérgio Novis

07/JAN/2019

Manutenção na viagem

 

A bicicleta que utilizei na volta ao mundo rodou quase 50 mil quilômetros. Não posso deixar de imaginar que, se fosse para comprar um automóvel com essa quilometragem, teria que dar uma boa olhada antes de fechar o negócio. Motor, câmbio, embreagem, suspensão, bateria, lataria, portas... Tantos detalhes ocultos que podem nos deixar na mão. As concessionárias automotivas costumam oferecer promoções de revisão de férias, com um sem número de itens para o motorista poder viajar sossegado até a praia mais próxima. Mas quais seriam os itens essenciais a se verificar na bicicleta para uma viagem? Ao contrário de um carro, uma bicicleta se mostra toda sem mistérios para quem estiver disposto a observá-la com o mínimo de atenção.

 

Levante cada roda e impulsione-a suavemente com a mão para conferir se o freio está pegando. Basta olhar as sapatas ou pastilhas de freio para perceber seu desgaste. A corrente também está lá, exposta, e qualquer um pode perceber quando fica suja. Mesmo sem olhar, só pelo ruído, dá para saber que falta lubrificação.

 

Geralmente enquanto estou numa parada de descanso, aproveito para observar se tudo está de acordo, se nada está quebrado ou solto. Verifico cada parafuso, pois eles podem ir se soltando. Uma folga num parafuso pode rompê-lo ou causar a quebra de outra peça como, por exemplo, o bagageiro que se apoia nele.

 

Após pedalar por rodovias, sempre observo os pneus a fim de retirar pequenos cacos de vidro que se prendem à borracha e que vão penetrando aos poucos até atingir a câmara de ar.

 

O maior medo de quem possui um carro velho é ligar o motor e o mecânico dizer “está batendo válvula”, ou “a biela deve estar gasta”, ou ainda pior: “parece que tem um ruído no mancal do braço superior da rebimboca da parafuseta. A única saída é abrir para verificar”...

 

Numa bicicleta não é preciso ter ouvido de violinista para detectar problemas, pois os rolamentos são as únicas partes que podem oferecer obscuridade e/ou complexidade na observação de seu desgaste. Para evitar surpresas, teste periodicamente os rolamentos de sua bicicleta.

 

Cubos de pedal, cubos de roda, movimento central e caixa de direção, cada rolamento deve ser girado separadamente para saber seu estado de funcionamento. Tudo deve rodar livre e suave. Quando enrosca, pode significar sujeira ou desgaste. Se o rolamento for selado, deverá ser substituído, caso contrário poderá ser aberto, limpo e engraxado.

 

Os rolamentos não podem ter outro movimento além de rodar. O chamado “jogo” é uma folga causada pelo desgaste ou por falta de aperto, neste último caso, poderá gerar desgaste prematuro. Para verificar a folga no rolamento de roda, segure o aro com a mão e force de um lado para o outro como se estivesse tentando encostar o aro no garfo. No caso do rolamento de direção, é só empurrar a bicicleta para frente e para trás com o freio dianteiro acionado. A folga no movimento central é imediatamente perceptível, pois a coroa começa a jogar de um lado para o outro enquanto pedalamos e tende a encostar no passador de marchas.

 

Quando as esferas, as bacias ou os cônicos (componentes do rolamento) estão desgastados, aparecem pequenos buracos que impedem o aperto correto. As esferas são as mais fáceis de substituir. Durante uma viagem, nem sempre conseguimos trocar os cônicos ou as bacias, nesse caso, optamos por deixar uma pequena folga extra no rolamento para que se mantenha rodando livremente.

 

Limpar os rolamentos de roda é uma manutenção que costumava fazer a cada seis meses na volta ao mundo. 

Aprendi a fazer a manutenção dos cubos quando ainda era criança, mas no começo da viagem de volta ao mundo esse trabalho tomou outra dimensão, permitam-me contar essa história...

 

Após pedalar por um tempo nos Pireneus, segui em direção aos Alpes pelo sul da França e, no meio de uma tarde ensolarada, depois de atravessar Toulouse e Castre, passa por mim um grupo com bicicletas de estrada, como se fosse um pelotão de competição.

 

O último dos ciclistas era um pouco mais velho que os outros e, quando me viu, diminuiu a velocidade, deixando o grupo para puxar conversa comigo. Um pouco em inglês, um pouco em francês, consegui explicar o que estava fazendo.

Muito simpático, o francês contou que era diretor do departamento de cicloturismo do clube de ciclismo da cidade de Castre. Ao saber a minha intenção de roteiro, ele me convidou para passar a noite em sua casa, pois morava perto do caminho que eu seguiria.

 

Nas conversas fui percebendo que era uma pessoa realmente especial. Contou que fez uma viagem de bicicleta pelo Canadá e Estados Unidos. Nada de diferente até ele completar: “viajamos com um grupo de cegos”.

 

A princípio, imaginei que fosse uma questão de erro na minha interpretação, mas a mímica para expressar cegueira é muito fácil e clara de se entender. Impressionado, perguntei: “mas como um cego pode viajar de bicicleta?”

 

Mostrando um álbum de fotos, ele explicou que era um grupo com várias bicicletas duplas (tandem), onde havia um vidente na frente e o cego pedalava atrás. Ele comentou: “eles não podem ver as paisagens, mas podem sentir tudo de forma mais intensa que um vidente. Eles adoravam a sensação do vento no rosto e da liberdade que a bicicleta proporciona”.

 

Era mês de agosto e, como estávamos longe da linha do Equador, o sol mantinha-se no céu por mais tempo. Após muita conversa, meu anfitrião me perguntou: “quando foi a última vez que fez revisão nos cubos de roda?”

 

Não havia completado três meses de viagem e tinha pedalado menos de 5.000 km. Sem constrangimentos, expliquei que minha bicicleta era nova e que não era preciso engraxar.

 

Com cara de espanto ele retruca: “não se pode confiar na lubrificação de fábrica, depois de utilizar um pouco a bicicleta o correto seria revisar e reapertar. O que acha de fazermos uma verificação?”

 

Ele levou-me à sua “oficina” e, a seu comando, abrimos os cubos, limpamos e observamos cada esfera, os cônicos e as bacias. O trabalho foi feito com uma incrível assepsia, parecia que preparávamos uma cirurgia.

 

Depois de engraxar e montar tudo, fizemos o aperto das porcas que travam os cônicos contra as esferas e, quando eu já ia montando a roda na bicicleta, ele me interrompeu para mostrar algo simples, mas que demonstra o grau de cuidado com a bicicleta na cultura do país berço do Tour de France. 

 

Apoiando a roda com a mão esquerda ele delicadamente tocou o eixo com a ponta do polegar e do indicador direitos, fechou os olhos e girou lentamente. Depois comentou: “o rolamento deve estar bem apertado, mas não pode travar em momento algum. Fechando os olhos, poderá se concentrar e sentir o movimento das esferas. Agora faça você”.

 

Emocionando, percebi que estava recebendo uma lição de um sábio mestre, algo que a princípio parecia fora de propósito, mas que o tempo mostraria as vantagens. Foi como se estivesse no filme Karate Kid e o Senhor Miyagi me dissesse: “OlintoSan... Para ter “bom bicicleta”, deve sentir rolamentos... Feche olhos e sinta rolamentos... Não está bom, reajusta...  De novo... De novo... Lembrar sempre OlintoSan, tem que aprender sentir rolamentos...”

Talvez, mais do que o culto nacional à bicicleta, a convivência com os cegos na viagem tenha aberto a visão de meu amigo francês. De toda forma, passei a cuidar melhor dos rolamentos a partir daí e, com exceção de duas esferas do cubo dianteiro, terminei a volta ao mundo com os mesmos cubos que saí do Brasil.

 

No próximo capítulo: Manutenção da corrente em viagens – “A vingança do discípulo de Shaolin”. 

Revista Bicicleta

Por Antonio Olinto

19/DEZ/2018

As principais dicas para fazer Cicloturismo em Portugal

 

Cicloturismo em Portugal – Visitar a “terrinha” virou uma grande tendência entre os turistas brasileiros que têm a oportunidade de viajar para o exterior.

Em 2005, a quantidade de brasileiros que viajaram para Portugal foi inferior a 180 mil. Em 2017, no entanto, esse número chegou a incrível marca de 869 mil turistas.

 

Motivos para viajar para lá não faltam. Além de Portugal ter algumas das tarifas mais baixas para se viajar para fora da continente americano, os laços culturais e linguísticos entre os dois países tornam a viagem fácil e acessível a qualquer um.

 

E se você já esteve viajando de bicicleta em algum país onde não consegue se comunicar com os habitantes, deve saber bem o valor disso.

 

Pensando no país como um excelente destino para ciclistas, no post de hoje passarei algumas das principais dicas para fazer cicloturismo em Portugal.

 

As melhores épocas do ano

O país tem um dos climas mais agradáveis da Europa (quiçá do mundo) e é possível realizar cicloturismo em Portugal o ano todo, mesmo que haja épocas melhores que outras no ano para viajar de bike por lá.

Nunca é demais lembrar que as estações em Portugal (e em todo o hemisfério norte) são opostas às do Brasil. Ou seja, o inverno é de dezembro a março, a primavera de março a junho, o verão de junho a setembro e o outono de setembro a dezembro.

 

A tabela abaixo (retirada da Wikipedia) mostra a temperatura e chuva ao longo do ano para a cidade de Lisboa, de modo a servir de referência. Se estiver lendo no celular, dê um “zoom” na imagem:

Dito isso, as melhores épocas para realizar sua viagem de bike em Portugal são a primavera e o outono. Em boa parte dessas estações o clima fica ideal para o cicloturismo, com temperaturas entre 18ºC e 28ºC.

 

O verão português é, em boa parte de seu território, mais ameno que o brasileiro – o que  o torna bastante convidativo para o cicloturismo, em especial se você tem o mês de julho livre. No entanto, o alto volume de turistas e os preços mais elevados podem tornar sua cicloviagem nessa época um tanto mais cara.

Por fim, se você só puder viajar no inverno, encontrará temperaturas entre 15º e 0ºC e uma época com mais chuvas. Portugal não é nem de longe o país mais frio ou chuvoso da Europa. Pelo contrário: é um dos mais quentes do continente e tem um inverno semelhante a estados do sul e sudeste do Brasil.

 

As rotas e lugares

Portugal tem uma geografia bastante diversificada. Com o belíssimo litoral e também regiões montanhosas, há roteiros de cicloturismo para todos no país.

Investimentos substanciais têm sido feitos em trajetos pedaláveis e, portanto, já é possível pedalar por toda a extensão da costa portuguesa em caminhos e ciclovias próprios para ciclistas!

 

Abaixo algumas dessas rotas de cicloturismo em Portugal:

 

I. Vale do Douro

O Vale do Douro é uma região próxima da cidade do Porto. Com natureza belíssima e vários pontos históricos e de interesse cultura, pedalar pela região é uma experiência única.

 

Se é de seu interesse, na região você encontra o renomadíssimo Vinho do Porto. Em Setembro é celebrada a colheita das videiras, o evento mais importante e mais animado do ano na região.

Detalhes aqui.

II. Costa Vicentina

Praias desertas, serras, aldeias de pescadores e até cavernas. A rota de cicloturismo em Portugal pela Costa Vicentina leva o ciclista por uma das regiões mais bem preservadas de todo o continente europeu.

 

Como indicado no início do artigo, a melhor época para percorrer a costa é na primavera, outono ou até mesmo no inverno, sendo que o clima fica muito quente no verão.

 

Detalhes aqui.

 

III. Caminho Português de Santiago pelo litoral

O aumento de peregrinos que procuram a rota da costa desde a cidade do Porto até Santiago de Compostela é um exemplo da transformação que está a acontecer no território Português.

 

Em 2017 o caminho Português foi segunda rota mais procurada do Caminho até Santiago a seguir ao caminho Francês. E Portugal tem sabido aproveitar este fluxo de pessoas com o aparecimento de novos alojamentos, restaurantes, ciclovias e empresas que organizam cicloviagens.

 

Detalhes aqui

 

O melhor apoio

Se procura apoio numa aventura em bicicleta por Portugal, recomendo a empresa Top Bike Tours Portugal.

A agência, sediada no Porto, oferece diversos pacotes de cicloturismo para férias que incluem passeios em bicicleta guiados e autoguiados – este último com a montagem do roteiro para que você embarque em sua própria aventura

 

Eles disponibilizam assistência mecânica durante a viagem e transporte da bagagem todos os dias. Suporte em viatura é oferecido nos passeios de bicicleta guiados, onde estará sempre disponível água e snacks.

Caso você vá a Portugal para fazer alguma rota de cicloturismo e não queira levar sua bike, a empresa fornece aluguel de bicicletas de cicloturismo próprias para seu roteiro.

 

Top Bike Tours oferece também roteiros e pacotes para todos os níveis – do mais sedentário ao que busca trajetos desafiadores.

 

Para conhecer toda a oferta de passeios e tours ciclísticos da Top Bike Tours em Portugal, clique aqui.

https://www.aventrilha.com.br

14/DEZ/2018

Roteiros no Brasil e no exterior para uma viagem inesquecível de bike

 

E dicas essenciais para você conhecer novos lugares de bicicleta

Saia do ônibus, trem ou carro e parta para uma viagem incrível de bike. A seguir roteiros no Brasil e no exterior que são especialmente convidativos ao cicloturista – e dicas essenciais para você conhecer novos lugares, pessoas e culturas do melhor jeito que existe.

Sem demônios na Tasmânia

Uma das 30 maiores ilhas do mundo, a Tasmânia pode ser percorrida de norte a sul em uma viagem de bike de seis dias. Pertencente à Austrália e localizada a cerca de 240 quilômetros ao sudoeste do país, esse pedaço de terra de baixa altitude tem temperaturas amenas e permite uma expedição pela costa leste, ligando duas importantes cidades: Launceston e Hobart, ambas com vôos diretos para Sydney, Brisbane ou Camberra.

 

O rolê se entende por paisagens do oceano Pacífico, com direito a passagem por parques nacionais e visitas a cidades coloniais. Com média diária de 70 quilômetros, o trajeto contempla três das quatro melhores regiões de vinhos da Tasmânia. Em Launceston, Bicheno e Hobart é possível conhecer vinícolas e tomar uma taça para acompanhar a refeição. A Cycling Toursorganiza bons roteiros na região.

 

Se o viajante puder conhecer o país entre o fim de fevereiro e o começo de março, ainda corre o risco de curtir o Clarence, um festival de jazz de seis dias, além de um concerto anual ao livre, em Hobart, com shows ao vivo de músicos locais.

 

BRASIL!

 

Nos passos do imperador

A estrada mais usada por dom Pedro I foi feita com tanto capricho que dura até os dias de hoje. Os 1.600 quilômetros que passaram a ser conhecidos como a Estrada Real são atualmente um paraíso para adeptos das trilhas e viajantes de bike, com excelente sinalização e estrutura hoteleira para os cicloviajantes. Como nos tempos do imperador, desbravar o percurso completo – que cruza os estados de São Paulo, Rio e Janeiroe Minas Gerais – continua sendo tarefa difícil. Mas, para ajudar, a estrada foi desmembrada em trechos menores. Alguns deles, como o que liga as cidades mineiras de Diamantina e Ouro Preto, reservam ainda diversas cachoeiras próximas à trilha. Já o trecho final, com destino a Paraty (no caminho Velho), cruza impressionantes riquezas naturais da serra do Mar.

 

O trajeto liga o que já foi uma região de extração de minérios com o litoral, por onde tudo era escoado para a Europa. Passou a ser a principal opção de deslocamento pela região na época, e muito do que se vivia no período pré-independência ainda pode ser resgatado nas pequenas cidades do percurso. Essa mistura de história com expedição faz da Estrada Real um roteiro completo. Em um mesmo caminho é possível contemplar atrações como o Teatro Municipal de Sabará (MG), o segundo mais antigo do país, e a mata peculiar da serra do Espinhaço, em um grande trecho do Parque Nacional da Serra do Cipó.

 

Para o experiente cicloviajante Arthur Simões, que já rodou o mundo com sua magrela, este é um roteiro imperdível. “Foi minha primeira experiência em viagens de bike, mas já voltei lá outras vezes. Quando você viaja pedalando está mais aberto e exposto, por isso acaba interagindo mais com todo mundo. O povo mineiro é hospitaleiro, cativante, e isso é o diferencial de um bom roteiro”, diz ele, sobre o trecho de Minas Gerais. O site da Estrada é completíssimo e ajuda a planejar suas cicloférias.

 

Tailândia de norte a sul

No Brasil, diríamos do Oiapoque ao Chuí. Mas na Tailândia a travessia é de Chiang Mai a Phuket. Do extremo norte ao sul do país é possível realizar uma expedição de 2.170 quilômetros – com a capital Bangcoc bem na metade do trajeto. O roteiro pode se dividir em três, com a opção de se escolher apenas um dos trechos.

 

O povo acolhedor, os preços acessíveis e as belezas naturais são uma ótima combinação para quem viaja de bike, e isso a Tailândia oferece de sobra. Tudo começa com o trecho norte de Chiang Mai a Kanchanaburi (890 quilômetros), uma região montanhosa e bastante verde. Destaque para a cidade de Sukhothai (nascimento da felicidade, em tailandês), onde está um parque histórico de mesmo nome, a 10 quilômetros do centro, com mais de 190 templos que datam do século 14.

 

É no trecho central, de Kanchanaburi a Hua Hin (440 quilômetros), que os cicloturistas passam pela capital Bangkok, em uma região de transição para o clima do sul. Descendo de Hua Hin a Phuket, na perna final, o viajante terá a companhia constante do mar de Andamão. Se for para escolher um dos três trechos, esta é uma das melhores opções. Além de um clima mais agradável, a região conta com passagem pelo Parque Nacional de Khao Sok, localizado em uma cidade homônima. São mais de 600 quilômetros quadrados de floresta tropical virgem, com cachoeiras, lagoas e árvores ancestrais, em um cenário habitado por elefantes, leopardos e diversas espécies de aves. Para fechar o roteiro, cruza-se uma ponte pedalável até a última província. Phuket é a maior ilha da Tailândia, e por sua beleza, é chamada de pérola do sul. Para quem prefere fugir da muvuca, há várias outras ilhas e praias menos buxixadas por perto. Saiba mais aqui.

 

BRASIL!

Rolê europeu em Santa Catarina

 

O roteiro do vale Europeu é um dos primeiros concebidos no Brasil pensando-se especificamente no cicloturismo. Em uma viagem sugerida de uma semana, pode-se percorrer uma região bastante particular do interior de Santa Catarina. A média diária de pedal é de 50 quilômetros, em um total de sete etapas que somam 350 quilômetros por estradas com baixo fluxo de veículos, com início e fim na cidade de Timbó.

 

Pequenos vilarejos e cidadezinhas de colonização européia dão o tom do passeio, que tem como pontos fortes a segurança, a tranquilidade e a receptividade dos locais. Além de Timbó – local onde se retira o passaporte e o certificado de cicloturista oficial do passeio –, fazem parte do trajeto as cidades de Pomerode, Indaial, Ascurra, Rodeio, Doutor Pedrino, Rio dos Cedros, Benedito Novo e Apiúna. Esses nove municípios firmaram um convênio para preservar o circuito, idealizado pelo Clube do Cicloturismo.

 

Os pontos de apoio, a estrutura e a sinalização tornam o vale Europeu uma boa opção para cicloturistas iniciantes ou pouco experientes. Por outro lado, o desafio de cruzar o vale e o contato direto com uma cultura pouco explorada pelo turismo no país transforma-o em um roteiro recomendado para todos os cicloviajantes.

Cuba ainda mais libre


Com automóveis andando em limite baixo de velocidade e uma cultura que respeita a bicicleta, Cuba é um dos países que melhor recebem cicloviajantes. “O povo cubano, que viveu por muitos anos um embargo econômico, se acostumou a usar a bike como meio de transporte e parece se identificar com um gringo cortando o país em cima de uma bicicleta”, diz Erik Carnevalli, empresário e cicloturista que atravessou 1.500 quilômetros no país.

 

Para quem não conhece a ilha, ou quer vê-la com outros olhos, a bike pode ser a companheira ideal. Quanto mais tempo melhor, mas duas semanas já são suficientes para conhecer grande parte do país pedalando. Nesse tempo, deve-se percorrer uma média de 60 quilômetros por dia, muitos deles em estradas de asfalto. Além da capital, Havana, outros pontos merecem entrar no roteiro, como Trinidad, um povoado tombado como patrimônio da humanidade. Para chegar até lá, no entanto, é preciso enfrentar a serra de Escambray, com um desnível de 1.500 metros.

 

O tratamento com quem vem de fora – e principalmente de bike – costuma ser dos melhores. “A pessoa que me hospedou próximo a Havana já ligou para um amigo de outra cidade ajeitando um novo pernoite para mim, sem eu precisar pedir nada”, conta Erik.

 

Não esqueça de que Cuba exige visto, que libera a visita por 30 dias, com outros 30 prorrogáveis.

BRASIL!

Um outro olhar sob a Chapada

Poucos roteiros de bike comparam-se em beleza a este que desbrava as belezas da chapada Diamantina. Zona rica em biodiversidade, a Diamantina é um grande conjunto de serras no centro da Bahia, que não só tem as maiores montanhas – o mais alto quase chega a 2 mil metros – como as cachoeiras mais extensas da região. Já dá para imaginar o sobe e desce, com direito a recompensas inigualáveis por todo o caminho. Como o parque nacional da Diamantina e seu entorno são enormes (152 mil hectares), a bicicleta é uma ótima aliada para percorrer as trilhas.

 

Sem sinal de asfalto, o pedal ali exige cuidados especiais com o corpo e os equipamentos, para evitar paradas em locais muito ermos e isolados. Para quem decidir ir por conta própria, é recomendado um guia local, justamente pela grande distância entre povoados e a dificuldade de navegação em alguns trechos. Outra opção são roteiros fechados, como o da agência Pisa Trekking, que organiza um incrível circuito de oito dias. Com partida e retorno em Lençóis, o trajeto começa em Igatu e segue no sentido de Mucugê, Guiné e vale do Capão.

 

No rolê se percorre, em média, 40 quilômetros diários. O pacote (a partir de R$ 4.100, sem aéreo) inclui as mountain bikes, hospedagens, refeições e traslados das bagagens. Em Lençóis fica o aeroporto mais próximo desse paraíso brasileiro – outra opção é vir por terra desde Salvador.

 

Rota do sonho nos Alpes

Falar em uma viagem com peso no bagageiro em plenos Alpes pode assustar a princípio. Mas não é o caso da estrada de Tauren, que cruza a Áustria no roteiro que é considerado o paraíso do cicloturismo europeu.

 

O pedal de 270 quilômetros começa em Krimml, onde estão as maiores cachoeiras dessa região da Europa. Com os Alpes de fundo, o roteiro segue pelo vale onde escorrem os rios Salzach e Saalach. Por isso não há muito sobe e desce – com exceção do trecho entre Krimml e Salzburg, com um desnível de mais de 600 metros. Essa etapa marca a primeira metade da viagem e também o fim da formação geográfica das cordilheiras que beiram a rota. Na sequência, o trajeto segue até a afluência com o famoso rio Danúbio, na cidade de Passau, ponto de parada final.

 

Perfeita para as bikes, a estrada é asfaltada em mais da metade do caminho, com alguns trechos de terra batida. A melhor temporada acontece entre maio a outubro. São recomendados seis dias para uma travessia tranquila, aproveitando para ver castelos, cavernas (em Werfen) e lindas cidades como Salzburg, onde Mozart viveu por muito tempo.

 

BRASIL!

Com fé se pedala ao longe

Prova do crescimento do cicloturismo no país, o Caminho da Fé deixou de ser percorrido apenas por andarilhos e passou a receber indicações e roteiros pensando também na bicicleta. Rodeado por uma aura de introspecção, esse roteiro é visto como uma verdadeira peregrinação. De fato, é daquelas viagens de bike que envolve muito empenho em trilhas de terra e uma dose de espírito aventureiro para enfrentar seus cerca de 400 quilômetros, com destino a cidade de Aparecida, em São Paulo.

 

Entre Águas da Prata, na divisa de São Paulo com Minas Gerais, e a basílica de Aparecida são cerca de 320 quilômetros – este é um trecho que entra em Minas e retorna a São Paulo e que faz parte de todas as opções de trajeto do caminho.

 

No mais, o viajante pode escolher entre diversos pontos de partida, o mais próximo a cerca de 20 quilômetros e o mais longo a quase 200 quilômetros da divisa entre os dois estados.

 

Nos moldes do Caminho de Santiago, os viajantes seguem um caminho bem demarcado, no ritmo que quiserem, com direito a descontos e facilidades para quem adquirir a credencial de viajante oficial (R$ 5), disponível em pousadas e hotéis de cidades do início da travessia. Como a maior parte do percurso é em zona rural e descampada, alimentação adequada e hidratação são fundamentais para se completar o percurso com sucesso.

 

(*Reportagem publicada originalmente na Go Outside de março de 2012)

http://gooutside.com.br

Por Bruno Romano

23/NOV/2018

O que é Bikepacking e como começar

 

Os adeptos do cicloturismo, e até mesmo os entusiastas do pedal, provavelmente já ouviram falar. Se não, é questão de tempo. Afinal, o Bikepacking vem conquistando cada dia mais adeptos.

 

Mas, o que é Bikepacking? É a mesma coisa que cicloturismo? Exige muitos equipamentos especiais? Como faz para começar? Para responder estas e outras dúvidas, selecionamos algumas informações básicas sobre a modalidade que tem tudo a ver com quem curte pedal e natureza!

 

O que é Bikepacking

Explicando de uma forma resumida, o Bikepacking consiste em viajar de bicicleta levando a bagagem amarrada na própria bicicleta. Nesse sentido, a principal diferença entre o cicloturismo convencional é que não se faz uso nem de alforjes nem de bagageiros. Ou seja, carrega-se somente o essencial.

O conceito está bastante associado à ideia de acampar no meio do percurso. Como em uma cicloviagem muitos ciclistas preferem pernoitar em pousadas ou hotéis, o acampamento é quase como que a essência do Bikepacking.

 

Como começar no Bikepacking